POR QUEM GRITAS TU?

Enquanto o número de vítimas mortais da tragédia do Club Colectiv se vai elevando, a semana foi marcada por manifestações nas ruas da capital. Quinze mil, vinte mil, vinte e cinco mil. O número de pessoas que gritaram nas ruas foi crescendo dia após dia em Bucareste, assim como nas principais cidades romenas. Mas por quem/para quê gritam estas pessoas?

Ver na televisão a imagem da bandeira romena com um buraco ao centro é, para mim, uma mensagem forte. Foi esta a bandeira que deambulou pelas ruas de Bucareste quando o regime de Nicolae Ceaușescu foi deposto. É, portanto, – embora para muitos uma mera forma de manifestação contra o poder instalado – uma espécie de recuerdo do imaginário romeno recente do que o poder de um povo pode fazer ao mais forte dos ditadores. É verdade que a Roménia já não é um regime autoritário, nem Ceaușescu ocupa a cadeira do poder, mas os acontecimentos da passada sexta-feira, 30 de Outubro, agitaram as águas do panorama político nacional. O muito contestado Primeiro-ministro Victor Ponta demitiu-se do cargo. Nas ruas marcharam milhares de pessoas. Dia após dia, a corrente foi crescendo, foi-se alargando, tornando-se cada vez mais forte.

Escrevia eu há poucos dias atrás:

São 23:00 da noite e lá fora 25 mil manifestantes marcham pelo centro da capital. Iniciaram a caminhada junto à  Piața Victoriei, em frente à sede do Governo romeno, e deslocam-se em direcção à grande praça em frente ao Palácio do Parlamento, a Piața Constituției. Esta massa humana empenha bandeiras romenas e grita a plenos pulmões pela demissão de Victor Ponta, Primeiro-Ministro, e de Gabriel Oprea, Ministro da Administração Interna. Sabemos também que o dono do Club Colectiv foi preso. Os comentadores das TVs falam em corrupção, revolução, mudança legislativa. Palavras fortes que rimam com os gritos dos milhares que se manifestam agora na rua.

Assistir a tudo pela televisão, no conforto de casa, tira-me a capacidade de testemunhar com os meus próprios olhos todo este rugir da sociedade.

Ainda não estamos no Inverno, mas o frio à noite já se faz sentir. Visto um casaco grosso, cachecol enrolado ao pescoço, câmara fotográfica a tiracolo. Afinal de contas, o bulício nocturno está a pouco mais de dois quilómetros de distância de casa.

Chego à Piața Universității e mergulho num mar de gente…

Por quem gritas tu?

Confesso que estava à espera de um ambiente mais tenso. Mas não! Vivia-se um clima de derby futebolístico, com muitas bandeiras, muitos ‘Hai Romania’, muitos assobios e bater de palmas. Diria mesmo que a maior parte das pessoas presentes estava alí, tal como eu, para presenciar o que minutos antes tinha visto na televisão. Mas para aqueles que vestiam de forma desinibida a camisola do protesto, por quem e para quê gritavam eles?

O espectro de reivindicações é gigante, tão grande quanto a liberdade de pensamento de cada um de nós. As objectivas das câmara de televisão seguem a par e passo o palpitar da mancha humana. Às centenas de bandeiras juntam-se cartazes, mais ou menos profissionais, mais ou menos artísticos, com o rol de causas e exigências. A primeira, e provavelmente a mais forte, é a demissão do Governo (o que aliás já aconteceu). Seguem-se a mudança do status quo político e do sistema eleitoral; pede-se a independência da televisão pública face ao poder político, o fim dos privilégios dos deputados e o fim do bicamaralismo parlamentar; mais saúde e mais educação; mais poder para as polícias; uma legislação mais ágil no combate à corrupção; o aumento do salário mínimo; a defesa dos recursos naturais do país; um simplex à administração pública; o fim dos privilégios da riquíssima e poderosíssima Igreja Ortodoxa. Há, até, grupos que se manifestam pelo re-instauração de um regime monárquico no país. Como se vê, a miríade de reivindicações dá espaço a englobar TUDO!

POR QUEM GRITAS TU?

Serão estas manifestações um tubo de escape para a sociedade urbana romena? Uma sociedade que olha para o outro lado da Europa e vê – ideia minha – a distância que os separa dos restantes parceiros europeus alargar-se? Nesta jovem democracia do antigo Leste ainda ferve um certo sangue revolucionário. Mas é pela voz e pelas mãos dos mais novos, muitos deles sem nunca terem sentido na pele o antigo regime, que mais se sente o pulsar da Roménia!

Anúncios

2 opiniões sobre “POR QUEM GRITAS TU?

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s