TOCA O SINO

Como é habitual, todas as manhãs, na viagem de metro para o trabalho, aproveito para ler as notícias do dia. O resumo matinal traz-me os updates da política, economia e da sociedade romena. Mas não é de estranhar quando, aqui e ali, uma ou outra notícia faz manchete com as mais recentes novidades da Igreja Ortodoxa Romena. Num país profundamente religioso, com uma sociedade “religiosamente” controlada pelos homens de batina preta, começa a ser comum as vozes de crítica. E desta qual a razão para o alarido? Um sino e muitos milhares de Euros!

Sempre que passo em frente do edifício do Parlamento, fico impressionado com o gigantismo da construção. O palácio que Ceauşescu quis que fosse do povo, é o sinal visível maior da sua megalomania. Os ares de 89 ditaram um destino diferente aos dois. Nicolae Ceauşescu deixou este mundo, e o palácio, ainda por acabar, foi sendo uma pedra no sapato dos sucessivos governos. Ainda hoje não está completo, mas alberga as duas câmaras do Parlamento, o Tribunal Constitucional, um centro de conferências, assim como o Museu Nacional de Arte Contemporânea. É, no final de contas, um marco na cidade: odiado pelos locais, local de romaria pelos turistas (cada vez em maior número) que visitam a capital.

Mas se todo o edifício está envolto em lendas e mistérios, é nas suas traseiras que hoje os olhos da sociedade colocam a sua atenção. Aqui, ainda escondido pela grandiosidade do Parlamento, está a nascer um outro gigante. Não se trata de bloco habitacional ou de um centro comercial. Antes da maior catedral da Roménia e uma das maiores do Sudeste europeu.

catedrala

Num país profundamente religioso (mais de 80% da população afirma ser Ortodoxa, segundo os Census de 2011), onde o Governo central dispende anualmente 100 milhões de Euros do erário público para pagar os salários dos sacerdotes, “a Igreja tem capitalizado o seu poder no seio da sociedade”, conta a britânica BBC. A partir da Colina do Patriarcado, têm sido dadas ordens que culminaram na construção de uma nova igreja a cada três dias, desde 1990. Um número impressionante!

O líder máximo ortodoxo, o Patriarca Daniel, não se coibe de manifestar as suas preferências político-partidarias publicamente, embora sempre de forma indirecta.

On the day of the 2014 presidential elections, when German ethnic Klaus Iohannis was facing up against former prime minister Victor Ponta, the patriarch gave a sermon about how, in the history of the Romanian people, God often worked through people foreign of the nation, according to a Mediafax report. He gave the example of King Ferdinand and Queen Mary, who had “no Romanian blood in their veins” but contributed to Romania’s Great Union.

“When God wishes to help a people, He works through whoever He wants and however He wants, so that we learn that not only those of our nation or close relatives can help us, but, often, even foreigners who help our nation can help it,” the Patriarch was quoted as saying. In Romania Insider.

O papel da Igreja é visivelmente mais forte longe dos centros urbanos. E é daí que chegam os maiores apoios à construção da Catedral da Salvação do Povo Romeno. Localizada bem próximo do centro da cidade, no perímetro do Parlamento, a catedral destaca-se, em primeiro lugar, pela sua grandeza: capacidade para seis mil fiéis na nave principal, 125 mil na área total da igreja (incluíndo a zona de jardins), 126 metros de comprimento e 120 metros de altura da torre principal (que passará a ser uma das mais altas construções da capital, ultrapassando, largamente, a altura do edifício sede da democracia). A grande catedral está projectada para se manter intacta por 500 anos, resistindo a terramotos de até 8,5 graus na escala de Richter. Incluirá, ainda, seis bunckers capazes de resistir a ataques atómicos, cada um com capacidade para proteger até 300 pessoas. Em 2018, ano previsto para a conclusão da primeira fase de construção (da nave central e do iconostasis), parte dos 200 milhões de Euros do orçamento da obra deverão já ter sido utilizados. A catedral deve estar concluída, na sua totalidade, apenas em 2024.

E é nos “milhões” que a discórdia começa. Quer as autoridades locais, quer o Governo do país, já aprovaram a transferência de gordas verbas para a construção da catedral.

A Primăria București (a Câmara Municipal) aprovou, no passado mês de Agosto de 2016, a doação de 3,3 milhões de Euros; o Presidente do Sector 1 de Bucareste (uma das subdivisões da cidade) propôs, igualmente, o financiamento da catedral com 2,2 milhões de Euros; e, já no longínquo ano de 2008, o Governo de Emil Boc (2008-2012) aprovou a doação dos terrenos para a construção do edifício (avaliados, em 2005, em 200 milhões de Euros). Uma pesada factura que todos nós, contribuintes, estamos a pagar. Este fluir de dinheiros públicos choca qualquer um quando nos apercebemos que um dos países mais pobres da Europa opta por investir em igrejas em vez de serviços públicos de qualidade!

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No direito de resposta, a Igreja Ortodoxa relembra que esta catedral não é um mero apanágio religioso. Funcionará como um centro de apoio social, uma escola, uma cantina, assim como um auditório para música sacra. Além disso, ressalva o papel da igreja e dos seus sacerdotes nas comunidades rurais, destacando o apoio da população às causas religiosas. No final de contas, é ainda, segundo a ortodoxia romena, um sinal da forte tradição religiosa do país.

Que cada um tire as suas conclusões…

Neste vai e vem de notícias, ataques e contra-ataques, as últimas da catedral estão ligadas ao sino da torre principal. Um grande sino: 25 toneladas, três metros de altura, três metros de largura, gravados para a posteridade com o auto-relevo da cara do Patriarca Daniel. Uma heresia para os não religiosos!

“The cathedral’s biggest bell is one of the biggest in Europe, if not the biggest, and its size is justified by the cathedral’s dimension. It’s a powerful bell, but nobody will ever be bothered by it. Its ringing will be electronically adjusted,” afirma Vasile Banescu, representante do Patriarcado.

Segundo a televisão oficial da Igreja, Trinitas TV, o sino de 425 mil Euros, contruído em Innsbruck, na Áustria, deverá chegar a solo romeno apenas em meados de Maio. A catedral irá contar, ainda, com mais um conjunto de cinco outros sinos, mais pequenos.

Porque é caro, porque é grande, porque tem imbutido a face da Daniel… todos os pormenores são bons para notícias à lá Correio da Manhã! A verdade é que, bani a bani, a catedral lá vai crescendo, movendo-se nos intervalos dos casos de corrupção do cenário político caseiro que ocupam muitas das páginas dos jornais romenos.

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