EU SOU A OUTRA

A estrada corre paralela ao curso de água. A curiosidade desperta por sabermos que do lado de lá daquele pequeno rio estava a outra. A outra! A república ex-soviética, a irmã separada da Moldávia da velha Dácia, a filha roubada à Roménia pelas mãos dos senhores da guerra. Saltamos a fronteira. Hoje não escrevo sob jurisdição de Bucareste. Vamos mais além e visitamos Chișinău. Vamos conhecer a República da Moldova.

A visita ao país vizinho há muito que estava nos meus planos. Longe de ser uma atracção turística, ou até de estar no mapa dos que visitam a Europa, a República da Moldova é uma jóia antiga, recheada de história, de semelhanças com a Roménia, mas também um território marcado pelo músculo de Moscovo, laboratório de cruzamento das culturas latina, eslava e turca e, porventura, o mais frágil e vulnerável Estado quando falamos de desintegração territorial na Europa. Não é capa de jornais e raramente falamos deste pequeno país encurralado entre a “mãe” Roménia e a prima afasta Ucrânia. Estado sem acesso ao mar e com uma superfície pouco maior que o Alentejo e o Algarve juntos, a Moldova é o mais pobre país do Velho Continente, sendo por isso a integração no clube de Bruxelas uma das prioridades dos sucessivos governos moldavos.

Bessarábia é Roménia?

Para os mais distraídos, escrever sobre a República da Moldova num blog sobre a Roménia pode não fazer sentido. Mas nada como uma pequena lição de História para esclarecer o mal entendido. O slogan “Besarabia e România!” é fácil de encontrar por toda a cidade de Bucareste e remete-nos para um período não muito antigo. Escrevia eu há uns meses:

Numa breve resenha histórica, o Tratado de Bucareste, de 1812, dividiu a região da Moldávia: a Bessarábia (Moldávia Oriental), compreendida entre os rios Dniestre e Prut, foi entregue pelo Império Otomano ao Império Russo; mais tarde, em 1878, a Roménia vê a sua independência reconhecida oficialmente unindo os territórios da Valáquia aos da Moldávia Ocidental. Os Czares russos controlaram a Bessarábia até à Primeira Grande Guerra, altura em que a Chișinău e Bucareste se unem formando um novo Estado.

Este cenário manter-se-ia até à Segunda Grande Guerra. Contudo, Moscovo nunca abandonou a ideia de recuperar a região, tendo mesmo criado a República Socialista Soviética Autónoma da Moldávia junto à fronteira com a Bessarábia. Esta república autónoma incluía a actual Transdnístria e outras parcelas de território que hoje são parte integrante da Ucrânia (…)

Em 1944, num período de grandes incertezas, quase no termo da guerra, a Bessarábia cai novamente na orbita de Moscovo. A região pertencia à parte russa que tinha sido negociada com os nazis no famoso Pacto Molotov-Ribbentrop.

A União Soviética impôs um regime comunista ao recém-criado país, abolindo a antiga república autónoma e tornando a Moldávia Oriental uma república integrante da URSS. E aqui começam os problemas: a Transdnístria, de maioria russa e ucraniana, é integrada na Moldávia, de maioria romena. Actualmente, apesar dos poderes alargados da Transdnístria face à soberania de Chișinău (a República da Moldova inscreve a região como uma unidade territorial autónoma com status jurídico especial), Tiraspol, a sua capital, luta pelo reconhecimento de jure da sua independência. Este movimento teve o seu início em 1990, nas vésperas da dissolução da União Soviética, mas até hoje nenhum Estado membro da ONU reconheceu formalmente a Transdnístria como país independente. Pelo contrário, a região é considerada parte do território moldovar. Todavia, na realidade, dentro da Moldávia existe um segundo país com um parlamento, primeiro-ministro e presidente, uma moeda própria (o rublo transdnístrio) e a língua russa, a par da romena, como idioma oficial. Visitar o país, um acto dificultado pela falta de segurança na região, é como regressar à ex-União Soviética. Este conflito latente, pouco falado no ocidente e que põe em causa a integridade territorial de um Estado soberano, é resultado de experiências que tiveram lugar no laboratório vermelho.

E, de facto, é este guião hollywoodesco que me obrigou a reservar no calendário um fim-de-semana para visitar Chișinău. Entrar na Transdnístria seria a cereja no topo do bolo… mas a prudência (basta ver o que se passa no Leste da Ucrânia) limitou as nossas vistas.

Pelos caminhos da Moldova

A estrada corre paralela ao curso de água. A curiosidade desperta por sabermos que do lado de lá daquele pequeno rio estava a outra Moldávia! Chegámos à fronteira entre os dois países em Albiţa. Rápido o processo de sair da Roménia, mas vagaroso, muito vagaroso, todo o ritual de entrada na República da Moldova. É o carimbo no passaporte, o imposto de circulação, mais o recibo, mais o papelinho, mais a assinatura, outro carimbo… uma panóplia de pequenos procedimentos que tiram qualquer um do sério. O problema nem é tanto o que temos que fazer, antes a simpatia com que somos recebidos. Pensei cá para mim: “Mas isto é a fronteira com a Rússia ou com a Moldávia?”

Passada a burocracia, fazemo-nos de novo à estrada. O objectivo é chegar à hora de almoço a Chișinău.

Tinha-me mentalizado previamente que a estrada seria tenebrosa. Muito trânsito, péssimos condutores, pavimento em mau estado e o atravessar constante de localidades. Como estava enganado! A Nacional Um não é uma auto-estrada (aliás, nem sequer existem na Moldova), antes o equivalente a um IP em Portugal. Uma estrada com largas faixas que serpenteia os campos suavemente ondulados do ocidente moldovar. Uma paisagem brutal coberta de cores de fogo: amarelo, vermelho, laranja, roxo. Uma palete outonal que nos acompanha pelos 100 quilómetros de estrada. Surpresa total! Estaria à espera de uma vastidão desolada, com uma Natureza morta. Mas não! Há rios, represas de água e uma mancha verde muito bem cuidada. Percebo agora o cognome da República no tempo da outra senhora: o jardim da URSS. A estrada não atravessa as povoações. Ao contrário do que acontece na Roménia, não há necessidade de estar constantemente a diminuir a velocidade por haver habitações por perto. Aqui, cada povoação tem a sua ligação particular à estrada principal. E se bem que sabendo de antemão das dificuldades económicas do país, cada uma destas localidades parece envolta numa aura de paz e sossego campestre, como se de casas de férias na montanha se tratassem. Já com uns bons quilómetros de estrada percorrida vemos pela primeira vez plantações de vinhas. O vinho moldovar é famoso, não sendo por isso de estranhar a quantidade de vinhedos na paisagem.

Eu sou a outra

A atmosfera quente dentro do automóvel, o céu cinzento e a paisagem natural lá fora foram o embalo ideal para uns minutos de repouso. Os olhos começam a pesar. Há uma luta titânica entre o meu sono e a minha curiosidade de absorver tudo o que vejo. Fecho os olhos… Quando os volto a abrir a paisagem tinha mudado. Já não há Natureza em tons de fogo, nem rios, nem vales, nem montanhas. Vejo uma selva urbana, com blocos de apartamentos, largas avenidas e confusão. Bem-vindo a Chișinău, leio num outdoor às portas da cidade. Chegámos!

Eu sou a outra

Descobrir a cidade

Depois de uma manhã acompanhada por um céu muito nublado, a chegada à capital fez-se com envergonhados raios de Sol. À primeira vista continuamos numa típica cidade romena, mas um olhar mais atento denota rapidamente a influência russa (ou soviética) na arquitectura, no design, nas marcas de automóveis e, é claro, no alfabeto. Aqui a língua moldava (nada mais do que uma pequena variação do romeno tradicional, logo inteligível por ambos os povos) convive com o russo. Há placas, informações e publicidade em cirílico. Para quem gosta de questões linguísticas, é interessante saber que durante o período comunista o moldavo era escrito com o alfabeto cirílico e não com o latino.

Voltando a Chișinău, a cidade é o mais importante centro económico e cultural do país. Localizada praticamente no centro geográfico da República, vivem nela cerca de meio milhão de habitantes. Foi fundada em 1436 em redor de um pequeno mosteiro, tendo-se tornado a principal cidade do Principado da Moldávia. Anos mais tarde, já no século XVI, o Principado rende-se ao poderio do Império Otomano. Como Estado suserano de Constantinopla, Chișinău manteve relativa autonomia, mas a sua história ficaria marcada pela sede de territórios dos impérios vizinhos. Em 1812, em resultado da Guerra Turco-Russa, a região – Bessarábia – acaba por ser integrada nos domínios dos czares russos. A partir daqui empreende-se um grande processo de russificação da Moldávia Oriental, ao mesmo passo que a população da cidade aumenta exponencialmente. O fim da primeira Grande Guerra traz nova cambalhota na história da cidade. Sendo ela de etnia maioritariamente romena, Chișinău decide, no dia 1 de Dezembro de 1918, unificar-se ao Reino da Roménia (ainda hoje celebrado como o Dia Nacional da Roménia). No período entre guerras, Bucareste desdobra-se em auxílios à cidade. Constroem-se grandes monumentos, há uma plano de modernização em marcha e, como resultado deste investimento maciço, ainda hoje é possível descobrir uma pequena Bucareste escondida entre a Chișinău moderna. De facto, os dois países partilham os mesmos heróis, os mesmos vilões, quase quase a mesma bandeira e, em tempos idos, o mesmo hino. Com o regresso dos grandes conflitos ao Velho Continente, o destino de Chișinău escreve-se novamente em cirílico e leva-nos de volta ao capítulo anterior “Bessarábia é Roménia?

A pequena visita

A cidade visita-se em três tempos. A avenida principal como que liga tudo o que há para ver na capital. Saímos do hotel e atravessamos o parque central onde se encontra a estátua de Ştefan cel Mare. Ao lado os edifícios do Governo e do Parlamento, rodeados de grande aparato policial e de acampamentos de manifestantes pro-Europa. O Teatro Nacional, uma obra claramente de inspiração soviética, destaca-se pela sua arquitectura arrojada. O pequeníssimo Arco do Triunfo abre caminho à catedral metropolitana. Tirando um punhado mais de museus, a visita resume-se a isto!

Pareceu-me uma cidade triste. Na rua, ouvir-se alguém a falar russo é fácil de encontrar. O semblante das pessoas, as cores das roupas, os edifícios, a pobreza que salta à vista, pessoas a pedirem na rua, as barraquinhas de vendas nos passeios, tudo nos transporta para uma Europa dos anos 80, afastada da realidade actual.

Eu sou a outra

Mas nem tudo é mau! A gastronomia – muito semelhante à romena – e, em especial, os vinhos são destaques desta visita. Aliás, a produção vínica moldava dá cada vez mais cartas na Europa. Os preços são baixos e o atendimento nos restaurantes foi muito simpático, a contrastar com a frieza que se sentia fora de portas.

Não é um destino imperdível, mas já que estamos deste lado do continente o check esta feito!

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