Um rei vezes dois

Esta é a história de Miguel. Um rei que subiu ao trono duas vezes, resistiu ao período entre guerras e que acabou por ser o último monarca a reinar para lá da Cortina de Ferro.

Num destes fins-de-semana, numa das minhas passeatas por Bucareste, dei por mim no cruzamento da rua Arhitect Ion Mincu com a Pavel Dimitrievici Kiseleff. Caminhava no norte da cidade, bem perto do Parque Herăstrău, no Restelo ou na Foz cá do burgo, zona de casas apalaçadas, muitas embaixadas e ruas e passeios imaculadamente limpos. Parei ao sinal vermelho na passadeira e olhei para o lado. Vejo um busto e o símbolo real da velha Roménia. Aproximei-me para ver.

Saúdo Miguel I, rei da Roménia. O imponente busto é uma homenagem das autoridades da capital ao último rei dos romenos. E porque a história da Europa é feita de reis e rainhas, todos primos, primas, tios e avôs uns dos outros, não admira que Miguel tenha ADN português! É bisneto de D. Antónia de Bragança e trisneto da rainha, também portuguesa, D. Maria II. Mas, o que torna realmente interessante D. Miguel é o seu papel na história da Roménia.

Nascido no Palácio de Sinaia, a 25 de Outubro de 1921, Miguel ascende ao trono com a tenra idade de seis anos. Novo de mais para comandar os destinos do país, a Roménia foi durante três anos, até 1930, governada por uma regência. O país enfrentava as movimentações e convulsões pós-Primeira Grande Guerra e era necessário um rei de palavra e atitude firmes. A opção para substituir o pequeno Miguel recaiu no seu próprio pai, Carlos II. D. Carlos viria a governar o país até 1940, data na qual, através de um golpe de Estado, o Mareșal Antonescu retira a coroa a D. Carlos e chama de volta D. Miguel. Após a mudança de coroas, D. Carlos passou a viver no exílio, tendo falecido no Estoril (o retiro de luxo de muita monarquia europeia do pós-Segunda Grande Guerra). Com Antonescu como primeiro-ministro, a Roménia conhece um período de ditadura e o Governo alinha-se, a contra gosto do novo rei, com os alemães nazis.

Durante a Segunda Grande Guerra, o país encontrava-se na encruzinhada de dois grandes exércitos: o nazi e o soviético. O país tinha cedido a soberania de porções do seu território a potências estrangeiras e, exausto das sucessivas derrotas, dos ataques aéreos e dos avanços das forças soviéticas junto à fronteira oriental do país, D. Miguel lidera um golpe de Estado que depõe o Mareșal Antonescu e volta a colocar Bucareste ao lado dos Aliados.

O destino estava já traçado e não teria um final feliz como nos filmes. Antes pelo contrário. Moscovo nunca escondeu as suas ambições sob o Leste da Europa e, como vencedores do grande conflito mundial, mantiveram a Roménia sob controlo apertado. Após 1945 é instaurado um regime comunista no país, regime este que rapidamente tratou de impôr os ideais de esquerda que a União Soviética ditava. Entre eles, a criação de uma república popular e a consequente abolição da monarquia.

Quando o rei sai de cena

Um rei vezes dois

A abdicação do rei é ainda um tema nubloso, com diversas fontes a contarem uma história com diferentes nuances. A verdade é que a 30 de Dezembro de 1947 D. Miguel deixa de ser rei e a Roménia transforma-se numa república. É dada ordem de saída do país ao ex-monarca e, provavelmente mais doloroso do que ser expulso do país, as novas autoridades deixam de lhe reconhecer a cidadania romena.

O regresso à Roménia só viria a acontecer muitas décadas mais tarde, a 25 de Dezembro de 1990, precisamente um ano após a revolução que depôs o regime comunista que expulsou o jovem rei. A visita seria curta, menos de 24 horas. Mais tarde, em 1992, um novo regresso que deixou em pulverosa as autoridades romenas. A nova visita de D. Miguel arrastou para as ruas de Bucareste, indicam números oficiais, mais de um milhão de pessoas. Todas para ver passar o ‘seu’ rei. O Presidente de então, Ion Iliescu, decide proibir o regresso de D. Miguel por mais cinco anos. Só em 1997, o Governo decide, finalmente, restaurar a cidadania do antigo rei e aceitar a sua presença permanente em território romeno.

Caso a Roménia optasse por voltar à monarquia, algo que D. Miguel assume como uma decisão que apenas o povo romeno pode escolher, a sua filha, Margarida, seria a nova monarca após a sua morte.

 

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