DE TÂRGU JIU PARA O MUNDO

No século XIX os romenos uniram-se numa campanha que ficou imortalizada como “1 Leu para o Ateneu“. Esta foi, provavelmente, a primeira campanha de fundraising que a Roménia presenciou. Agora, em pleno século XXI, o Governo do país lançou uma segunda campanha. Já não se trata de construir um edifício imponente, antes de adquirir uma escultura. Pequena, tosca para muitos, representa uma mulher sentada. O seu autor é Constantin Brâncuși. Um homem desconhecido da maioria da população, mas um nome maior da arte mundial. Ele é considerado um dos pais da corrente de arte modernista. Nasceu no oeste da Roménia e a sua obra foi a desculpa para uma visita a Târgu Jiu.

São oito e picos. Chego à estação de metro. Até já conheço os meus companheiros de viagem. São sempre as mesmas caras. As carruagens chegam e partem carregadas que nem latas de sardinhas e, uma vez lá dentro, tenho vinte minutos para ler as notícias do dia. O resumo noticioso matinal da conta de uma iniciativa do Governo romeno de promoção de uma campanha de fundraising para adquirir uma escultura! Confesso que a notícia me chamou à atenção. Que Governo é este que, com tantas matérias com que se preocupar, anda a promover campanhas de fundraising para adquirir peças de arte? Scroll down e a resposta aparece clara como água. O autor da escultura é Constantin Brâncuși, artista romeno e nome maior da arte mundial. As suas obras estão expostas, entre outros, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, e no Philadelphia Museum of Art. Uma espécie de Joana Vasconcelos romena do início do século XX. A escultura em questão, Cumintenia Pamantului (A Sabedoria da Terra), com data de 1907, está actualmente na posse da família do arquitecto romeno George Romascu, o qual a adquiriu em 1911.

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O esforça da campanha é grande! O antigo Ministro da Cultura, Vlad Alexandrescu, acordou em pagar 11 milhões de euros à família Romascu para transferir a titularidade da obra de privados para o Estado. Daí nasceu a iniciativa do fundraising: o Governo desembolsaria cinco milhões e os restante seis seriam reunidos através de donativos da população. Nos finais do século XIX, uma iniciativa idêntica teve sucesso e ainda hoje é possível admirar o Ateneu Romeno em pleno centro da capital. E na actualidade? Bem, no final de Maio, o fundraising tinha apenas reunido 138 mil Euros, o que representa uns meros 2.3% da grande fatia dos seis milhões necessários.

Para grande surpresa de muitos, apreciar uma obra deste artista romeno, nome cimeiro das artes, não implica necessariamente uma visita a uma galeria de Nova Iorque ou de Paris. Brâncuși dedicou à capital da região onde nasceu um importante núcleo de esculturas, motivo suficiente para me fazerem entrar num carro e percorrer seis horas de estrada (notem que não avaliei a distância em quilómetros…) para uma visita a Târgu Jiu, no interior Oeste da Roménia, já bem perto da fronteira com a Sérvia.

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O caminho faz-se sempre a Sul dos Cárpatos, ainda nas planícies da Olténia, região historicamente designada por Valáquia Menor. Entramos na Roménia rural. Mal deixamos Bucareste passamos a ter como companhia infindáveis prados verdes. Se até Pitești a auto-estrada dá-nos um pouco de modernidade, após deixarmos esta cidade embrenha-mo-nos numa Roménia rica em cores, tradições, ruralidades, cenários idílicos e condutores lunáticos! Seguimos a estrada, curva contra curva, carro atrás de carro, uma procissão infindável até que começam a surgir as primeiras indicações para  Târgu Jiu. Ainda faltam 100 quilómetros, mas só o facto de vermos uma pequena placa é suficiente para nos encher a alma de esperança em podermos, muito em breve, abandonar o espaço fechado do automóvel no qual seguíamos por horas infindáveis.

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Chegamos a Târgu Jiu já ao final da tarde. Tudo aqui respira Brâncuși: restaurantes, cafés, hotéis, parques. Todos têm Brâncuși no seu nome!

 

O artista multifacetado preparou para a sua cidade um conjunto de esculturas que atraem bastantes turistas à localidade. Designou a grande obra por Ensemble, numa homenagem aos heróis romenos durante a Primeira Grande Guerra. A Ensemble é composta por três esculturas (A Mesa do Silêncio, A Porta do Beijo e a Coluna Infinita), distribuídas ao longo de 1300 metros no interior da cidade. O conjunto é considerado uma das maiores instalações de escultura ao ar livre do século XX.

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A visita ocupa uma tarde inteira. Paramos, olhamos, observamos. Tocamos e sentimos o espírito do criador das obras. Junto à Coluna Infinita corremos o olhar até ao topo da escultura. Qual será o seu verdadeiro significado?

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Quem diria? Nos confins da Roménia, numa cidade que nem sequer aparece nos mapas, estamos na presença de peças únicas, avant-garde para o seu tempo, alvo de polémica durante o período comunista e que hoje são o elo de ligação de Târgu Jiu ao mundo! Vale a pena a visita.

 

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3 opiniões sobre “DE TÂRGU JIU PARA O MUNDO

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