CUIDADO COM O PESCOCINHO!

À primeira vista é difícil acreditar que estamos a apenas pouco mais do que 30 quilómetros de Bucareste. A Norte da cidade, numa região totalmente rural e famosa pelos seus inúmeros lagos e pequenas florestas, encontramos um local especial. A mancha verde é Snagov e o lago homónimo alberga, numa ilha minúscula, um pequeno mosteiro. Grande parte dos roteiros da capital incluem Snagov no seu must-see. Mas o que tem de especial este mosteiro? É aqui que se encontram os restos mortais de Vlad Țepeș, conhecido internacionalmente como o Conde Drácula. Se aqui vierem, cuidado com o pescoço!

Saímos de Bucareste em direção ao Norte. A N1 liga a capital a Braşov e é por ela que atravessamos uma região repleta de florestas e lagos. Já depois de passarmos o aeroporto, os sinais de ruralidade começam a sobressair. Deixamos o bulício da urbe, o trânsito compacto e a selva de blocos de cimento para perdermos o olhar entre as extensas planícies da velha Valáquia e as pequenas povoações de casario tradicional. A pouca distância que separa Bucareste de Snagov torna este local um destino interessante para os amantes da natureza e da história. A sinalização é fácil de seguir e em poucos minutos abandonamos a estrada principal para nos embrenharmos num mar de árvores.

Snagov

É o princípio da floresta de Snagov. Continuamos a marcha, quase em linha recta, até encontrarmos a margem do lago. O caminho faz-se por uma via bem asfaltada onde a luz do Sol é interrompida constantemente pelo aglomerado de troncos de árvores. Agora estão despidas e a nossa vista perde-se neste cenário de torres de madeira; no Verão, o verde da folhagem traz a sombra refrescante aos sufocantes dias de Sol intenso. Chegados à margem do lago Snagov somos brindados por uma natureza silenciosa. Sem vento, a água transforma-se num enorme espelho reflectindo o azul do céu. A floresta abraça aqui uma gigantesca massa de água e, ao longe, pequenas casas de madeira polvilham a outra margem.

Mas o objectivo da viagem é visitar o Mosteiro de Snagov. Seguimos viagem. Voltamos a percorrer a estrada da floresta até encontrarmos, novamente, a N1. Um pouco mais à frente, em Lupăria, voltamos à direita e seguimos as placas para o Mosteiro. A pequena aldeia de Siliştea dá-nos as boas-vindas com casinhas multicoloridas, crianças a jogar à bola em plena rua e os mais idosos sentados à porta das suas casas; aqui e acolá alguém a vender flores, hortaliças ou quaisquer outras bugigangas de utilidade duvidosa. É um mundo rural a conviver paredes meias com a capital da Roménia. Uma realidade que não estamos à espera de encontrar às portas da maior cidade do país. Pequenas surpresas que tornam este passeio tão interessante. Aqui as pessoas cumprimentam-se ao passar umas pelas outras, saudando até os forasteiros.

Para chegarmos ao mosteiro há que atravessar uma pequena ponte metálica recentemente construída. Até há pouco tempo o acesso era feito, em exclusivo, por barco.

Snagov

Cruzamos as poucas dezenas de metros que separam a margem da ilha. De um lado as casas e os carros, do outro a natureza solitária. No meio, nessa pequena ilha do lago Snagov, o mosteiro. Datado da segunda metade do século XIV, o edifício é comummente reconhecido como o mosteiro do Drácula. Apesar disso, sofreu diversas alterações ao longo dos séculos até tomar o seu aspecto final. Aspecto esse que chega até aos dias de hoje. O seu estilo é claramente de inspiração bizantina, embora inclua elementos artísticos típicos da Roménia.

A igreja é antiquíssima, meio restaurada, meio por restaurar. É um work in progress bem ao estilo romeno! Entramos no interior. Não é certamente a mais bela das igrejas ortodoxas da Roménia, mas o seu recheio é farto em murais pintados, em talha dourada e, a atracção principal, a sepultura de Vlad Țepeș. Passa até um pouco despercebido se não reconhecermos a imagem que está junta ao túmulo, no chão, mesmo em frente ao iconóstase da igreja. É mesmo ele, o Conde Drácula! Longe da fantasia de Bram Stoker, Vlad repousa (creio eu para bem de todos!) sereno no seu túmulo. Não há sangue, nem mordidelas no pescoço; antes uma lenda de bravura que o escritor irlandês transpôs para as páginas do seu mais famoso livro e que Hollywood reverteu para o grande ecrã, cobrindo de uma aura sanguinária um guerreiro que apenas lutava contra as forças otomanas a mando da então poderosa Constantinopla.

A visita não se estende por muito tempo. A ilha é pequena e por isso, além do pequeno mosteiro, nada mais há para ver. Caminhamos lentamente em direcção à ponte que nos liga de novo à vida terrena. Deixamos o espaço sagrado (o religioso e o da Natureza) para nos fazermos de novo à estrada. Em poucos quilómetros estaremos de regresso a Bucareste; de regresso à selva urbana dos muitos milhões de habitantes que povoam a capital da Roménia.

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