‘Aquele ex-campeão cujo nome não pode ser pronunciado’

Caricata esta situação que deixa um dos maiores clubes de futebol romenos sem nome e sem emblema. Ao leitor a história pode apenas parecer uma simples questão de direitos de uso de uma marca específica, mas, na realidade, o caso Steaua envolve Entidades Governamentais, o Exército, dinheiro e corrupção. Muita corrupção!

Steaua

Nuno Madureira, do site Mais Futebol, conta-nos os pormenores em ‘Aquele ex-campeão cujo nome não pode ser pronunciado‘:

Jogava-se o quinto minuto do tempo de compensação quando o clube-anteriormente-conhecido-como-Steaua conseguiu o único golo do seu jogo de domingo. O marcador assinalou devidamente o feito, conseguido de forma acidentada pelo polaco Szukala – que, na sequência do lance, seria violentamente atingido a soco pelo guarda-redes visitante. Por baixo de um quadrado em branco, onde deveria estar o emblema do clube da casa, podia ler-se «Visitado, 1, CSMS Iasi, 0».

Esta seria, em condições normais, a 14ª vitória do Steaua, líder destacado da Liga romena, em 17 jornadas. Mas, pelo menos para efeitos legais, esta foi, sim, a primeira vitória do clube-anteriormente-conhecido-como-Steaua. Ou, se preferirem, em versão para adolescentes, aquele-ex-campeão-da-Europa-cujo-nome-não-pode-ser-pronunciado.

Na origem desta indefinição a sentença do Supremo Tribunal de Justiça da Roménia, conhecida na última quinta-feira. Uma decisão que encerrou, com uma reviravolta inesperada, um litígio legal que opôs, durante mais de uma década, as sucessivas administrações do Steaua ao Ministério da Defesa. Em causa, estava o direito a usar o nome e o logo do clube que, em 1986, no final da Guerra Fria, se tornou o primeiro campeão europeu proveniente do Bloco Leste.

Segundo a sentença agora conhecida – e que não tem recurso – a marca «Steaua» é pertença do Ministério da Defesa Nacional, que o fundou como clube do exército, em 1947, e o manteve sob o seu controlo até 2003, altura em que entrou em cena George «Gigi» Becali. Atualmente na prisão, a cumprir pena de três anos por desvio de bens do Estado, Becali é a figura mais incontornável e polémica no dirigismo romeno da última década. Tendo obtido a maioria das ações em fevereiro de 2003, Becali passou os dois anos seguintes a tentar registar como sua propriedade a marca mais poderosa do futebol romeno.

A oposição do Ministério manteve-se, mas em dezembro de 2004, uma decisão do tribunal autorizou a Sociedade Anónima liderada por Becali a registar, por dez anos, a marca FC Steaua Bucareste, exclusivamente dedicado ao futebol – enquanto o CSA Steaua Bucareste manteve a ligação ao exército, ficando com as outras modalidades.

Com o apertar do cerco legal a Becali, a pressão do Ministério intensificou-se e, em 2011, arrancou o primeiro pedido de anulação. Depois de duas vitórias em tribunal para Becali, a sentença definitva saiu no último dia 4 de dezembro, devolvendo ao Ministério da Defesa Nacional toda a propriedade sobre a marca Steaua. E foi assim que, quatro dias mais tarde, perante apenas dois mil espectadores, o líder da Liga romena, atual campeão em título, entrou em campo com onze jogadores, e sem emblema, cores, ou, sequer, um nome pelo qual os adeptos pudessem chamar.

«Como seria com Benfica ou FC Porto?»

O internacional caboverdiano Fernando Varela – quarta época na Roménia, depois de ter alinhado por Trofense e Feirense na Liga portuguesa – foi testemunha involuntária de um jogo que se arrisca a ficar na história, como contou ao Maisfutebol: «O tema foi muito debatido em toda a Roménia, nos últimos dias, mas nós fizemos o possível para pôr a informação à parte. Mas ainda assim foi estranho olhar para o marcador e não ver lá o nome e não ouvir o clube ser chamado na instalação sonora», conta.

«Triste» é a palavra que lhe ocorre, quando lhe é pedido para definir o ambiente no estádio: «Os adeptos estavam tristes com toda a situação, isso era visível. Só mesmo o golo nos descontos lhes deu alguma alegria. Mas toda a gente comenta como é possível um clube com tanta história, com tantos troféus internacionais, cair numa situação destas», resume.

Ao contrário do que foi noticiado em alguns meios, não é verdade que o Steaua tenha sido obrigado a jogar com equipamentos novos no último domingo: «Jogámos de amarelo, com o alternativo que já tínhamos para esta época», explica Varela, «só que o emblema e as referências ao clube foram tapadas. Também foram ocultadas nos programas de jogo e puseram faixas a tapar a palavra Steaua em alguns pontos do estádio», conta.

Fernando Varela não cai no ridículo de dizer que é adepto do Steaua desde pequenino, mas garante estar identificado com o sentimento de orfandade que atingiu os torcedores no último domingo: «Todos os clubes por onde passo me dão alguma coisa, e eu tenho de identificar-me com a sua história e com as pessoas, para poder entregar-me a cem por cento. Imagina o que é Benfica ou FC Porto perderem o seu nome de um dia para o outro? De certeza que ia haver manifestações. Foi mais ou menos isso que se passou aqui», conta.

Ainda assim, o acordo assinado esta segunda-feira entre a administração do clube e o Ministério da Defesa garante tréguas até final do ano: nos próximos dois jogos – com o Dínamo Kiev, na quinta-feira, para a Liga Europa, e novamente com o Iasi, no domingo, para a Taça da Liga – o Steaua vai poder exibir o nome e as cores tradicionais. Depois, segue-se a pausa de inverno. A competição só recomeça em fevereiro e Varela acredita que nessa altura a história estará resolvida, provavelmente a troco de uma compensação financeira: «Eles vão fazer um esforço e acredito que o clube vai recuperar rapidamente toda a identidade, mesmo que tenham de pagar alguma coisa ao Ministério. Ou então, vai ser preciso arranjar-lhe outro nome, que é a outra hipótese comentada nesta altura», revela.

Para Varela, porém, esse regresso à normalidade só surgirá depois de uma grande aventura: o regresso à Taça de África das Nações, a CAN, que decorre entre 17 de janeiro e 8 de fevereiro, na Guiné Equatorial. Cabo Verde brilhou na estreia, chegando aos quartos de final, com Fernando Varela entre os titulares.

Desta vez, depois de mais uma qualificação brilhante da seleção agora orientada por Rui Águas, o central espera repetir a presença na maior competição do futebol africano: «Estou a trabalhar para isso e se tudo correr normalmente espero fazer parte dos 23. Creio que o estágio arranca no dia 5, em Portugal, e queremos muito dar mais uma alegria ao povo caboverdiano, em especial com tudo o que tem acontecido na ilha do Fogo, que é uma situação que nos toca muito, e que vemos ao longe com grande preocupação», lembra.

Quando Varela voltar à Roménia, talvez já o clube anteriormente conhecido como Steaua tenha recuperado o direito ao nome. E possa voltar a conjugar no presente as glórias do passado, que tiveram ponto mais alto numa célebre noite de 7 de maio de 1986, em Sevilha.

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Uma opinião sobre “‘Aquele ex-campeão cujo nome não pode ser pronunciado’

  1. Isso é o Estado a querer q o Becali lhe compre uns F16(zitos) quiça ao Estado Portugues…assim a modos como foi os submarinos…
    Esta questao vai ser resolvida facilmente.
    Se vive na Romenia tem de aprender algo basico q, apesar de tudo e para o bem de todos estará acabar, se traduz no disposto:
    O q nao se resolve c 1 saco de dinheiro…
    …resolve-se com outro saco de dinheiro. Simples.

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