UMA ROMÉNIA AO ESTILO CANADIANO?

Iniciamos o ano com política. No mês em que a Roménia celebra uma década de adesão à União Europeia, o país assistiu, finalmente, à nomeação de um novo governo. Digo “finalmente” pois a Roménia esteve a pouca distância de ter sido pioneira na política do Velho Continente. Mas não! Se há pouco mais de um ano era o partido mais contestado na rua, hoje o PSD regressa à cadeira do poder. A partir da sede do Governo, na Piaţa Victorei, o Partidul Social Democrat, o centro esquerda romeno, volta a conduzir os destinos do país. Os protestos já estão ao rubro!

Estão muitos graus negativos lá fora. À porta de casa encontro 40 ou 50 centímetros de neve. Confesso que a vontade de ir à rua tirar fotos a tanta neve é, e estou a ser simpático, mínima. As fotos dos anos anteriores descrevem na perfeição o cenário que esta semana vivemos aqui em Bucareste. Começo, então, o ano de blogger com um pequeno comentário à intensa actividade política que a Roménia viveu entre Dezembro e Janeiro.

Palácio da Victória, na Piaţa Victorei

As eleições legislativas, que tiveram lugar a 11 de Dezembro, voltaram a colocar no Palácio da Victória um governo liderado pelos sociais-democratas romenos. Um resultado surpreendente! Há pouco mais de um ano este mesmo partido foi “expulso” do seu exercício após fortes protestos populares em resultado do incêndio do Clube Colectiv.

Em 2015, no rescaldo do Colectiv e da contestação nas ruas das principais cidades, Klaus Iohannis, Presidente da República, nomeou um governo de tecnocratas, liderado por Dacian Cioloș, à data Comissário Europeu da Agricultura, durante a segunda presidência de Durão Barroso na Comissão Europeia. Apesar das evidentes ligações ao Partido Nacional Liberal (PNL), Cioloș sempre se apresentou como independente.

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Dacian Cioloș, ex-Primeiro-Ministro

Pelo que tenho sentido, as medidas tecnocratas do anterior governo estavam a ser bem recebidas pelas gerações mais novas. Contudo, os líderes da oposição acusavam Cioloș de falar uma “língua estrangeira”, na qual as gerações mais velhas não se reviam. A resposta do então Primeiro-Ministro era a que não falava a língua do populismo.

No dia da eleição, a sua “língua estrangeira” pouco ou nada lhe valeu! O canal Digi24 noticiava que o voto popular de 11 de Dezembro tinham dado ao PSD a victória: 45% dos lugares da Câmara Baixa do Parlamento (154 deputados). O segundo partido, o PNL, que tinha como cabeça de lista o próprio Cioloș, ficou com 20% (69 deputados). Em terceiro surge a União para a Salvação da Roménia (USR), a mais recente start up política romena, com quase 9% dos votos (30 deputados). Mais abaixo na tabela surge a Aliança dos Liberais e Democratas (ALDE), com apenas 6% (9 deputados), mas que, ao coligar-se com o PSD, torna-se, igualmente, parte do novo executivo romeno. A percentagem de votantes foi a mais baixa desde 1989: apenas 39,5% dos eleitores compareceram às urnas, nota a Euronews.

Um governo à canadiana?

O PSD, liderado por Liviu Dragnea, cedo se colocou em rota de colisão com o actual Presidente. Iohannis foi claro e directo na sua mensagem: não indigitaria nenhum candidato com cadastro criminal. Elementar, penso eu! Dragnea foi condenado a uma pena suspensa de dois anos de prisão por fraude eleitoral, uma sentença que, de acordo com a lei, lhe veda o acesso ao cargo de chefe de governo.

Para contornar o imbróglio político, o PSD apresenta, então, uma mulher para liderar o executivo romeno. E aqui, a momentos de se fazer história, Iohannis volta a bloquear as pretensões dos sociais-democratas. Seria um pequeno grande detalhe que colocaria o país nos livros de história política de uma Europa essencialmente cristã.

“Ponderei com cuidado os argumentos a favor e contra e decidi não aceitar esta proposta”, afirmou Klaus Iohannis, citado pela agência France Press.

O PSD tinha indicado o nome de Sevil Shhaideh. Estávamos a passos de ter, pela primeira vez na história, uma mulher muçulmana aos comandos de um Estado membro da União Europeia.

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Sevil Shhaideh

““Peço à coligação liderada pelo PSD para apresentar outra proposta”, afirmou Iohannis numa declaração à televisão romena. O chefe de Estado não apresentou qualquer justificação para rejeitar o nome de Shhaideh, que pertence à comunidade turca do país e é casada com um empresário de origem síria”, escreveu o Expresso.

A resposta não tardou. Liviu Dragnea declarou: “De facto, este homem pretende espoletar uma crise política na Roménia. Não é uma decisão fácil. Vamos fazer uma análise rápida e se, depois disso, chegarmos à conclusão de que é vantajoso para o país suspender o presidente, não hesitarei.”

A solução para o impasse político chegou pouco depois. Dragnea, apesar de ser o nome preferido do partido, acabaria por indicar Sorin Grindeanu, político que acabou por ser indigitado por Iohannis e, largamente, apoiado por maioria parlamentar. O novo governo inclui um impressionante número de 29 ministérios, oito dos quais liderados por mulheres. Shhaideh, impedida de liderar o governo, foi nomeada Vice-Primeira-Ministra, ficando responsável pela pasta do desenvolvimento e fundos europeus.
Ao dirigir-se aos deputados da Câmara Baixa, Grindeanu desejou “uma Roménia normal, onde os jovens não tenham de sair para conseguir ter salários decentes”.

Sorin Grindeanu, o novo Primeiro-Ministro

Estado de graça?

Durou pouco. Diria mesmo, nada!

“Milhares de romenos saíram para as ruas esta quarta-feira em protesto contra um projeto-lei do Ministério da Justiça com vista a conceder perdões, por exemplo, a quem foi sentenciado com penas de prisão inferiores a cinco anos.

A proposta em estudo visa ainda a descriminalização de abusos de poder que tenham custado aos cofres do Estado menos de 200.000 lei (cerca de 45 mil euros).

O Presidente da Roménia é outro dos opositores do projeto-lei em estudo. Klaus Iohannis marcou presença esta quarta-feira num conselho de Ministros e apelou aos membros do governo para não deixarem passar “da noite para o dia” uma lei que pode prejudicar o combate à corrupção no país.”, avança a Euronews.

Parece que a população urbana do país não se revê nesta medida que o novo Governo insiste em aprovar. Numa Roménia que assiste quase diariamente ao mediatismo das detenções de personalidades públicas por causa de casos de desvios de fundos públicos e corrupção activa, este decreto-lei parece deitar por terra todo o esforço de formiga que as autoridades de Bucareste vêm a empreender desda há um punhado de anos. Espero, sinceramente, que tal não avance!

Por momentos, pensei que poderíamos ter um governo romeno ao estilo canadiano. Por lá, é fácil encontrar ministros com origens não canadianas (representando as várias comunidades que habitam o país); por cá, uma tentativa semelhante começa a desenvolver-se. Começamos pela comunidade muçulmana, mas ainda há um longo percurso para incluir húngaros, moldavos ou, até, os esquecidos lipovanos do delta do Danúbio.

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