UMA CEO TAMBÉM CHORA

A manhã de terça-feira começou da pior forma possível. A notícia correu rapidamente. Mais uma colega não resistiu aos ferimentos provocados pela tragédia do Club Colectiv. Há um silêncio ensurdecedor no escritório. Mas é nas piores alturas que nos apercebemos que uma das mulheres mais ricas e influentes dos EUA, Safra Catz, CEO da Oracle Corporation, é, afinal de contas, como nós: emociona-se, chora e pede-nos para rezar pelos colegas que nos deixaram nos últimos dias.

Hoje o número dos que já não estão entre nós elevou-se. São já 32 as vítimas mortais da tragédia de sexta-feira passada. Dos quase 200 feridos dez são colaboradores da Oracle. Três não resistiram aos ferimentos. Um acontecimento que está a marcar os romenos. Muitos mais do que um mero incêndio, a sociedade discute a proibição de se fumar em bares, restaurantes, cafés e discotecas. Debate-se a legislação ultrapassada que as autoridades teimam em não alterar; uma lei que permite a abertura de um espaço de diversão sem inspecções de segurança, bastando uma mera declaração do proprietário a certificar que está ‘tudo bem’!

WP_20151103_020

WP_20151103_016

São 23:00 da noite e lá fora 25 mil manifestantes marcham pelo centro da capital. Iniciaram a caminhada junto à  Piața Victoriei, em frente à sede do Governo romeno, e deslocam-se em direcção à grande praça em frente ao Palácio do Parlamento, a Piața Constituției. Esta massa humana empenha bandeiras romenas e grita a plenos pulmões pela demissão de Victor Ponta, Primeiro-Ministro, e de Gabriel Oprea, Ministro da Administração Interna. Sabemos também que o dono do Club Colectiv foi preso. Os comentadores das TVs falam em corrupção, revolução, mudança legislativa. Palavras fortes que rimam com os gritos dos milhares que se manifestam agora na rua.

Mas muito mais tocante que esta manifestação pública foi a atitude da Safra Catz, esta manhã, na sede da Oracle Romania. Soubemos logo no sábado que a CEO da Oracle – e segundo a revista Fortune, uma das mais influentes mulheres no mundo dos negócios nos EUA – deslocar-se-ia de São Francisco a Bucareste numa forma de prestar homenagem às vítimas do incêndio. Confesso que não esperava de nenhum grande discurso da CEO da minha empresa. Antes uma mera visita institucional que se torna obrigatória neste tipo de situações. Como estava enganado!

Chamaram as várias equipas do meu departamento para nos reunirmos em pleno escritório. Fizemos um semi-circulo. Esperámos em silêncio. Surge-nos então, vinda de uma pequena sala, acompanhada pelo country leader romeno, uma senhora de estatura baixa, traje preto, cara triste e os olhos lavados em lágrimas. Acho que até a pessoa mais fria e insensível do mundo se teria chocado. Safra começou a falar. A voz teimava em não sair de forma clara. À minha frente não estava uma CEO. À minha frente estava uma mulher, frágil, visivelmente afectada por toda a tragédia. Não houve um discurso institucional. Não houve palavras frias. Não houve sorrisos. O monólogo improvisado foi tão sincero, tão bonito e tão profundo que contagiou todos os presentes. Impossível não engolir em seco perante o desespero e a angústia de uma senhora que mais não pode fazer do que pedir para que rezemos por todos aqueles que já não se encontram entre nós.

Fiquei sensibilizado com as palavras de Safra. Tenho a certeza que tocaram no interior de cada um dos colaboradores que assistiam petrificados ao apelo da pessoa mais importante da empresa: rezai! A Oracle precisa de todos para crescer, mas hoje a Oracle está de luto.

Anúncios

3 opiniões sobre “UMA CEO TAMBÉM CHORA

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s