No dia em que o ‘Lisabona’ chegou carregado de sardinhas

Em jeito de resumo, esta foi uma semana infernal. Calor, muito calor, pessoas, muitas pessoas em modo ‘lata de sardinha’. Um sacrifício que todos os que vivem em Bucareste sofrem e que nos últimos dias foi acentuado pelas altas temperaturas registadas.

Tal como no resto da Europa, as altas temperaturas também se fizeram sentir em Bucareste. É extraordinária a amplitude térmica que a cidade regista ao longo do ano. Se agora estavam 40 ou mais graus, no Inverno descemos aos -20. O calor chegou sem ser convidado e fez uma entrada a pés juntos.  Mesmo estando no Verão e sendo a cidade rica em áreas verdes, poucos eram/são os espaços onde os transeuntes se podem refugiar. As esplanadas (quem vai para uma esplanada às 14h com estas temperaturas?!) são locais óptimos para derreter plástico! Os jardins? Demasiado secos e o vento traz uma brisa demasiada quente para ser confortável. Praia? Loooonge… a mais de 200 quilómetros. Só à noite se circula mais airosamente. E é nesta altura que as esplanadas se enchem de vida e que bebidas carregadas de gelo ajudam a refrescar da brasa do dia.

E se pensarmos que debaixo de terra, longe dos raios de Sol, a situação é melhor, então estamos enganados. Há um outro sacrifício que toca todos aqueles que utilizam a rede de metro da capital. A nossa expressão ‘apertados como numa lata de sardinhas‘ é a que melhor descreve o horror de viajar todos os dias em horas de ponta. Se há coisa que me irrita é aquele jacto de ar quente que se sente ao entrar na estação de metro. A movimentação de ar é estupidamente grande. É ver cabelos, chachecóis e tudo o que possa levantar voo no ar perante tal secador industrial.

Entramos na estação. Passado o controlo de bilhetes, descemos em direcção à plataforma. Está cheia de pessoas, o que é normal em horas de ponta. Olho para o mostrador digital da estação que me indica há quanto tempo partiu o último comboio. Mais do que dois minutos e será de novo o pandemónio! Lá vem ele, o ‘Lisabona’, branco e cinzento, carregadinho de pessoas sardinhas prontas a servir. A primeira série de novas composições do metro de Bucareste, construídas pela Bombardier há um punhado de anos, carrega o nome de várias cidades europeias. Lisboa é uma delas. Abrem-se as portas e percebe-se o alívio, ainda que momentâneo, que os passageiros sentem nesta paragem. O metro não tem ar condicionado (nem mesmo as mais recentes e brilhantes composições dispõem dele). Não quero acreditar que os milhões que foram gastos, com o precioso contributo de Bruxelas, na aquisição destas composições não incluiu o ar condicionado. Ar forçado sim, dizem alguns, mas a verdade é que o único ar que pode correr é o que vem das janelas abertas.

Costas com costas, braços com braços, coitados dos mais baixos, a transpiração é algo que afecta todos os que aqui circulam. Às vezes parece mesmo que acabei de correr uma data de quilómetros. Escorre suor pela cara dos meus vizinhos. As camisas e t-shirts colam-se ao corpo. O ar é super quente e o desconforto é total. São 8:30 da manhã e é assim todos os dias da semana. Chegamos à Unirii e, por momentos, sentimos a liberdade de ter algum espaço livre. Mas é momentâneo. Esta é a estação principal de toda a rede, onde se cruzam três linhas. Cedo cedo voltará o metro a encher-se de sardinhas e o local de descarga, para mim, vem só cinco estações mais à frente!

A lata volta a encher-se no final do dia, quando milhares de passageiros fazem o caminho inverso de regresso às suas casas. A vida de sardinha, num clima destes, não é nada fácil!

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3 opiniões sobre “No dia em que o ‘Lisabona’ chegou carregado de sardinhas

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