Rumo ao Norte

Escondida nos confins da Roménia, a sete horas de viagem de Bucareste, fica uma antiga província cheia de motivos para uma visita. Tal como num jogo de cartas, as suas fronteiras foram baralhadas ao longo da história: foi moldava, austro-húngara, retalhadas pelos soviéticos, metade ucraniana, metade romena. Uma região onde o azul do céu esbarra com o verde dos vales e montanhas cobertas de florestas. Viajamos para Norte, vamos conhecer a Bucovina.

Se disser que fiz uma viagem de sete horas, qualquer um vai pensar que voei para bem longe. Um destino nos trópicos ou uma acampamento num local remoto no meio do Saara. Mas não. Estou a ‘apenas’ 490 quilómetros a Norte de Bucareste numa das províncias mais isoladas do país. O longo caminho transporta-nos pela Moldávia romena, uma região agrícola onde o contraste com a urbana capital da Roménia é mais que evidente. Aliás, olhar pela janela do carro para estas paisagens, para as localidades que atravessamos e as suas gentes remete-nos para a imagem que normalmente associamos à Roménia.

Bucovina

Sem auto-estradas para nos conduzir ao destino final, o caminho vai-se tornando penoso a cada quilómetro que percorremos. Cortar a meta, na longínqua aldeia de Sucevița, começa a tornar-se numa tarefa de difícil conclusão. À excepção de uma outra outra curta paragem por questões logísticas, os quase 500 quilómetros são feitos a uma velocidade baixa.

Bucovina

Hai în Bucovina

Depois de atravessar as planícies onde crescem as grandes vinhas da Moldávia (da província, não da república vizinha da Roménia), a paisagem dá lugar à montanha. A grande porta da região vê-se à distância. Um sorriso esboça-se na cara de todos nós. O destino já estava perto. Bem, perto é relativo, pois ainda tínhamos pela frente 100 quilómetros em estrada de montanha. Um pormenor do qual só nos viríamos a aperceber mais tarde.

E, de facto, esta porta marca bem a entrada na velha província da Bucovina. No espaço de poucas centenas de metros a diferença na paisagem é brutal. Deixamos as extensas planícies e a organização caótica, desmazelada até, dos cenários anteriores, e bem que poderíamos dizer que tínhamos entrado nos Alpes suíços ou no Tirol austríaco: o verde das árvores, maioritariamente faias, o serpentear da estrada por colinas e vales, o primor na limpeza das aldeias, o colorido das suas casas, as rústicas grades de madeira, as manadas de vacas e os rebanhos de cabras num vagaroso pastoreio. Um cenário de extrema beleza natural, onde as montanhas tocam o azul forte do céu, num jogo de silhuetas de difícil descrição.

E, finalmente, chegamos ao nosso destino. Uma agradável surpresa. Sucevița, essa pequena aldeia, conhecida pelo seu mosteiro (aliás, toda a região é polvilhada de pequenos mosteiros, alguns deles Património Mundial da UNESCO e um dos maiores tesouros artísticos do país, que merecem uma visita prolongada!), foi o nosso headquarter. Boa – e barata – gastronomia, paisagens saídas de contos de encantar, arquitectura e arte singular (em especial a dos mosteiros) e muita história.

E já que falamos de história…

Bucovina? Para muitos é um nome nunca ouvido ou, quanto muito, uma marca de águas aqui na Roménia. Mas na realidade a Bucovina é uma região centenária, vitima da sua própria localização – na confluência de vários impérios e reinos – e da vontade que os vencedores das grandes guerras na Europa quiseram impor.

Bucovina

Vamos por partes: para encontrarmos o embrião da Bucovina temos que recuar ao século XIV. Durante a Idade Média a região integrou, ainda que sem estatuto de província própria, o Principado da Moldávia (também referenciado como Bessarábia). O Norte da região, com muitas localidades raianas e habitadas pelos Rutenos (ou ucranianos), cedo se tornou alvo da cobiça do vizinho Reino da Polónia. Ștefan cel Mare (em Português Estêvão, o Grande), senhor do Principado, assim como os seus sucessores, como forma de manter os polacos fora das suas fronteiras, inicia a construção de diversos mosteiros junto à fronteira da Bucovina, os mesmo que hoje podemos apreciar em paz. O destino da região segue os ventos de sucessivas guerras. Logo no século XVI, o Principado cairia às mãos do poderoso Império Otomano. Constantinopla outorgou à Moldávia alguma autonomia, o que lhe viria a permitir manter a influência otomana de certa forma limitada. Cem anos mais tarde, e por breves momentos, Mihai, o Bravo, reúne pela primeira vez a Moldávia (Bucovina incluída) com a Valáquia e a Transilvânia. Mas foi curta esta união. Sucessivas guerras foram deixando a região desgastada. Mas é apenas em 1774 que os russos entram em acção. Como consequência da victória de Moscovo na Guerra Russo-Turca, toda a região (incluindo ainda o sul da Ucrânia, o norte do Cáucaso e a Crimeia) ficaria para sempre sob a órbita do Império Russo. Como na história quem manda ganha, a Bucovina foi cedida pelo Czar russo ao poderoso Império Austríaco, numa acção formalmente aceite como resultado da histórica Primeira Partilha da Polónia. Sob a autoridade de Viena, e posteriormente, após 1867 com a monarquia dual da Áustria-Hungria, a autonomia e o poder da região viria a ter altos e baixos.

O fim da Primeira Grande Guerra trouxe consigo a extinção do Império Austro-Húngaro e, através da vontade popular, no dia 1 de Dezembro de 1918 assistimos à reunificação da Bucovina, da Moldávia (região da qual a Bucovina historicamente fazia parte), da Valáquia e Transilvânia. O então Reino da Roménia  assumia a sua maior extensão territorial. Ainda hoje, como tive oportunidade de escrever há quase um ano, o Primeiro de Dezembro é o Dia Nacional da Roménia.

O período entre guerras fica marcado pela constante romanização da Bucovina. Afinal de contas, as marcas austro-húngaras foram profundas – algo que ainda hoje os habitantes locais gostam de relembrar para justificar as diferenças culturais e os hábitos sociais da região face à restante Roménia.

Nova guerra, novo destino

A Segunda Grande Guerra vai colocar a região de novo no centro das atenções de russos e nazis. O Pacto Molotov–Ribbentrop era claro: as autoridades de Bucareste iriam perder a soberania sobre a Bucovina (os territórios do Norte da região foram anexados pela União Soviética, por ultimato de Moscovo, sob pretexto de salvaguardar a maioria da população de origem ucraniana) e a Bessarábia viria a tornar-se na futura República Socialista Soviética da Moldávia. Em 1945, com o final da guerra, a Roménia viria a reconquistar a Transilvânia, mas o status quo das antigas províncias manter-se-ia até à derrocada do Império Soviético. Em 1991, Chişinău declara a independência e forma a frágil República da Moldova; enquanto isso, as fronteiras da Bucovina não foram tocadas, mantendo-se até hoje a divisão entre a Roménia e a Ucrânia.

Para quem gosta de história, cultura e natureza, este é um excelente destino para um fim-de-semana prolongado.

Afinal de contas, a Bucovina é muito mais que uma simples marca de água engarrafada!

 

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3 opiniões sobre “Rumo ao Norte

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