VOLTAMOS AO PRIMEIRO!

Voltamos ao Primeiro de Dezembro e, desta vez, Roménia e Portugal celebram a data em uníssono. Um marco histórico que marca há décadas (centenas de anos para os portugueses) a História dos dois países. Hoje, aqui em Bucareste, as Forças Armadas desfilaram nas largas avenidas do Norte da capital. Meios terrestres, aéreos e 3000 soldados, alguns de forças aliadas, exaltaram o orgulho romeno. Misturei-me no meio da multidão, no meio de um mar de tricolores, para sentir o bater patriótico romeno. Mas o que celebram os romenos?

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Está frio! Ainda não estão aquelas temperaturas congelantes, mas -3ºC já nos obrigam a carregar um bom casaco e cachecol. A multidão concentra-se na estação de metro de Aviatorilor, a mais perto do local da parada militar. Este ano, com o Arco do Triunfo totalmente renovado (após mais de dois anos em obras de restauro), o desfile voltou à sua casa habitual. As largas artérias propiciam um espectáculo sincronizado entre forças terrestres e aéreas. Exército, Força Aérea e Marinha, incluindo forças aliadas da OTAN, cruzam o arco em sinal de vitória. Mas, o que celebram os romenos?

O Primeiro de Dezembro é um dia maior na história dos nossos dois países. Se por um lado os romenos relembram o dia em que todas as províncias de maioria romena se uniram sob um único Estado, para nós, portugueses, esta data simboliza a reconquista da soberania face aos Filipes de Espanha. O dia em que terminou um infame período de 60 anos de governação castelhana. Seis décadas que nos arrastaram para guerras que não eram nossas e que no final deixaram marcas profundas em toda a sociedade portuguesa. Não será à toa, digo eu, a quantidade de tão poucos simpáticos ditados populares que temos referentes ao país vizinho. Nem, tão pouco, uma desconfiança que nasce connosco (ou pelo menos com muitos de nós) face a quem está no outro lado da fronteira.

Aqui, na Roménia, este dia marca a Grande União (Ziua Marii Uniri) da Transilvânia com a Roménia. E o que nos contam os livros de história?

Na velha Dácia, um sonho antigo era acalentado há muito: a criação da Grande Roménia. A união de todos os romenos sob um único Estado.

Agosto de 1916:
As autoridades romenas assinam um acordo secreto com a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia) tendo em vista a entrada do país na guerra contra a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), caso, no final da Primeira Grande Guerra, as primeiras reconhecessem a soberania de Bucareste sobre a Transilvânia, o Banat e a região de Partium.

Dezembro de 1918:
Ventos de mudança sopram por todo o Velho Continente. A guerra acabou!
A declaração da Assembleia Nacional de Alba Iulia foi o pontapé de saída para um momento único na história recente da Roménia. As centenas de deputados reunidos nesta cidade da Transilvânia declararam a união da região, assim como da Bucovina e do Banat, com o Reino da Roménia. Aliás, Alba Iulia vem reforçar a também recente declaração de união dos territórios da Bessarábia com o reino romeno. Nasce a Grande Roménia! Um sonho tornado realidade.

Assembleia de Alba Iulia, 1918

Assembleia de Alba Iulia, 1918

A nova soberania de Bucareste viria a ser reconhecida em 1919, através do Tratado de Versailles, e as fronteiras definitivas entre a ‘nova’ Roménia e a Hungria ficariam oficialmente estabelecidas apenas um ano mais tarde, entre 1919 e 1920, com os Tratados de St. Germain e Trianon, respectivamente.

A Grande Roménia sobreviveu até ao dealbar da Segunda Grande Guerra, quando o país, seguindo os planos do Pacto Molotov-Ribbentrop, cedeu os territórios da Bessarábia (actual República da Moldova) à União Soviética. Perderia ainda o Norte das regiões da Bucovina e de Herța, em favor da Ucrânia, assim como o Sul da província de Dobruja, cedida à vizinha Bulgária.

Evolução do Território Romeno

A Segunda Grande Guerra terminou, a Guerra Fria tem o seu início e a Roménia passa a ser um Estado satélite de Moscovo. Contudo, a ideia de uma grande Roménia não é abandonada. É certo que oficialmente a ideia nunca mais teve apoio político inequívoco para se concretizar, mas ainda há muitos que sonham com a reunião de todos os romenos num só Estado.

Hoje, a Roménia mantém as mesmas fronteiras desde 1948. Aqui e ali encontramos espíritos mais expansionistas, mas nada que incomode o residente no Palácio de Cotroceni. A parada militar, muito ao grande estilo soviético, e que este ano teve como ponto alto o voo dos “novos” caças F16 adquiridos a Portugal, relembra a todos a importância deste dia. 1 de Dezembro, o dia da Grande União, o dia em que todos os romenos passaram a viver sob um único Estado.

La mulți ani, România!

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2 opiniões sobre “VOLTAMOS AO PRIMEIRO!

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