Bandeira vermelha

Na semana em que chegou oficialmente o Outono à Roménia, nada melhor do que recordar o dia em que, depois de muitos meses afastado do oceano, finalmente vi o Mar Negro. Um dia que deveria ser de puro relax, mas que se saldou por muita acção e irritação!

Ainda há coisas que me causam comichão. Começar o Outono no dia 1 de Setembro é uma delas, especialmente quando as temperaturas se mantêm bem acima dos 30ºC. De qualquer forma, há um efeito psicológico nas pessoas que, de um dia para o outro, deixam de ir à praia. Equinócios à parte, há umas semanas atrás fui à costa. Estava à espera de um lago, mas o que encontrei foi um pequeno Atlântico furioso, numa praia com bandeira vermelha hasteada, águas turvas, uma pequena faixa de areia e nada de bolas de Berlim.

A primeira tarefa é sobreviver aos 200 kms de auto-estrada que separam Bucareste da costa. Digo sobreviver pois é isso mesmo que se trata. Não sei se é a ânsia de chegar à praia ou se será da falta de civismo, mas conduzir nesta estrada em pleno Verão é uma autêntica aventura. A faixa da esquerda é permanentemente ocupada. Diria que é normal se forem a ultrapassar os carros da direita, mas não! A faixa da direita está livre ou com poucos carros. Sem comentários… O mesmo para as ultrapassagens: pela esquerda, pela direita ou até, pasmem-se, pelas bermas. Aliás, o conceito de berma deve ter um significado especial nesta via pois é utilizada como se tratasse de mais uma faixa de auto-estrada. Duzentos quilómetros de malabarismos automobilísticos depois, finalmente o mar.

Dizem os connoisseurs que há dois tipos de praia na pequena costa romena: temos o equivalente a um festival do Sudoeste (a funcionar todo o verão), no Sul, já perto da fronteira com a Bulgária (Vama Veche); e a Norte, Mamaia, a zona predilecta das pitipoancas, com música como se de uma discoteca se tratasse, dançarinas no meio da praia, muito bronzeador e onde tocar na areia é, como dizem os franceses, démodé! Tudo a passar o dia em cima de uma espreguiçadeira!

Como no meio está a virtude, optei por por uma praia mais convencional. A pequena faixa do areal mal acomodava todos os veraneantes. A manhã mostrava-se muito envergonhada: o Sol não se via, o calor não se sentia. O mar estava agitado e o vento tornava desconfortável permanecer deitado junto da areia. Ao fundo, junto do pequeno bar de praia, a bandeira vermelha estava hasteada. Nada que impedisse uns mergulhos no mar. Maluqueira, diria eu (estou a ser simpático), mas a agitação marítima não convidava ninguém a molhar os pezinhos. Surpreendido com a ferocidade das águas (até então, para mim, o Mar Negro era como uma gigantesca piscina), preferi ficar em terra.

Adormeci. Quando voltei a abrir os olhos o Sol já tinha aparecido. Mergulho, pensei eu, mas ao olhar para a água rapidamente desisti da ideia. Estava turva, num tom acastanhado pouco convidativo, e ao longe mantinha-se vermelho o sinal de aviso.

Longe é também a distância que separa esta praia de uma Vila Nova de Mil Fontes, ou até de uma Granja (em Gaia). Mas apesar de não haver bolas de Berlim, línguas da sogra ou um ‘Olá fresquinho’, houve animação e acção! Acção, triste acção, que chamou a atenção de todos aqueles que se encontravam na praia. Com o mar agitado e a bandeira vermelha, quem na sua perfeita consciência vai à água? Resultado de uma sábado de praia: dois mortos. Afogados, coitados, engolidos por um Mar Negro revoltado. Os serviços de emergência foram rapidíssimos. Motas de água, um barco e a ambulância do 112 mesmo junto ao areal. De nada serviu tanta urgência. Negro, a condizer com o nome do mar, foi o destino desses dois jovens. Esperava eu que este fosse exemplo para os presentes na praia. Como estava enganado! Poucos minutos após a tragédia, pequenas crianças, agarradas a pequenas bóias e  braçadeiras, brincavam na água. Ela continuava violenta e os pais, sem consciência nenhuma, deixavam os filhos brincar lá dentro. Nem mesmo com os avisos repetidos dos nadadores salvadores a situação mudou.

O Sol começava a baixar. Aqui ele nasce no mar e põe-se em terra. Era hora de regressar. Nós e mais uns quantos milhares de bucarestianos. A auto-estrada voltou a encher-se. Filas intermináveis para as áreas de serviço. Aqui e acolá um carro da brigada de trânsito. Aqui e acolá um carro capotado. Mas porquê?! Porquê tanta brutalidade quando se trata apenas de passar um dia relaxado à beira mar?

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3 opiniões sobre “Bandeira vermelha

  1. Viva,

    pensei que já estivesses habituado ao civismo Romeno – Romeno q se preze ultrapassa e cede passagem pela berma.
    Relativa/ ao ‘grd lago’, é efetivamente o que é, um grande lago de agua assemelhada a sopa – de verão ronda os 25/30° e é quase smp turva.
    Se quiseres praia mais tranquila, selvagem e bonita, tens de subir a Sulina, a norte de Mamaia-para sul é smp a descer em qualidade.
    Já arrancou o projeto de expansão do areal da zona de Mamaia, que há muito se tem revelado insuficiente, a roçar o claustrofobico. Denominar-se-á, Tataia 🙂
    Pela parte que me toca, estou em PT, esperando que venha o 1° nevão algures para me ir embora.
    Cumps,
    ERC

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