ESTA VIDA DAVA UM FILME!

Muito mais do que visitar novas cidades, monumentos, paisagens ou conhecer a cultura de um país, é o contacto com as pessoas que torna a vida realmente rica. E neste vai e vem de novos contactos há sempre a história de alguém que nos cativa. “Esta vida dava um filme!”, exclamei eu, depois de ouvir, na primeira pessoa, a história de Alejandra: uma venezuelana que vivia no Panamá, atravessou o Atlântico e acabou por ser feliz aqui, em Bucareste, não sem antes ter passado pelo cabo das tormentas. Um cocktail que mistura novas tecnologias, (muito) amor, perseverança e (muita) burocracia. O fim da história?! Há que ler até ao último parágrafo para a descobrir!

Lembro-me como se fosse hoje de todo o cenário. Uma das grandes salas de convívio do escritório. Às paredes brancas juntam-se uns painéis verdes aqui e acolá. As janelas rasgam as paredes de alto a baixo. São estreitas aberturas que nos dão uma visão urbana da metrópole romena. Há mesas e cadeiras espalhadas pela sala. É nela que todos nós nos reunimos para o almoço, para uma pausa a meio da tarde quando o lounge está cheio e, naquela noite em específico, para um jantar. Seria uma pausa rápida, pois os afazeres do final de trimestre não nos deixavam muito tempo livre. Mas de um jantar express, a ceia viria a transformar num momento de partilha que jamais irei esquecer.

Sentámo-nos à mesa. Estava praticamente toda a equipa. Depois do prato principal, um por um, vão-se levantando. Ficamos só três e uma sobremesa que, naquele dia, estava divinal. E foi naquela mesa branca, de linhas direitas e tão impessoal que Alejandra começou a debitar a sua história. É certo que havia uma questão que populava a cabeça de todos nós desde o momento em que a conhecemos: porque razão veio uma venezuelana trabalhar para a Roménia? Cada um tinha a sua versão, mas a história real deixou-nos agarrados do princípio ao fim.

Nascida e criada em Maracaibo, na Venezuela, Alejandra Rodriguez estava longe, muito longe, de imaginar que a sua vida iria dar uma volta de 180 graus. Qualquer português conhece, mais ou menos, a realidade do país que teve tudo para ser um paraíso. Rica em petróleo e em biodiversidade (a Amazónia ocupa o Sul do país) e com as praias do caribe a seus pés, a Venezuela tem tudo para ser um destino de eleição. Mas a república sul-americana vive momentos difíceis. Foi Chavez, agora Maduro, e uma ditadura que fez o país desabar social e economicamente. Só não acredita quem não quer ver ou quem não ouve as dificuldades em sobreviver num país que tinha tudo para dar certo. A vida não anda fácil para aquelas bandas. Alejandra viu-se obrigada a mudar para o vizinho Panamá. Tinha na altura 27 anos e esta era a melhor solução para si e para a sua família. Nunca é fácil deixar os entes queridos para trás e recomeçar a vida desde a estaca zero. Estava sozinha, pela primeira vez fora da sua terra natal, num país que apesar de vizinho e de falar a mesma língua era um local totalmente desconhecido para Alejandra.

Se Maomé não vai à montanha, vem a montanha a Maomé (com banda sonora é bem melhor!)

Estar sozinha não era condição que agradasse a Alejandra. O trabalho ocupava grande parte do tempo e trabalhar das seis da manhã até às oito, nove ou dez da noite (quando não até altas horas da madrugada) não deixava muito tempo livre para o social. A solução? Que tal um site de encontros online?! Ouço na televisão ou na rádio muitas histórias de pessoas que se conheceram pela Internet e que hoje estão juntas. Namorados, casados, juntos… Um novo paradigma que, sinceramente, nunca acreditei ser real. O meu franzir de sobrancelha a estas situações mudou depois deste jantar.

Alejandra criou um perfil. Escreveu com sinceridade o que procurava, os seus sonhos, o que gostava e o que não apreciava. Poucos dias depois alguém do outro lado enviou-lhe uma mensagem. Difícil de acreditar, dizia ela, alguém tinha lido o longo correr de frases. Amontoado de palavras que descreviam o que uma Alejandra, ainda virtual, procurava.

Ao aperceber-se que a resposta veio de longe, as esperanças de Alejandra baixaram. Literalmente do outro lado do mundo, Petre encontrou neste perfil aquilo pelo que também procurava. Primeiro foi um tímido “Olá!”. Depois a conservação foi-se soltando. Soltando ao ponto de ambos colocarem a si próprios a questão: será isto amizade apenas? E foi na realidade uma amizade em tom crescente. Passou um ano e as conversas eram tão frequentes e profundas que nem mesmo os diferentes fusos horários os faziam parar.

Ouvir esta história em discurso directo estava a deixa-nos em pulgas. Já sabíamos o final, mas queríamos mais pormenores!

Relações à distância são sempre complicadas. Pior quando por meses seguidos há apenas um toque digital. A distância estava a fazê-los perder a esperança de algum dia realmente se encontrarem. A distância testou-os. “Decidimos interromper as nossas conversas”, avança Alejandra. Suspense na mesa! Afinal de contas, se fosse uma mera amizade, não falarem regularmente seria a prova que procuravam. E a prova revelou-se não se tratar de uma mera amizade transatlântica! Havia algo bem forte a bater nos dois corações separados por milhares de quilómetros. Cedo trataram de resolver a parte virtual.

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Três meses de emoções fortes

Petre fez as malas e rumou à América Latina. Uma viagem longa, para um destino nos antípodas da Roménia, que lhe mudou o resto da vida.

Alejandra, a nossa colega das gargalhadas contagiantes, estava nervosa. O caminho de casa até ao aeroporto da Cidade do Panamá demorou uma eternidade. Tempo suficiente para questionar tudo o que tinha sentido até agora. “E se ele não gostar de mim?”. Nas chegadas estava uma mulher insegura, nervosa, com as mãos húmidas de tanto transpirar. O avião aterra. Aperta-se o coração de Alejandra. Era agora o momento tão esperado. Finalmente, depois de 16 meses de encontros virtuais, estariam frente a frente. Aguenta coração!

Abrem-se as portas das chegadas. Petre caminha vagarosamente. Cara cansada depois de muitas horas de avião. Alejandra procura no meio da multidão a cara que a acompanhou durante meses no ecrã do seu computador. Petre, carregando uma mala cheia de sonhos, procura-a também.

Cruzam o olhar. “É ele!”. É ela! No turbilhão do primeiro encontro Alejandra garante que mal o viu as suas dúvidas dissiparam-se. Acredito que ele teve o mesmo pensamento. O encontro no aeroporto marca o início de uma montanha russa de emoções que durou três longos meses. Um primeiro mês de novas descobertas e sensações. De viagens paradisíacas entre as florestas da América Central e a costa do Caribe. Tal como num filme, tudo parecia correr bem. Mas este primeiro mês terminou quando Alejandra necessitou de ser internada de urgência. Um mal estar que durou 30 dias e que a deixou colada à cama do hospital. Longe de casa e da família, Petre foi mais do que um amigo. Todos os dias a visitava no hospital. Cuidou dos afazeres da casa, pagou as contas. Sob Sol ou chuva, Petre era o único elemento de ligação de Alejandra ao mundo. Ele esteve presente. Ao final de um mês de internamento Alejandra voltou a casa. Agora, com os dois novamente fisicamente reunidos, iniciava-se o countdown para Petre regressar à velha Dácia. O tempo esfumava-se. Três longos meses que passaram num estalar de dedos. Mas a velocidade dos 90 dias ajudou a cimentar uma amizade e um amor profundo entre os dois.

Adeus Panamá, olá Europa

Aquela última semana foi horrenda. Ambos sabiam apenas que depois do último dia de Petre no Panamá o destino poderia voltar a nunca mais os juntar. Ele não se tinha habituado ao clima e à cultura panamiana. O regresso a Bucareste era o próximo passo.

Tal como no primeiro encontro, a viagem até ao aeroporto foi insuportavelmente longa. Os olhos de Alejandra transbordavam de lágrimas. Os três meses de tão intensas emoções marcaram-na para o resto da vida. A despedida, dura e madrasta, foi como que um murro seco no estômago.

O regresso de Petre a Bucareste lançou um novo desafio a Alejandra. Se de Maracaibo à Cidade do Panamá o passo foi difícil, mas feito sem qualquer ajuda, que tal um salto maior, para o outro lado do mundo, desta vez sabendo que ao aterrar haveria uma cara familiar à sua espera?

Alejandra rapidamente vendeu todo o recheio da casa. Trabalhou ainda mais horas por dia e, finalmente, comprou o bilhete que a havia de levar até à Europa. Uma decisão difícil, mas que ela sabia ser a escolha certa.

Regressa ao aeroporto dos encontros e desencontros para embarcar na maior viagem da sua vida. A maior em distância, assim como a maior aventura que alguma vez pensou estar envolvida.

Chega a Bucareste terrivelmente cansada. Passou o controlo de passaportes, pegou a mala de viagem, caminhou em direcção à saída. Lá estava Petre. Abraçaram-se. Alejandra ainda não estava em si. Lá fora estava uma cidade cinzenta, com uma natureza morta pintada em tons de cinzento e castanho. Que desilusão! Alejandra sentia-se tão triste. Um vazio enorme. Perdida de si mesma numa terra que não a tinha recebido com as cores fluorescentes tropicais do Caribe. Só mais tarde, já em casa de Petre, se sentiu segura. Viu nos olhos dele o aconchego que necessitava. No abraço o lar que tanto procurava e que parecia não encontrar. Era Inverno lá fora, mas os seus corações ardiam num fogo descontrolado. Viriam mais três meses de emoções fortes.

Passado o choque inicial, não foi muito difícil a Alejandra adaptar-se à nova cidade. Recorda ela que Bucareste é segura, tem parques verdes e, pela primeira vez na sua vida, pode experimentar as diferentes estações do ano. Pela primeira vez sente o frio da neve no Inverno e vê a mudança radical para a Primavera quando toda a cidade testemunha uma explosão de cores nas ruas. Ela gostou. Ela via-se a viver eternamente neste cantinho da Europa. Mas tal como no Panamá, os três meses do visto estavam a chegar ao fim. O que fazer? Voltar para o Panamá já não era considerada como uma hipótese. Regressar à Venezuela seria apenas uma fuga momentânea.

Uma relação que resistiu a encontros virtuais, conversas infindáveis por Whatsapp, três meses de emoções fortes no Panamá e uma viagem até Bucareste merece um final feliz. Muito feliz!

A solução estava no casamento. Ao casar-se, Alejandra passaria a viver legalmente na Roménia. Começou a procurar emprego e a tratar de toda a papelada legal para a cerimónia civil. Uma corrida contra o tempo. Entra aqui a burocracia. São precisos documentos, autenticações, certidões… Uma miríade de dores de cabeça! Da Venezuela apenas chegavam más notícias: ora o documento estava perdido, ora não havia papel para imprimir um certificado. Quando, a muito custo, a certidão de nascimento chega às mãos de Alejandra e esta a entrega às autoridades locais, a qualidade da cópia era tão má que a autenticidade da cópia foi posta em causa. Alejandra desespera. Sai de si, provavelmente com o discurso mais importante da sua vida, move mundos para explicar a situação do seu país aquela senhora que estava do outro lado do guiché de atendimento. Correm-lhe as lágrimas pela cara. Do outro lado está alguém que apesar de não perceber espanhol comove-se com a situação. Uma semana para a partida e não havia forma de o casamento ter lugar. Uma última visita ao edifício do registo civil… Um último esforço para evitar a saída do país. “Preencha mais um formulário e peça ao Presidente de Câmara que faça avançar o processo” é a única resposta que os serviços providenciam.

Ainda há quem acredite em milagres

Já com o bilhete de regresso na mão, e a cinco dias de embarcar de volta à Venezuela, Alejandra e Petre regressam ao registo civil. Procuravam a resposta do Presidente da Câmara. No guiché de atendimento apontaram-lhe para um placard. Correram. Correram os olhos pela vastidão de pequenas letras, de anúncios e informações. Correram lágrimas pela cara de Alejandra ao se aperceber que o Presidente da Câmara tinha acedido ao seu pedido e tinha autorizado a realização do casamento. Há lágrimas de alegria, de alívio. A cerimónia, rápida e com tradução para espanhol, teve lugar no último dia de validade do visto de Alejandra. Rasgou-se o bilhete de regresso. No final de contas, o seu destino era Bucareste. Em definitivo, Bucareste!

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Hoje, mais de um ano após esta história louca ter acontecido, Alejandra vive feliz na Roménia.

Desejo-lhes um futuro recheado de felicidade e de boas memórias!

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