CARTA DO MAR NEGRO

Se foi na água que toda a vida começou, é também junto dela que se escreve o primeiro post de 2016. Viajamos até ao extremo oriente romeno, aqui onde Ovídio foi exilado e escreveu uma das suas mais conhecidas obras literárias. Terra de disputas, de guerra, de união e confluência de povos, de tradições e culturas diferentes, Constanța é o destino desta carta. Rumamos à costa do Mar Negro para conhecer um dos principais pólos turísticos da Roménia.

São 8 horas. Manhã fria. Atravessamos Bucareste em direcção à auto-estrada do Sol. À nossa frente 200 e poucos quilómetros de uma quase ininterrupta recta. Não há montanhas, apenas as longas planícies do Sul da Roménia. Acompanha-nos, por alguns quilómetros, a linha férrea. Vamos, como pequenas crianças, brincando às corridas. Carro vs comboio. Comboio vs carro. Ora ganhas tu, ora ganho eu. Ao fim de algum tempo o maquinista faz soar o apito. É tempo de continuar a viagem, sozinho. O Sol faz-nos companhia nesta manhã calma. Auto-estrada praticamente vazia, contrastando com a condução tresloucada que assisti no Verão quando, por tradição, toda a capital se move, de armas e bagagens, para as costas do Mar Negro. As placas verdes indicam que o destino está perto: Constanța.

Carta do Mar Negro

Um barco à entrada saúda todos os visitantes. Depois, longas avenidas, com as tradicionais fileiras de blocos de apartamentos romenos. É interessante como o design soviético foi tão apuradamente copiado por todo o antigo espaço de influência de Moscovo. Embrenhamo-nos um pouco mais na cidade à procura do lado marítimo de uma país tão continental. A rua desemboca no porto de Constanța. Deparamo-nos com o lado pesadamente industrial da cidade. Que visão! São máquinas adormecidas; monstros de metal à beira mar plantados; imóveis estruturas numa palete de tons de cinza. Uma beleza industrial desconcertante!

Apesar deste ser o maior e mais importante porto da Roménia – não será difícil manter o título num país com apenas 245 quilómetros de costa -, a maior riqueza da cidade está na sua história. Os seus 280 mil habitantes calcam um pedaço de terra que sofreu com os avanços e recuos de povos conquistadores: gregos, persas, macedónios, celtas, romanos, búlgaros, bizantinos, russos, otomanos, romenos. Todos eles por aqui andaram, conquistaram, destruíram e voltaram a construir, dividiram e uniram. Constanța é a capital da região histórica da Dobruja, centro de confluência intercultural, lugar de disputas territoriais, mas também ponto de referência de como é possível, nos dias de hoje, viver em paz num local onde todos, à luz da História, têm algo a comentar.

Entre o velho e o novo, descobrimos o passeio marítimo de excelência da cidade. Aqui o Sol não se põe sobre as águas do mar, mas ao meio da tarde a sua luz suave brilhava num Mar Negro flat. Os reflexos dourados dão uma aura de paz e serenidade à cidade. As pequeninas ondas como que se inibem da fazer barulho. Ouvimos, então, o vento e as gaivotas.

Imponente, mas totalmente ao abandono, repousa nas margens da cidade o velho casino. Qual Estoril assombrado, a tal luz dourada dá-lhe um toque retro chique. Por momentos quase nos esquecemos do estado lastimável do edifício. Imaginamos, antes, o som de roletas, brindes de copos de cristal, urros de alegria ou gemidos de tristeza por jogos de sorte e de azar.

Deixamos a costa e vagueamos pelo interior de Tomis, assim denominada a urbe por gregos e romanos em tempos idos. As ruas estreitas do centro histórico estão em obras. Há renovação, lenta renovação, a correr pela quinta maior cidade romena. Constanța é um dos principais pólos turísticos da Roménia. À sua volta estendem-se quilómetros de areais que no Verão se enchem de veraneantes. A Norte, a badalada Mamaia – uma língua de terra, entre o Mar Negro e o lago Siutghiol, lugar in para as férias dos mais ricos, das pitipoancas e cocalares, dos hotéis de cinco estrelas e dos clubes mais famosos do país -, a Sul, a antiga colónia de férias da nomenclatura do regime de Ceauşescu – Olimpo, Neptuno, Júpiter e Vénus – e, mais a Sul ainda, já a meio passo da fronteira com a Bulgária, Vama Veche – o Sudoeste cá do burgo.

Enquanto nos deixamos perder pelas ruelas da cidade, damos por nós a pensar se estamos mesmo na Roménia ou em qualquer outro país de ascendência árabe. Já com o Sol a querer desaparecer, o skyline de Constanța é marcado pelas torres e minaretes das igrejas de confissão ortodoxa, muçulmana e católica. Entramos na mesquita Carol I, a principal da cidade e datada de 1910. A maior surpresa não está no seu interior, antes a algumas dezenas de metros de altura. Subimos ao minarete e, já com o fôlego recuperado, deixamos o olhar repousar no espectacular cenário de 360 graus que a torre, por onde onde os fiéis são chamados à oração, nos oferece.

Carta do Mar Negro

Carta do Mar Negro

Carta do Mar Negro

Descemos, mas não voltamos ainda à mundana vida terrena. Antes, tempo para uma visita à Catedral de São Pedro e São Paulo, sede do Arcebispado de Constanța – oficialmente Arcebispado de Tomis -, tendo a sua construção sido iniciada em 1895, e, surpresa maior, à Igreja de Santo António de Lisboa. Bem, na verdade, ele, o Santo, é conhecido como sendo de Pádua, mas haverá algum português que aceite esta designação?! Bem maior que a pequena igreja homónima de Bucareste, aqui a referência a Lisboa está patente na entrada do templo.

Deixando os paraísos celestes para trás, acabamos a visita na Praça de Ovídio. Aqui, literatura clássica, história e política unem-se num só local. A praça, despida de grandes artifícios, é emoldurada pelo imponente Museu de História da cidade, antiga sede do município. Ao centro a pequena estátua de Ovídio, nome maior da literatura latina. Foi para aqui que o Imperador Augusto, corria o ano 8 DC, exilou o poeta Ovídio. Uma sentença que desterrou o escritor para o Ponto Euxino, o território às margens do Mar Negro no extremo leste do Império Romano. Foi a partir daqui que o autor escreveu as famosas Cartas do Mar Negro (Epistulae ex Ponto). Nelas “Ovídio pede a amigos e familiares que intercedam junto da família imperial para que o imperador o perdoe ou pelo menos mude o lugar do seu exílio para um território mais próximo da Vrbs [Roma]. O poeta descreve para os seus destinatários detalhes das suas condições de vida neste “território selvagem”: o frio intenso, as batalhas constantes e a inexistência de pessoas que conheçam a língua latina”, in Epistulae ex Ponto – Wikipedia.

Constanța, aqui mesmo nas margens de um mar que nos faz lembrar o Atlântico em dias de calmaria, é uma cidade que vale a pena visitar. No bulício do Verão, ou na frieza do Inverno, há sempre um motivo para aqui vir. Quanto mais não seja para termos a visão infinita de um mar que finito é, mas que nos liga a lugares, objectos, memórias, chegadas e partidas de uma qualquer vila piscatória da ocidental praia Lusitana.

Carta do Mar Negro

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5 opiniões sobre “CARTA DO MAR NEGRO

  1. Ola Alberto, leio com gosto todas as “Cartas de Bucareste”. Conheco alguns dos locais descritos, mas acabo por me sentir sempre a revisitar quando leio os escritos. Um grande abraco e um excelente ano de 2016.

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