‘CEAUȘIMA’ OU COMO RECONSTRUIR UMA CIDADE

Andar pelas ruas de Bucareste e não reparar em como há longas avenidas totalmente padronizadas, com filas repetidas de blocos monolíticos de apartamentos, é como estar totalmente desligado da realidade. Muito mais do que uma mera organização espacial da cidade, esta visão é um traço comum a todos os países do antigo bloco soviético. Contudo, o Plano Director Municipal de Bucareste ia mais além do que a mera organização territorial da capital. ‘Sistematização’ é o nome oficial de uma política cuja finalidade era a de formatar toda a sociedade romena ao molde de Nicolae Ceaușescu, começando pela arquitectura. No post de hoje passeamos por uma das maiores e mais controversas heranças do período comunista na Roménia, a Sistematização.

Há décadas que o país tinha caído na órbita de Moscovo. Contudo, Nicolae Ceaușescu sempre se mostrou firme e determinado em desafiar a política externa do Kremlin. É verdade que o alinhamento político, ideológico e militar com a grande Rússia era natural, mas o Conducător cedo se apresentou como o “menino rebelde” do Bloco Soviético. Manteve relações diplomáticas intensas com o Ocidente, incluindo com Israel e com a OLP; criticou abertamente a invasão militar de Praga, em 1968, pelas forças do Pacto de Varsóvia; efectuou diversas visitas de Estado a países como a França, o Reino Unido e os Estados Unidos da América; recebeu o Presidente Nixon em Bucareste; participou nas negociações do GATT (o embrião da Organização Mundial do Comércio); e rompeu o boicote soviético aos Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles. Esta rebeldia sempre foi aceite por Moscovo, mas olhada com desconfiança pelos líderes Ocidentais. No final de contas, o sonho do ditador romeno era tornar o país numa potência mundial e para isso era preciso manter-se diplomaticamente activo e independente das vontades da União Soviética.

Estamos no princípio da década de 70. Ceaușescu, há poucos anos na cadeira do poder, iniciava um périplo pela Ásia. A paragem em Pyongyang, na Coreia do Norte, viria a marcar o futuro próximo da Roménia. O líder romeno rendeu-se à aparente perfeição da organização da capital norte-coreana. Na bagagem de regresso, Ceaușescu trouxe muito mais do que postais ilustrados da geometria ideal da terra de Kim Il-sung, o fundador da República Popular Democrática da Coreia. Trouxe consigo os pilares principais de uma política brutal, de destruição e reconstrução urbana, que pretendia tornar a Roménia numa sociedade socialista multilateralmente desenvolvida, a ‘Sistematização’. Este ambicioso projecto teria como fim a moldagem de toda uma sociedade segundo os ditames de Ceaușescu: um país altamente urbanizado, com os seus cidadãos a usufruírem de todas as comunidades de uma sociedade moderna e desenvolvida. A face mais visível de toda esta política estava (e ainda hoje está) na arquitectura.

Ainda nesta década, a dicotomia de desenvolvimento entre os centros urbanos e as zonas rurais da Roménia estava a sub-carregar todo o sistema socialista do país. De facto, da perspectiva ideológica, o crescimento da disparidade entre estes dois mundos (o urbano e o rural) dentro da mesma sociedade era algo inaceitável. Ao argumento ideológico, somam-se casos reais onde uma onda de êxodo rural entupia as cidades, esvaziava os campos e, por arrasto, toda a força de trabalho manual para a agricultura simplesmente deixava de existir.

A resposta das autoridades surge em 1972, embora apenas em 1974 se tornasse oficial a ‘Sistematização’ (do romeno Sistematizarea). O plano consistia no repovoamento das zonas rurais, com a reconstrução de aldeias e vilas segundo um modelo de racionalização do espaço urbano. Na prática, implementava-se uma construção moderna, sendo necessário para isso destruir todas as construções existentes. A Sistematização previa, até 1990, duplicar o número de cidades no país. Uma meta ambiciosa. Cerca de 550 aldeias foram seleccionadas e grandes quantias de dinheiro e de materiais de construção foram alocados para a reconversão destes locais. Este programa tinha um grande foco em infraestruturas como escolas, hospitais, habitações (os tradicionais blocos de apartamentos) e na criação de novos centros industriais. Prometia-se uma nova face para a Roménia, mas a implementação do projecto foi tão moroso e as verbas tão dificilmente desbloqueadas, que poucas localidades realmente sofreram a total transformação que a Sistematização prometia. Muito frequentemente, em vez de uma mudança, este plano criou cicatrizes profundas na estrutura tradicional da sociedade romena. A razia arquitectónia era completa, com a destruição de todo e qualquer vestígio do que fosse antigo e/ou tradicional, assim como, em certos locais, com a deslocação de populações inteiras.

Mas houve um local onde esta obsessão por destruir para criar uma cidade perfeita teve lugar e que ficará para sempre na história como o expoente máximo da megalomania de Ceaușescu: Bucareste e o seu novo Centrul Civic (Centro Cívico).

O líder romeno tinha em marcha um plano niilista para a grande capital do país. Era niilista pois acreditava que a destruição de tudo o que estivesse ligado ao passado era bom. O renascimento, a projecção de uma linha arquitectónica limpa de tradicionalismos, mais moderna, racional e, claro está, comunista. À luz da História, os bombardeamentos da Segunda Grande Guerra ou o terramoto de Março de 77 geraram impactos mínimos quando comparados com o projecto que o ditador tinha para a cidade. Aliás, o sismo de 77 foi um dos artefactos utilizados pela propaganda oficial para impôr a Sistematização na capital. Nos inícios dos anos 80, a menos de uma década do fim da ditadura, Ceaușescu convoca centenas de arquitectos e engenheiros para desenharem um novo centro da cidade e a reconstrução de vários bairros e vias de circulação por toda a Bucareste.

Sistematização by PRIMEVAL @ skyscrapercity.com

O resultado ainda hoje é visível. Longas avenidas ladeadas de blocos de apartamentos de dez andares, repetidos vezes sem conta ao longo de quilómetros. A reconstrução da urbe fez tábua raza de toda a arquitectura tradicional romena, perdendo-se importantes jóias arquitectónicas antigas. O centro da cidade teve um tratamento especial. A grande Avenida da Victória do Socialismo – hoje Boulevard Unirii – era o eixo principal deste novo Centro Cívico de Ceaușescu.

10693

Uma monumental avenida, à imagem dos Champs-Élysées, em Paris, cortando a cidade no eixo Este-Oeste, a ligar a imponente Casa do Povo (hoje o Palácio do Parlamento – somente o segundo maior edifício administrativo do mundo) à Piaţa Unirii e à actual Piaţa Alba Iulia. A ladear a avenida encontram-se diversos edifícios estatais de grande envergadura, assim como a Biblioteca Nacional Romena (um projecto iniciado nos finais da década de 80, mas apenas terminado em 2012) e um conjunto vastíssimo de repetidos blocos de apartamentos de fachadas cobertas a mármore e com uma profusão de elementos artísticos que os distinguem dos demais blocos monolíticos da cidade. Este grandioso eixo urbano é um monumento à linha arquitectónica realista-socialista, uma verdadeira política de Estado, seguida em todo o antigo bloco soviético, para a estética, artes, vida social e, claro está, para a arquitectura.

Para erguer esta megalomania foi necessário proceder à terraplanagem de mais de oito quilómetros quadrados do antigo centro histórico da cidade. A gigantesca campanha de demolições arrasou três mosteiros, vinte igrejas, três sinagogas, três hospitais, dois teatros e um estádio desportivo construído em estilo Art Deco. Nunca mais foram reconstruídos. Quarenta mil pessoas foram desalojadas. Hoje, este enorme eixo é rico em serviços públicos e habitações, mas paupérrimo em termos de acessibilidade por transportes públicos.

A Revolução de 89 pôs fim à política de Sistematização, mas o seu legado ficará para sempre junto da cidade até que uma outra política destrua os restos do velho regime. Cedo, bem cedo, a sociedade imortalizou o efeito que a Sistematização teve no país. Chama-lhe Ceaușima. Este neologismo mistura os efeitos destruidores da bomba atómica de Hiroshima com a política avassaladora de reconstrução levada a cabo pelo ditador romeno. Para os amantes da História ou da arquitectura, independentemente do gosto ou não pelas linhas seguidas, andar pelas ruas de Bucareste é sempre um momento de descoberta permanente!

 

Anúncios

3 opiniões sobre “‘CEAUȘIMA’ OU COMO RECONSTRUIR UMA CIDADE

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s