A CAPITAL CULTURAL DA ROMÉNIA

Fomos recebidos pela diva dos pés descalços. Tão longe do Atlântico e de África, a calorosa ‘Sodade‘ acolheu-nos naquela tarde fria em Iași. Tínhamos chegado à capital da Moldávia, a parte da antiga província que permaneceu sob jurisdição romena depois da Segunda Grande Guerra. Longe de Bucareste, mas a poucos quilómetros da fronteira, uma das maiores urbes do país, centro histórico e cultural, uma cidade que une capitalismo e comunismo, o moderno e a tradição. 

Depois de tantas horas de viagem, o GPS indicava que o destino estava perto. Os passeios pela Roménia são assim. Deixam-nos com aquela sensação de termos voado de Lisboa a Moscovo, tal é o tempo que passamos a conduzir. São horas e horas, mas a distância real cifra-se nuns meros 420 kms.

O que nos leva, então, a deixar Bucareste e visitar esta cidade tão a Norte? Iași, capital da província da Moldávia, é uma das localidades historicamente mais importantes do país. Aqui, velho e antigo nem sempre pode ser considerado uma coisa má. Antes pelo contrário! Numa cidade rica em história, o visitante é recebido por edifícios que fazem parte da Roménia, da tradição, da cultura, das uniões e divisões pelas quais o país atravessou.

A importância de Iași na história da Roménia granjeou-lhe o título de capital cultural do país. Não admira! Aqui encontramos algumas das instituições mais antigas e reputadas da Roménia: a mais antiga universidade (Universidade Alexandru Ioan Cuza), contemporânea de Coimbra, mas mesmo assim antiga, data de 1860; o mais antigo teatro (Teatro Nacional Vasile Alecsandri, de 1840), o mais antigo jardim botânico, de 1856, e a mais antiga biblioteca do país, datada de 1841. A cidade possui cinco universidades públicas e uma vida social pujante. À agitação dos milhares de alunos juntamos o impacto cultural da Filarmónica Estatal da Moldávia, da Ópera Nacional e do Ateneu Tătărași.

Historicamente, a cidade foi a capital do Principado da Moldávia, entre 1564 e 1859. Posteriormente, de 1859 a 1862, Iași tornou-se a capital dos Principados Unidos. Durante este período, a união dos Principados tornou a cidade capital, a par de Bucareste, do Reino da Roménia. Este título voltar-lhe-ia a ser atribuído por um par de anos, entre 1916 e 1918, quando, durante a Primeira Grande Guerra, Bucareste foi ocupada pelas Potências Centrais.

“Numa breve resenha histórica, o Tratado de Bucareste, de 1812, dividiu a região da Moldávia: a Bessarábia (Moldávia Oriental), compreendida entre os rios Dniestre e Prut, foi entregue pelo Império Otomano ao Império Russo; mais tarde, em 1878, a Roménia vê a sua independência reconhecida oficialmente unindo-se à Moldávia Ocidental. Os Czares russos controlaram a Bessarábia até à Primeira Grande Guerra, altura em que a região e a Roménia se unem formando um novo Estado.

A Grande Roménia sobreviveu até ao dealbar da Segunda Grande Guerra, quando o país, seguindo os planos do Pacto Molotov-Ribbentrop, cedeu os territórios da Bessarábia (actual República da Moldova) à União Soviética. A Segunda Grande Guerra terminou, a Guerra Fria tem o seu início e a Roménia passa a ser um Estado satélite de Moscovo. Contudo, a ideia de uma grande Roménia não é abandonada. É certo que oficialmente a ideia nunca mais teve apoio político inequívoco para se concretizar, mas ainda há muitos que sonham com a reunião de todos os romenos num só Estado”, in Primeiro de Dezembro Aqui e Aí.

Finda a Segunda Grande Guerra, e com a perda da Bessarábia para Moscovo, a capital moldava entra numa fase de crescimento acelerado. O regime comunista impulsionou a industrialização da cidade, tendo esta registado uma explosão da sua população residente. A par da importância histórica, Iași torna-se um importante centro industrial e educacional, capital indiscutível do Nordeste da Roménia.

Voltando ao presente, a chegada ao centro da cidade – que curiosamente também de dispersa por sete colinas, tal como Lisboa e Roma – teve como banda sonora a música da diva dos pés descalços, Cesária Évora. Tão longe do Atlântico e de África, a calorosa ‘Sodade’ acolheu-nos naquela tarde fria em Iași.

A capital cultural da Roménia

O centro é marcado pela fusão entre a tradição e a modernidade. Se de um lado pousa o majestático Palácio da Cultura, num estilo puramente neo-gótico, do outro o palácio do consumismo. A mistura é interessante. A escadaria do Palácio da Cultura dá lugar a um centro cívico que reúne lojas, restaurantes, cafés, esplanadas e clubes nocturnos. Tudo no centro da cidade, muito ao estilo dos grandes centros comerciais do Dubai. Fora deste núcleo, Iași revela a cidade romena tradicional, com o típico planeamento urbanístico à lá soviética. Aliás, para comprovar isto, nada como uma subida clandestina ao topo de um dos hotéis centrais da cidade, o Hotel Moldova.

A capital cultural da Roménia

Depois de explorados os últimos andares do hotel, descemos pelo elevador, já com as fotos tiradas. Saímos para a rua e encontramos um desfile multicultural, com representantes das várias minorias étnicas que habitam a região: roma, gregos, ucranianos, moldavos, arménios. Uma multidão de povos, envergando orgulhosamente os seus trajes tradicionais. Desfilam pela Boulevard Ștefan cel Mare, o herói maior da Roménia, e nós vamos com eles. Vamos e acabamos perdidos entre catedrais e teatros, casas de ópera e edifícios históricos. Esta grande avenida, maioritariamente um percurso exclusivo para peões, é palco para um passeio agradável pela história da cidade. Começámos no poder religioso, tão presente aqui, como em todo o país, damos uma saltada ao teatro, à dança e à música, passamos pela câmara municipal para acabarmos à volta do Palácio da Cultura. Novamente aqui, no ícone da cidade, parámos para provar o kürtőskalács local.

Visita concluída! Mais um check no mapa da Roménia. Daqui partimos para a outra banda do rio Prut.

A próxima etapa foi contada in media res. A estrada corria paralela ao curso de água. A curiosidade despertava por sabermos que do lado de lá daquele pequeno rio estava a outra. A outra! A república ex-soviética, a irmã separada da Moldávia da velha Dácia, a filha roubada à Roménia pelas mãos dos senhores da guerra. Saltámos a fronteira…

Quem ainda não leu este post?! 🙂

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