O Povo é quem mais ordena

Que sinal maior de democracia podemos ter do que o resultado da vontade popular expresso numas eleições?

Ontem, dia 16 de novembro, a Roménia parou para a segunda volta das eleições presidenciais. Há dois fins de semana atrás, os resultados da noite eleitoral lançaram para o segundo round dois pesos pesados da política interna: Victor Ponta, líder do Partido Social Democrata e primeiro-ministro romeno, e Klaus Iohannis, líder dos liberais e presidente da Câmara Municipal de Sibiu.

Não é apenas a ‘esquerda’ ou a ‘direita’ política que separam Ponta de Iohannis. Ponta, no poder desde 2012, representa a esquerda. O PSD romeno é o resultado de uma evolução do antigo Partido Comunista. A sua campanha baseou-se em aspetos culturais romenos, tendo sido apelidada de ‘popular’ pelos principais comentadores nacionais. Klaus Iohannis é líder do Partido Nacional Liberal e famoso pelo seu método de fazer política: direta e transparente. Ponta tem consigo uma pesada herança governativa, manchada pelos desentendimentos constantes com o Presidente cessante,  Traian Băsescu, e pela venda de importantes empresas públicas a privados. Por outro lado, Iohannis beneficia do seu sucesso enquanto edil:

Klaus Werner Iohannis tem 55 anos e é um antigo professor de Física num liceu. Durante os seus quatro mandatos como autarca, desde 2000, Sibiu assistiu a um crescimento do turismo, tendo sido capital europeia da cultura em 2007. O edil foi reeleito com resultados próximos dos 80%. Em 2009, quatro dos cinco partidos com assento parlamentar quiseram nomeá-lo primeiro-ministro – após a queda em bloco do Governo do liberal Emil Boc, mas o Presidente Băsescu recusou a proposta. – Expresso

Estas eleições ficarão na história por três grandes razões. Em primeiro a massiva adesão dos romenos às urnas, especialmente os que vivem no estrangeiro; em segundo, as manifestações populares pacíficas que demonstram o quão importante estas eleições foram; e, finalmente, porque pela primeira vez os romenos elegem um cidadão pertencente a uma minoria. Além de romenos, o país acolhe minorias como os húngaros, os roma e os alemães, sendo desta última da qual Iohannis descende.

Na primeira volta os romenos na diáspora viram-se privados do direito ao voto em muitas embaixadas e consulados, ‘devido à má organização do Ministério dos Negócios Estrangeiros‘, lê-se no site Adevarul. Circulavam apelos ao voto em Iohannis, mas no final de contados todos os boletins de voto, Ponta conseguiu a vitória. A diferença (39,6% vs 30,2%) entre os dois candidatos era grande, mas muitos romenos não deixaram de acalentar a esperança de um futuro político diferente.

Os romenos no exterior revoltaram-se! A bomba da diáspora estava lançada. Dentro e fora do país os cidadãos organizaram-se e uma onda massiva de protesto contra o ‘atropelo à democracia‘, como muitos apelidaram, resultou numa ida massiva às urnas. As televisões mostravam filas intermináveis de cidadãos que queriam exercer o seu direito de voto. Nalgumas cidades europeias, milhares de eleitores esperaram mais de cinco horas para poderem votar. O entusiasmo ia crescendo à medida que iam sendo debitadas pequenas sondagens em locais tão distantes como a Coreia do Sul ou a Nova Zelândia, onde Iohannis ia ganhando com maiorias impressionantes. Independentemente do resultado, os romenos iriam sair à rua. Para celebrar a vitória de Klaus Iohannis, para protestarem contra Ponta, para exigirem uma mudança de regime. Sair à rua era ponto assente. E saíram! Milhares encheram o centro de Bucareste (houve igualmente manifestações noutras cidades, embora com diferentes magnitudes), marcharam pelas avenidas principais, empenhando a tricolor romena. Numa noite fria, uma massa humana, unida por um espírito revolucionário, celebrou o que pode ser o princípio de uma grande mudança na Roménia.

Às 21h locais, 19h em Portugal continental, são divulgados os primeiros resultados: vitória de Iohannis! Curta, é certo, mas ainda faltavam contabilizar milhares de votos da diáspora. Cerca de meio milhão de romenos não deixaram passar estas eleições em branco.

Assiste-se em direto às primeiras celebrações na sede do Partido Liberal. Ponderando todas as palavras, Iohannis surge no púlpito para uma primeira declaração pública: ‘A votação foi fenomenal. A participação foi enorme‘. Do lado oposto da barricada, uma mensagem curta e dura, apelando aos observadores eleitorais para não deixarem escapar nenhum voto. ‘A vitória não é certa ainda. A diferença entre Ponta e Iohannis é curta‘, fala ao país um responsável do PSD. E de facto a diferença era mínima. Um ponto percentual.

As televisões transmitiam imagens em direto de Bucareste. Centenas de pessoas começaram a reunir-se na Praça da Universidade. Cedo este rio engrossou e da praça passaram para as avenidas em volta. Um oceano de vozes num movimento pacífico. Por cima das cabeças da multidão viam-se muitas bandeiras romenas. Algumas com um buraco no meio, sinal que nos remete automaticamente para a queda do regime comunista de Nicolae Ceaușescu, em 1989. Resultado final: 54.5% vs 45.5%. O êxtase!

E, depois de muitas horas de espera, com uma margem cada vez maior a separar Ponta de Iohannis, o novo futuro presidente desce à rua e junta-se à população. ‘Às vezes vinham-me as lágrimas aos olhos perante o turbilhão de sentimentos e perante tudo o que estava a viver e a sentir‘, confessou uma colega de trabalho durante a hora de almoço desta segunda-feira.

Como todos sabemos, não será fácil a mudança pela qual todos os romenos anseiam. Ponta permanecerá no cargo de primeiro ministro (embora acredite que outras manifestações terão lugar caso este não se demita) e Iohannis não conseguirá, de um dia para o outro, mudar o país. Há cancros a mais na Roménia e, por muito bom que o médico seja, também o paciente terá de colaborar para se livrar de tais males. De qualquer forma, o princípio da mudança aconteceu há poucas horas. Os romenos perceberam que o voto é a sua arma mais letal.

Anúncios

Uma opinião sobre “O Povo é quem mais ordena

  1. Houve muitas lagrimas, a Romenia começou a respirar por si mesma finalmente.
    Como é q o rato mickey(como é apelidado vitor ponta) tem a lata de n se demitir do governo ?! Alguem q consubstancialmente plagiou o doutoramento e diversos documentos de relevo, deixaria o governo sem leme se ganhasse as presidenciais e retorna como se nada fosse, a um governo q queria deixar órfão.

    Gostar

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s