Omnipresente, icónico e magnético

As proporções são bíblicas. É um edifício omnipresente, icónico e magnético. Tudo nele assume um tom majestático, ao jeito das grandes monarquias imperiais ou dos regimes dos petrodólares do Golfo Pérsico. Herança maior de um regime não democrático, o Palácio do Parlamento é um must-see para quem visita Bucareste. No post de hoje vamos conhecer o segundo maior edifício administrativo do mundo.

Uma visita a Bucareste implica uma passagem pelo Palácio do Parlamento. Tal como quem vai a Paris e visita a Torre Eiffel, ou em Roma ‘vê o Papa’, este palácio é uma das principais atracções (se não a maior) da capital romena. Estamos perante um edifício que junta arquitectura, história, política e arte. Cada visita é como um mergulho na história recente da Roménia.

O homem sonha manda, a obra nasce

Localizada no coração de Bucareste, a ‘Casa do Povo’, nome original para o palácio, tem mão do antigo ditador romeno. Nicolae Ceaușescu deu ordens para a construção de um faustoso edifício que simbolizasse a união entre os vários poderes do Estado e o cidadão. Presidência da República, Grande Assembleia Nacional, Governo e Tribunal Supremo de Justiça ficariam alojados no mesmo local. Era o grande edifício da ‘democracia’ comunista (e soviética) que deveria encher de orgulho os cidadãos do país. Estávamos no apogeu da megalomania de Ceaușescu. Ele era o ‘Conducator‘, o líder da Roménia, o ‘Geniul din Carpati‘, o Génio dos Cárpatos. Tirando proveito do rastro de ruínas deixado pelo grande terramoto de 1977, o projecto levou à completa destruição de 1/5 da cidade, incluindo os seus bairros históricos (sobreviveu o agora famoso Centrul Vechi – o Bairro Alto cá do burgo), 19 igrejas ortodoxas e três protestantes, seis sinagogas e 30 mil habitações.

Anca Petrescu traduziu para o papel a ideia de Ceaușescu e liderou uma equipa de 700 arquitectos nesta tarefa hercúlea de construir a casa que domina a capital. As obras arrancaram em 1983, mas foram suspensas no final de 1989, como resultado da Revolução Romena. À data, o edifício não se encontrava completo. O mesmo se aplica à actualidade.

Uma questão de tamanho

Uma visita ao palácio começa por um controlo de segurança. Para todos os efeitos, estamos dentro do edifício que alberga as duas câmaras do Parlamento e o Supremo Tribunal de Justiça. Subimos uma pequena escadaria e entramos no primeiro grande hall, o mesmo por onde entram os deputados para as sessões da câmara baixa do Parlamento. Tudo neste edifício é medido numa escala não convencional. Informam-nos os guias, num tom pouco efusivo, muito mecânico e com poucas expressões faciais, das tonelagens que vamos encontrar. Os lustres, do mais fino cristal, são medidos às toneladas, os corredores aos quilómetros e o número de salas e janelas aos milhares. Não existe propriamente um estilo arquitectónico que explique a excentricidade do palácio. A ideia nasceu depois de uma visita do ditador à Coreia do Norte. Ainda segundo os guias, tudo o que foi utilizado na sua construção é 100% romeno. As pedras, o cimento, o aço e o vidro, mas também as mármores e todas as pedras mais requintadas, os cristais, as tapeçarias, as madeiras e todos os tecidos. O seu interior é surpreendentemente amplo. Diria até que nos faz parecer pequenos perante o tamanho de cada salão. Sessenta, 300 ou 1200, lugares disponíveis em muitas das salas do palácio. 340 mil metros quadrados de superfície espalhados ao longo de doze andares (dizem as teorias da conspiração que existe o mesmo número de pisos no subsolo) e 270 são os metros de comprimento da fachada; 1100 salas, salinhas e salões, 480 lustres, cortinados e carpetes que pesam toneladas e que tiveram de ser produzidos no interior do edifício tal a sua dimensão.

Ao fim de uma hora de visita, com uma breve paragem pela varanda principal do edifício com soberbas vistas para a Boulevard Unirii, vimos apenas 10% do edifício.

Omnipresente, icónico e magnético - Vista da Boulevard Unirii

O reverso da medalha

Ainda hoje a construção está rodeada em polémica. O principal ícone da cidade é, simultaneamente, um monumento à excentricidade e extravagância de Ceaușescu, líder de um regime autocrático que teve o seu fim há apenas 26 anos. Para financiar o projecto, o Governo de então contraiu enormes dívidas ao estrangeiro. Para as pagar, Ceaușescu levou a economia do país à exaustão, exportando toda a produção agrícola e industrial da Roménia, o que levou a constantes cortes de electricidade, gás e aquecimento nas cidades. Relatam os livros de História que neste período o standard de vida no país baixou para níveis nunca antes registados e que fome e pobreza passaram a ser comuns no dia-a-dia dos romenos. No mesmo país, na mesma cidade, dois mundos em choque constante: por um lado, uma sociedade empobrecida e refém de um regime de opressão e terror; por outro, a vida faustosa e glamorosa de um dos últimos grandes ditadores do Leste europeu.

Omnipresente, icónico e magnético - Vista do Parque Carol I

Polémicas à parte, este é um edifício que integra todos os guias de Bucareste. Uma visita ao seu interior ajuda a perceber a história recente do país e, perante a enormidade do edifício, damos azo à imaginação e pensamos o futuro da Roménia.

Palatul Parlamentului, Bulevardul Națiunile Unite, București // http://www.cdep.ro

Passaporte ou Cartão de Cidadão são de apresentação obrigatória! Museu Nacional de Arte Contemporânea também se localiza neste edifício.

Estação de metro mais próxima: Izvor (Linhas M1 e M3), 750 metros

Anúncios

8 opiniões sobre “Omnipresente, icónico e magnético

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s