Diz-me que língua falas, dir-te-ei quem és

Enquanto estudante lembro-me de ouvir nas aulas da minha disciplina preferida, História, que África foi dividida a régua e esquadro pelas potências europeias. E, de facto, muitas das linhas que traçam as fronteiras do Continente Negro são meras retas que em nada respeitam a diversidade cultural, de povos, de religiões e de línguas dos habitantes locais. Terá sido uma ‘brincadeira’ este jogo de interesses, por mais um punhado de terra, mais recursos naturais ou, também, pelo orgulho de deter e controlar um maior território num continente que, à luz do seu tempo, se mostrava tão tropical e exótico como se de um passaporte garantido para a riqueza de uma determinada corte se tratasse.

Mas, a nossa Europa também foi palco deste experiencialismo. Não tão drástico como as longas retas de África, mas tumultuoso o suficiente para hoje colocar em causa o próprio sonho Europeu de uma federação do Atlântico às planícies do Leste. E não, não me vou debruçar sobre a Escócia e a Catalunha. Antes de algo menos referenciado, mais encoberto e que me levou, com grande surpresa, a pesquisar melhor sobre o assunto.

Mas porquê este tema num blog sobre a Roménia? Ontem, num supermercado aqui perto de casa, vi uma publicidade a uma marca de tabaco, numa referência direta a Moçambique. Uns dias antes, à hora de almoço, apercebi-me de um certo mau estar entre romenos e húngaros. Ligar estas duas situações parece bizarro, mas o que aconteceu em África, alguns séculos atrás, e o que une (ou não) romenos a húngaros é uma experiência que partilha a mesma fórmula: desenhar fronteiras ao sabor do vento.

Moçambique em Bucareste

Será normal associar a comunidade Roma à Roménia e pensar que estes serão a grande minoria num país com cerca de 20 milhões de habitantes. Mas, surpresas das surpresas, há uma outra comunidade, mais poderosa e expressiva, que para muitos romenos é vista como uma lança no coração da Roménia: os húngaros. E porquê? Numa análise rápida, antes do final da Primeira Grande Guerra a configuração do mapa da Europa era muito diferente do atual desenho. A Áustria e a Hungria encontravam-se unidas sob a mesma coroa e as suas possessões estendiam-se para lá das suas atuais fronteiras. Um grande braço húngaro corria para leste, tocando os Cárpatos. A então fronteira entre o Império Austro-Húngaro e a Roménia era esta muralha natural, um maciço montanhoso que rasga parte da planície central europeia.

Império Austro-Húngaro pré-Primeira Grande Guerra
O Império Austro-Húngaro

Como em todas as guerras, os perdedores fazem vénia às vontades do vencedores e, no rescaldo do grande conflito de 1914-18, Budapeste viu-se obrigada a ceder largas porções do seu território aos Estados vizinhos. O Tratado de Trianon, assinado em 1920 pelas grandes potências em Versalhes, impôs uma pesada multa à Hungria: a perda de dois-terços de seu território e uma diminuição direta da população do novo Estado húngaro de 19 para apenas sete milhões de habitantes. Entre outros países, a Roménia foi daqueles que mais beneficiou com este novo status quo fronteiriço. A Transilvânia, que habitualmente associamos a vampiros e ao Drácula, com uma área superior à do território português, foi integrada no novo Reino da Roménia tendo aí permanecido até à atualidade. Apesar da existência de minorias romenas na Transilvânia pré-anexação, esta união, ainda que celebrada com pompa e circunstância em Bucareste (é, de facto, ainda hoje um feriado nacional), é resultado dos despejos da guerra e da vontade de meia dúzia de potências reunidas nos arredores da capital francesa. À imagem do que aconteceu em África, não assistimos a nenhum movimento natural da população, não existiu uma vontate popular de união, antes um povo que viu trocado, da noite para o dia, a sua cidadania.

Presença de húngaros dentro e fora da Hungria
População de origem húngara dentro e fora das atuais fronteiras da Hungria

Hoje em dia, provavelmente alimentados pelos ventos escoceses, catalães e, claro está, pelo nacionalismo húngaro que ganha cada vez mais adeptos em Budapeste, a Transilvânia vai lentamente acordando para assumir um papel mais relevante na sociedade romena. Atualmente existe uma certa autonomia, não tanto económica, antes cultural, da minoria húngara face à restante Roménia (escola, incluindo universidades, e outros tipos de serviços públicos exclusivamente em língua magiar, tornando a língua regionalmente oficial. Aliás, a própria Constituição reconhece o direito ao uso de uma língua que não a romena a todas as comunidades que somem mais de 20% da população num determinado condado). Acontece, por exemplo, nos condados onde a maioria da população é de ascendência húngara, o caso de crianças (e não só) apenas aprenderem o romeno quando se deslocam para outras localidades para continuarem os estudos ou por arranjarem um trabalho que não se localiza na sua cidade natal.

Este mal estar não se aproxima do mesmo nível a que estamos habituados em Espanha e fica a anos-luz dos problemas entre Valões e Flamengos na Bélgica, mas mostra, isso sim, que existe uma sociedade que se revolta de forma muitas vezes bem aberta, às benesses que uma fatia da população beneficia.

Minorias magiares na Roménia atual (azul e verde-escuro)
Minorias magiares na Roménia atual (vermelho, azul e verde-escuro representam as maiores concentrações de húngaros)

Não creio que esteja em causa a integridade territorial da Roménia, mesmo após os sucessivos ímpetos e discursos nacionalistas do partido húngaro Jobbik, que advoga a integração de todas as regiões de fala magiar na atual Hungria, mas poderemos estar a assistir a um retrocesso no historial de tolerância europeia sobre as regiões minoritárias. Apesar de alguns direitos estarem protegidos pela lei máxima do país, a população mostra indicadores cada vez mais elevados de insatisfação face às crescentes movimentações da minoria húngara em, por exemplo, obter a dupla nacionalidade. Por um lado, o Parlamento e os sucessivos governos de Budapeste já suavizaram os requisitos para obtenção da nacionalidade húngara por todos aqueles que o sendo historicamente, não habitam o país; por outro, dentro da Roménia o movimento ‘União Democrática dos Húngaros na Roménia – UDHR’ tem mantido uma presença ativa em todas as eleições legislativas, com uma percentagem de votos a rondar os 6%. E é neste ponto que política, economia e relações diplomáticas se tocam. Se por um lado assistimos a um descontentamento popular pelo tratamento diferenciado que os húngaros romenos recebem, por outro várias empresas de origem húngara investem milhares de euros na região. Acabam por beneficiar a economia dos condados e, em última análise, a economia de toda a Roménia. Não é de estranhar, então, que o UDHR tenha sido um apoiante ativo de sucessivos governos em Bucareste, mesmo não sendo formalmente parte do Executivo romeno. Esta questão tem sido deixada em segundo plano pelos governos dos dois Estados. E este segundo plano não é de agora. Já durante a era soviética os dois países tinham uma posição oficialmente passiva quanto a este assunto, apesar de Moscovo os encorajar a ‘sarar as feridas‘.

A verdade é que hoje, numa Europa que durante anos promoveu o pan-europeísmo como a solução para o futuro do continente, ainda existem pequenas nódoas negras e arranhões que mais não são que ‘pedras no sapato’ do sonho europeu. Desfazer-se delas poderá ser difícil, até porque, se olharmos para a história – e com ela muitas ilações podemos retirar para o futuro-, sempre que na Europa se tentou impor a vontade de um sobre os demais, cenários de guerra acabam por encerrar todos os capítulos. No próximo fim de semana a Roménia vai a votos. Um novo presidente sairá deste escrutínio. Só depois dos resultados finais veremos qual o rumo que a história dos húngaros romenos seguirá.

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