As above, so below

As Above, So Below‘ é o nome de um filme de segunda categoria que nos leva até ao mundo subterrâneo secreto de Paris. Foi gravado na capital francesa, mas bem que podia ter sido gravado em Bucareste.
E porquê? A cidade tem no mundo subterrâneo um dos seus maiores mitos urbanos. Verdade ou mentira, o mistério e o medo de um mundo por baixo dos nossos pés conjugam-se e criam lendas que ficam na memória de todos os que habitam a cidade.

Num misto de lenda e realidade, Bucareste sempre foi conhecida por ter construído um emaranhado de túneis no seu subsolo. Escavações recentes provam que desde os tempos das invasões otomanas (falamos do século XV) que a cidade construía abrigos e pequenos túneis que permitiam esconder pessoas e mantimentos aquando de ataques vindos do sul. Ao contrário de outras cidade mais a norte, Bucareste não era fortificada o que facilitava os ataques dos inimigos. Mais tarde, esta mesma rede deixou de ser usada para protecção, passando os túneis a funcionarem exclusivamente como armazéns subterrâneos. Eram grandes o suficiente para permitirem a passagem de carroças. Por exemplo, no centro histórico de Bucareste, mesmo junto a uma das entradas do Palácio do Banco Central Romeno, na rua Lipscani, são visíveis restos destas pequenas construções subterrâneas.

Se a historia fosse linear, o mito muito provavelmente acabaria aqui. Mas não! A cidade foi crescendo e após a instauração do regime de Ceauşescu razões não faltaram aos habitantes de Bucareste para acreditarem que realmente existia (ou existe?!) um mundo por baixo das ruas da capital.

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O último ditador romeno nunca escondeu o seu desejo de ser considerado o maior de todos os presidentes do bloco soviético. É certo que estava longe de um Estaline ou de um Lenine, mas os seus sonhos pouco a pouco foram tomando forma. Majestosas avenidas e grandes palácios, que ainda hoje marcam a paisagem de Bucareste, foram o sinal mais visível da megalomania de  Ceauşescu. E se à superfície todos podiam ver o que ia sendo construído, para muitos, as movimentações debaixo de terra sempre foram motivo de interesse.

The retired colonel Nicolae Kovacs disclosed, to “Libertatea”, that the House of the People contains an anti-nuclear bunker, joined to the main state institutions by 20 kilometres of tunnels.

“The tunnels coming from the Revolution Square are interrupted, at intervals, by doors weighing seven tonnes each, to seal off the area in case of an emergency. The system also assimilated older catacombs, made in the inter-war period, as is the one in the Cotroceni area, built at Carol II’s orders. There are also a lot of secondary tunnels, as is the one joining the House of the People and the Izvor subway station, which will be probably used, at some point, for public utilities,” Colonel Kovacs added.

As notícias chegam-nos também da costa oeste dos Estados Unidos:

Revolutionary soldiers found a vast labyrinth of safehouses and tunnels used by police forces loyal to Nicolae Ceausescu, some with entries hidden in cemetery burial vaults and subway systems.

“There is one linking the Baneasa and Otopeni airports,” a distance of three miles, an unidentified architect calling from New York told the station. In Los Angeles Times

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Ao mesmo tempo que aterrorizava a população, o mito dos túneis secretos fascinava muitos dos habitantes de Bucareste. O auge chegou, provavelmente, com a Revolução de 1989. A queda de Ceauşescu e as transformações profundas que a sociedade romena viveu são vistas como o clímax da psicose em que a Roménia se encontrava. A população lutava por um novo status quo, pela democracia e pela liberdade. Um passo rumo a um sistema político-económico diferente, mas que, para o bem e para o mal, ainda se encontrava amarrado a 24 pesados anos de ditadura. Cedo a Revolução criou junto da população um novo mito, os ‘terroristas’. Homens, leais ao antigo regime, que surgiam do nada, para vingar as ordens do velho ditador. E de onde surgiam os ‘terroristas’? Dos túneis secretos…

“The theme of the underground Bucharest reappeared during the 1989 Revolution, when terrorists were believed to be living below the city and just pop up in various places at the surface, when least expected. Some even pretended to know their exit spots, some hatchways in today’s Revolution Square. This story has never been confirmed. This obsession can be psychoanalyzed, and I myself have tried to analyze that. Public psychology works well in this situation and it can clearly be identified when it comes to the Parliament Palace. This continuous mapping of the building, of its underground is present in the public subconscious, just like the theme of master builder Manole.  Mentions about the underground area below this building can be found in various texts and books. A lieutenant who used to work at the Parliament Palace, which, at the time, was known as the People’s House, said he had witnessed how a man was buried alive in concrete. Rumors about it spread after 1989. It’s stories like this that create urban myths”, conta-nos Augustin Ioan, professor de História da Arquitetura da Universidade de Arquitetura e Urbanismo Ion Mincu de Bucareste.

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Até hoje nunca se provou a real existência de tão extensa rede de túneis secretos. Mas a verdade é que a cidade está cheia de locais secretos e passagens proibidas. Nos vários parques da cidade são visíveis entradas para locais subterrâneos ou casas com acessos proibidos no meio dos jardins. No Parque Tineretului, um antigo crematório – um edifício cuja arquitetura engloba símbolos claramente maçónicos – é vigiado 24 horas por dia e o seu acesso é proibido ao cidadão comum. Aquando da construção das linhas de metro mais recentes, trabalhadores afirmaram ter descoberto secções de túneis já escavados. Pequenas histórias que juntas tornam a vida subterrânea da cidade muito mais interessante.

Mas, apesar do número incontável de páginas de internet sobre este assunto, das reportagens e estudos já feitos, há uma questão que o mito ainda não conseguiu responder e que leva muitos a colocarem em causa a veracidade da grandiosidade da rede. Se o objetivo principal de Ceauşescu era ligar os principais edifícios governamentais com os dois aeroportos da cidade, e assim criar um sistema de fuga segura em caso de necessidade, porque razão, no dealbar do fim do regime, fugiu o ditador e a sua mulher de helicóptero de Bucareste? Não teria sido mais seguro utilizar os supostos túneis secretos? Fica a dúvida…

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