DE NOVO, 1º DE DEZEMBRO

Um ano depois, a Roménia celebrou no 1º de Dezembro o seu dia nacional. Há tricolores por todo o lado, cachecóis amarelos, vermelhos e azuis aconchegam todos aqueles que se deslocam, numa manhã fria mas de céu azul, para a Boulevard Libertății. Prepara-se o Exército e a Força Aérea. A parada militar exalta o orgulho romeno. Mas, lá bem alto, a toda a velocidade, um raio de Portugal nestes festejos. O som dos F16 – caças a jacto de origem norte-americana e comprados recentemente à Força Aérea portuguesa – rompe os céus e deixa todos de cabeça virada para cima.

Um ano depois, recordo o meu primeiro 1º de Dezembro em terras romenas. Enquanto se aguarda a reposição deste feriado nacional, para reler Primeiro de Dezembro, aqui e aí:

O 1º de Dezembro é uma ocasião especial para Portugal e para a Roménia. Os dois Estados revivem esta data como um dia marcante da sua História.

Para nós, esta data simboliza a reconquista da soberania e da independência face aos Filipes de Espanha. O dia em que terminou um infame período de 60 anos de governação espanhola. Sessenta anos que nos arrastaram para guerras que não eram nossas e que no final deixaram marcas profundas em toda a sociedade portuguesa. Não será à toa, digo eu, a quantidade de tão pouco simpáticos ditados populares que temos referentes ao país vizinho. Nem, tão pouco, uma desconfiança que nasce connosco (ou pelo menos com muitos de nós) face a quem está no outro lado da fronteira.

Aqui, na Roménia, este dia marca a Grande União (Ziua Marii Uniri) da Transilvânia com a Roménia. E o que nos contam os livros de história?

Na velha Dácia um sonho antigo era acalentado há muito: a criação da Grande Roménia. A união de todos os romenos sob um único Estado.

Agosto de 1916:
As autoridades romenas assinam um acordo secreto com a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia) tendo em vista a entrada do país na guerra contra a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), caso, no final da Primeira Grande Guerra, as primeiras reconhecessem a soberania de Bucareste sobre a Transilvânia, o Banat e a região de Partium.

Dezembro de 1918:
Ventos de mudança sopram por todo o Velho Continente. A guerra acabou!
A declaração da Assembleia Nacional de Alba Iulia foi o pontapé de saída para um momento único na história recente da Roménia. As centenas de deputados reunidos nesta cidade da Transilvânia declararam a união da região, assim como da Bucovina e do Banat, com o Reino da Roménia. Aliás, Alba Iulia vem reforçar a também recente declaração de união dos territórios da Bessarábia com o reino romeno. Nasce a Grande Roménia! Um sonho tornado realidade.

Assembleia de Alba Iulia, 1918

Assembleia de Alba Iulia, 1918

A nova soberania de Bucareste viria a ser reconhecida em 1919, através do Tratado de Versailles, e as fronteiras definitivas entre a ‘nova’ Roménia e a Hungria ficariam oficialmente estabelecidas apenas um ano mais tarde, entre 1919 e 1920, com os Tratados de St. Germain e Trianon, respectivamente.

A Grande Roménia sobreviveu até ao dealbar da Segunda Grande Guerra, quando o país, seguindo os planos do Pacto Molotov-Ribbentrop, cedeu os territórios da Bessarábia (actual República da Moldova) à União Soviética. Perderia ainda o Norte das regiões da Bucovina e de Herța, em favor da Ucrânia, assim como o Sul da província de Dobruja, cedida à vizinha Bulgária.

Evolução do Território Romeno

A Segunda Grande Guerra terminou, a Guerra Fria tem o seu início e a Roménia passa a ser um Estado satélite de Moscovo. Contudo, a ideia de uma grande Roménia não é abandonada. É certo que oficialmente a ideia nunca mais teve apoio político inequívoco para se concretizar, mas ainda há muitos que sonham com a reunião de todos os romenos num só Estado.

O feriado que hoje está prestes a terminar apenas passou a ser festejado depois da Revolução de 1989. Muito mais do que o simbolismo da ‘Grande Roménia’, o dia é o expoente máximo da celebração da Nação Romena. Uma festa que decorre por várias cidades do país, mas com especial relevo em Bucareste e em Alba Iulia. Milhares de romenos concentram-se junto às largas avenidas da capital para um desfile militar, muito ao estilo soviético. Hoje não foi excepção. Apesar da neve e do frio que se fez sentir [originalmente publicado a 1 de Dezembro de 2014], a população saiu à rua e festejou efusivamente o dia nacional.

Créditos: MediafaxFOTO

Ao contrário do que acontece em Portugal, a Roménia, assim como todos os países do mundo sem excepção, não eliminam feriados históricos importantes. Crítica política à parte, eliminar momentos de celebração da nossa história apenas faz com que a esqueçamos. Cabe ao Estado e à sociedade civil manter vivas e celebrar de forma solene tais datas para que a memória do Povo nunca seja apagada. Em Portugal, a nossa sociedade meio apática, que apenas se eleva e se faz ouvir em jogos de futebol (e mesmo assim nem sempre), parece querer esquecer quem nós somos!

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