LAR DOCE LAR (OU A HISTÓRIA DA MANSÃO DOS CEAUŞESCU)

Passaram apenas 27 anos desde que o antigo Presidente romeno, Nicolae Ceauşescu, e a sua mulher, Elena, foram executados às mãos de um exército saído de uma revolução que traria o país de volta à senda da democracia. Vestígios da Roménia de 1989 ainda são bem visíveis por toda a capital e é no requintado bairro de Primăverii que encontramos a luxuosa mansão que acolheu a família do Conducător romeno. Contrastando com a realidade de um país que vivia sob os ditames soviéticos, o Palácio Primăverii reunia nas suas vastas salas e salões riquezas impossíveis de alcançar pelo comum dos cidadãos. Quase três décadas após a Revolução e pela primeira vez na história, os romenos vão poder visitar a casa por dentro. Vamos nos também conhecer o lar da família Ceauşescu.

Estamos no Norte da cidade, bairro de Primăverii. A condizer com o nome do bairro, a tarde é de Primavera autêntica. Este é um dos locais mais chiques de Bucareste. Entre ruas imaculadamente limpas e ajardinadas, vivendas luxuosas e blocos de apartamentos modernos, destaca-se um palacete na esquina da Boulevard Mircea Eliade com a Boulevard Primăverii. É conhecido como Palácio da Primavera e esteve encerrado desde 1989 até há poucos dias. Esta foi, durante muitos anos, a residência oficial do clã Ceauşescu. O ditador romeno, assim como a sua mulher, arquitectaram um lar à imagem de uma verdadeira família real.

O lugar manteve a sua mística durante muitos anos. Era proibido circular a pé ou de carro pelas ruas adjacentes à mansão e, em surdina, sempre se falou da riqueza interior da casa. Em Dezembro de 89, os primeiros revolucionários a invadirem o pequeno palácio ficaram chocados com o nível de luxo e sofisticação do interior da residência. Diziam até que as torneiras das casas de banho era feitas de ouro maciço. Após 1989, o Estado romeno manteve o espaço sob sua responsabilidade, do Departamento de Protocolo, mas raramente foi utilizado. Aliás, o governo tentou recentemente vendar o palácio, mas sem sucesso.

Berloques dourados

Este é um lugar directamente associado ao antigo regime e, mesmo com tantas mordomias, todos os políticos eleitos Presidentes da República preferiram não ocupar a habitação. Em contrapartida, a residência oficial da presidência romena localiza-se não muito longe, mesmo no outro lado da rua, numa mansão ainda maior, mas menos exposta aos olhares do grande público.

Vista de fora, a casa apresenta uma grande volumetria, mas o seu verdadeiro tamanho só é realmente percepcionado quando se visita o seu interior. Para alguém de origens humildes, como Elena, é de espantar o gosto aprumado e requintado da casa. O traço da mansão, originalmente construída na década de 60, e remodelada dez anos depois, teve a mão do arquitecto Aron Grimberg-Solari.

A escadaria principal leva-nos até à recepção. Pagamos o bilhete, esperamos pelo nosso grupo, e iniciamos a visita. O que a casa tem de espectacular contrasta com a frieza do guia da visita. Chega a ser decepcionante o modo como somos levados pelos corredores de uma casa que em cada parede, móvel e candeeiro tem histórias cativantes que poderiam agarrar o mais distraído dos visitantes por largas horas. Mas não! A visita dura aproximadamente 45 minutos e leva-nos por praticamente todas as divisões da casa, excepção feita à cozinha.

Iniciamos o tour pela sala de trabalho de Nicolae, para depois passarmos por diversas salas de estar e de jantar, pelos quartos de cada filho, Nicu, Zoe e Valentin, assim como pelo quarto do casal Ceauşescu. Apesar de grande, a casa parece perfeitamente habitável. Todos os pormenores da decoração tiveram a mão da sua mulher, Elena. Do soalho ao teto, passando pelas paredes e pelas mobílias, todas as salas têm uma inspiração palaciana. O mobiliário ou se baseia nos modelos da corte de Luís XV e XVI ou no Renascimento italiano. Há, contudo, espaço para a Arte Deco, para o Barroco e para o estilo clássico inglês. Uma perfusão de dourados, cristais e madeiras exóticas, mobílias pesadas, mármores, tapeçarias persas e peças da mais requintada porcelana chinesa. Os quartos privados de cada filho, assim como o do casal, funcionavam como pequenos apartamentos dentro da própria casa. Todos eles incluiam um escritório, casa-de-banho, varanda, vestuário e quarto próprios. Um luxo para uma sociedade obrigada a viver em pequenos apartamentos de cidade ou em habitações sem as mínimas condições nos campos rurais. No piso inferior, de destacar a garrafeira e a sala de cinema. É publicamente conhecido o gosto particular que Nicolae tinha pelas longa metragens norte-americanas. Todos os objectos da exposição são originais, incluindo as peças de roupa nos longos guarda-fatos da casa, que em tempos foram vestidos por Nicolae e Elena.

Já perto do final da visita, e depois de corredores, salas e salinhas pintadas a dourado, damos por nós no meio de um jardim de Inverno, numa pequena estufa, recheada de plantas tropicais e um pequeno lago interior. Há ainda espaço para o spa privado. Isto de ser presidente tem muito que se lhe diga… O fim faz-se na piscina do palácio. Interior, pois os Invernos aqui são muito frios e longos. Nota bastante interessante para a reutilização da enorme piscina para, já sem água, convidar todos os visitantes a um mergulho na colecção de fotografias do casal Ceauşescu. Este espólio fotográfico remete-nos para o lado íntimo da família, das suas diversões, festas, saídas para a montanha ou para as caçadas do ditador. É, igualmente, um testemunho real da opulência e do fausto em que o clã vivia. Elena tinha um gosto especial por flores. São as raras as fotos onde não se nota a perfusão de arranjos florais nas diversas salas do palácio. Ainda dentro da piscina, a exposição fotográfica deixa-nos um breve olhar sobre o lado mais oficial da residência. Foi aqui que os grandes líderes, a seu tempo, das duas potências da Guerra Fria, se encontraram com Ceauşescu aquando das suas visitas a Bucareste: Richard Nixon, dos Estados Unidos, e Mikhail Gorbachev, da União Soviética. Vai um chazinho no palacete?!

A visita termina nos jardins da residência, povoados por pavões, uma excentricidade que o ditador trouxe das suas visitas a Pyongyang e Tóquio.

O Palatul Primăverii encontra-se aberto ao público de Quarta-feira a Domingo. As visitas têm obrigatoriamente de ser agendadas, tendo um custo de 30 Lei (45 Lei com guia em inglês) por pessoa.

Para quem gosta e quiser aprofundar o conhecimento sobre a história recente da Roménia, a visita a Primăverii é um must-see da capital romena. Não é todos os dias que somos convidados para uma visita à casa do Presidente. Aproveitem!

Bd. Primaverii, Bucuresti, Romania // http://palatulprimaverii.ro

Estação de metro mais próxima: Aviatorilor (Linha M2 – Azul), 750 metros

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