IDIOSSINCRASIAS DE UM NOVO TEMPO

Há exactamente quarenta e dois anos um grupo de militares mudou o rumo da História de Portugal. A queda do regime de Salazar e Caetano fez-se ao som de “Grândola“, mas começou “Depois do Adeus“. Aqui, na Roménia, a democracia chegou mais tarde, há apenas vinte e sete anos, e ainda hoje o país se transforma e muda ao som de outras baladas. Mas se edifícios, estátuas ou cidades não são derrubadas, a força saída de uma revolução tem o condão de mudar os seus nomes. Tratamos então de apagar a história ou, simplesmente, terminar a associação de um lugar com o velho regime? Num post pouco habitual, damos uma volta de metro e vemos onde os nomes do passado foram reinventados após a Revolução de 1989.

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

“Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades” afirma uma dos maiores vultos da literatura mundial, Luís Vaz de Camões. As revoluções são assim mesmo, muda-se a vontade, avança-se, muitas vezes com uma direcção pouco definida, mas avança-se. O mundo é composto de mudança e a nossa História demonstra-nos isso nos locais menos prováveis para acontecer, como uma estação de metro.

São 8h30 da manhã. Encontramo-nos no subsolo das ruas da capital. Aqui há um frenesim constante: às vezes o Lisabona chega carregado de sardinhas, noutras encontramos fósseis por baixo dos nossos pés e há, ainda, paragens em estações secretas. O ritmo é agitado. Provavelmente, os mais novos nem notam a diferença, mas há pouco mais do que duas décadas algumas estações eram conhecidas por outro nome. Numa rede projectada sob a égide de Nicolae Ceauşescu, as referências históricas ao seu regime ou a figuras ligadas a este eram uma realidade.

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O mapa da década de 80 com as linhas em funcionamento e as futuras expansões

Actualmente, as linhas do mapa da rede encontram-se longe do que é mostrado na imagem anterior. São apenas quatro e relativamente recentes (a primeira, a linha amarela, foi inaugurada em 1979). Servem os principais eixos da capital romena através das suas 51 estações. Os ventos de 89 trataram de alterar as placas identificativas de algumas delas.

A rede em 1987
A rede de metro em 1987

Na linha amarela, a M1, as estações Costin Georgian e Nicolae Grigorescu foram designadas até 1990 de MunciiLeontin Sălăjan, respectivamente. Muncii traduz-se como “Trabalho” e Sălăjan foi uma alta patente militar durante o período comunista. Ainda na mesma linha, a estação Petrache Poenaru era conhecida como Semănătoarea (um tipo de alfaia agrícola) até 2009.

A próxima viagem leva-nos à linha azul, a M2. A estação de Pieptănari foi renomeada como Eroii Revoluţiei, ou seja, os “Heróis da Revolução”. A estação partilha o nome com o cemitério vizinho onde estão enterrados os Heróis de 89. Há ainda duas estações que sofreram recentemente uma mudança de nome, mas sem qualquer ligação aos ímpetos revolucionários de Dezembro: IMGB para Dimitrie Leonida e Depoul IMGB para Berceni, em 2009.

A linha vermelha, M3, é a mais pródiga em mudanças de nomes, mas igualmente a que mais se tardou no câmbio. Armata Poporului, traduzido como “Exército do Povo”, deu lugar a uma menos ideológica Lujerului (o nome da avenida onde a estação se localiza). E Industriilor, “Indústrias”, nome da estação terminal, localizada junto a um importante complexo industrial, é hoje Preciziei, ou seja, “Precisão”. As outras duas mudanças (Nicolae Teclu e Anghel Saligny, anteriormente Policolor e Linia de Centură, respectivamente) não estão relacionadas com 1989. De facto, os quatro novos nomes apenas foram modificados em 2009.

Este é um pequeno apontamento dos sinais do tempo. Tal como diz Camões “Do mal ficam as mágoas na lembrança/ E do bem (se algum houve) as saudades“. Aqui, como em Portugal, as revoluções também são marcadas por mudanças. Definitivamente não tão profundas como Lourenço Marques/Maputo ou Nova Lisboa/Huambo, mas, como sempre, adaptadas à realidade de cada país.

Viva à História! Viva à(s) Revolução(/ões)!

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