PAREDES PINTADAS

Bucovina, esta região no Nordeste da Roménia, paredes meias com a Ucrânia, é rica em arquitectura religiosa. Mosteiros ortodoxos, pequenas fortificações vistas do exterior, mas amplos espaços de meditação no seu interior. E é no interior destas pequenas fortalezas que encontramos dezenas de igrejas conhecidas pelas suas paredes exteriores completamente pintadas com cenas que nos remetem para o Antigo e Novo Testamento. Sinais de fé numa região de cruzamento de impérios. Hoje falamos de paredes pintadas, mas não se tratam de graffiti. Vamos conhecer a Rota dos Mosteiros da Bucovina.

Fica longe, a muitas horas de carro de Bucareste. A viagem atravessa a Moldávia romena, uma das regiões mais pobres da Europa. Contava eu em 2015, em Rumo ao Norte:

“Sem auto-estradas para nos conduzir ao destino final, o caminho vai-se tornando penoso a cada quilómetro que percorremos. Cortar a meta, na longínqua aldeia de Sucevița, começa a tornar-se numa tarefa de difícil conclusão. À excepção de uma outra outra curta paragem por questões logísticas, os quase 500 quilómetros são feitos a uma velocidade baixa.

Hai în Bucovina! 

Depois de atravessar as planícies onde crescem as grandes vinhas da Moldávia (da província, não da república vizinha da Roménia), a paisagem dá lugar à montanha. A grande porta da região vê-se à distância. Um sorriso esboça-se na cara de todos nós. O destino já estava perto. Bem, perto é relativo, pois ainda tínhamos pela frente 100 quilómetros em estrada de montanha. Um pormenor do qual só nos viríamos a aperceber mais tarde.”

Mas, apesar de atrasado em dois anos, o post de hoje é dedicado à Rota dos Mosteiros da Bucovina. A principal atracção turística da região e, seguramente, uma das principais de toda a Roménia, é o legado da mistura entre assuntos religiosos, diplomacia e guerra.

Entre os séculos XV e XVI, sucessivos líderes locais decidiram erguer pequenas igrejas, rodeadas de robustas muralhas, como forma de afirmar a fé ortodoxa na região. Viviam-se tempos atribulados e do Sul, Otomanos vinham aos poucos a controlar e a impôr a sua fé a todos os territórios controlados por Constantinopla. Esta foi a forma de preservar a cultura cristã na região. Mas, o que ontem foi cenário de guerra, é hoje local de romaria de milhares de turistas. Vêm em paz para admirar a beleza única das pequenas igrejas pintadas com frescos que nos remetem para passagens do Antigo e Novo Testamento. A rota guia-nos pelos sete mosteiros principais (Humor, Moldovita, Patrauti, Probota, Suceava, Sucevița e Voronet) e pelas belezas naturais da Bucovina. Desde 1993 que a maioria destes mosteiros é Património da Humanidade da UNESCO. Em falta está o de Sucevița, o mais visitado de todos.

Às paredes austeras do exterior destas fortificações contrapõem-se as coloridas fachadas das igrejas. As pinturas, nem todas em bom estado de conservação, têm cores garridas e contam histórias bíblicas. A arte que por aqui se observa sobreviveu a guerras e aos gelados e implacáveis Invernos deste canto do Velho Continente. As paredes são autênticas telas. Esta foi a opção prática e rápida para dissiminar a fé numa altura onde apenas os mais abastados sabiam ler e escrever. Como que um ecrã de televisão do século XX ou uma página de Internet no século XXI, estes murais contavam de uma forma directa e simples a história da Fé a todos os campesinos que por aqui passavam.

Sobre a Bucovina:

A Bucovina é uma região centenária, vitima da sua própria localização – na confluência de vários impérios e reinos – e da vontade que os vencedores das grandes guerras na Europa quiseram impor.

Para encontrarmos o embrião da Bucovina temos que recuar até ao século XIV. Durante a Idade Média a região integrou, ainda que sem estatuto de província própria, o Principado da Moldávia. O Norte da região, com muitas localidades raianas e habitadas pelos Rutenos (ou ucranianos), cedo se tornou alvo da cobiça do vizinho Reino da Polónia. Ștefan cel Mare (em Português Estêvão, o Grande), senhor do Principado, assim como os seus sucessores, como forma de manter os polacos fora das suas fronteiras, inicia a construção de diversos mosteiros junto à fronteira da Bucovina, os mesmo que hoje podemos apreciar em paz. O destino da região segue os ventos de sucessivas guerras. Logo no século XVI, o Principado cairia às mãos do poderoso Império Otomano. Constantinopla outorgou à Moldávia alguma autonomia, o que lhe viria a permitir manter a influência otomana de certa forma limitada. Cem anos mais tarde, e por breves momentos, Mihai, o Bravo, reúne pela primeira vez a Moldávia (Bucovina incluída) com a Valáquia e a Transilvânia. Mas foi curta esta união. Sucessivas guerras foram deixando a região desgastada. Mas é apenas em 1774 que os russos entram em acção. Como consequência da victória de Moscovo na Guerra Russo-Turca, toda a região (incluindo ainda o sul da Ucrânia, o norte do Cáucaso e a Crimeia) ficaria para sempre sob a órbita do Império Russo. Como na história quem manda ganha, a Bucovina foi cedida pelo Czar russo ao poderoso Império Austríaco, numa acção formalmente aceite como resultado da histórica Primeira Partilha da Polónia. Sob a autoridade de Viena, e posteriormente, após 1867 com a monarquia dual da Áustria-Hungria, a autonomia e o poder da região viria a ter altos e baixos.

O fim da Primeira Grande Guerra trouxe consigo a extinção do Império Austro-Húngaro e, através da vontade popular, no dia 1 de Dezembro de 1918 assistimos à reunificação da Bucovina, da Moldávia (região da qual a Bucovina historicamente fazia parte), da Valáquia e Transilvânia. O então Reino da Roménia  assumia a sua maior extensão territorial. Ainda hoje, como tive oportunidade de escrever há quase um ano, o Primeiro de Dezembro é o Dia Nacional da Roménia.

O período entre guerras fica marcado pela constante romanização da Bucovina. Afinal de contas, as marcas austro-húngaras foram profundas – algo que ainda hoje os habitantes locais gostam de relembrar para justificar as diferenças culturais e os hábitos sociais da região face à restante Roménia.

Nova guerra, novo destino

A Segunda Grande Guerra vai colocar a região de novo no centro das atenções de russos e nazis. O Pacto Molotov–Ribbentrop era claro: as autoridades de Bucareste iriam perder a soberania sobre a Bucovina (os territórios do Norte da região foram anexados pela União Soviética, por ultimato de Moscovo, sob pretexto de salvaguardar a maioria da população de origem ucraniana) e a Bessarábia viria a tornar-se na futura República Socialista Soviética da Moldávia. Em 1945, com o final da guerra, a Roménia viria a reconquistar a Transilvânia, mas o status quo das antigas províncias manter-se-ia até à derrocada do Império Soviético. Em 1991, Chişinău declara a independência e forma a frágil República da Moldova; enquanto isso, as fronteiras da Bucovina não foram tocadas, mantendo-se até hoje a divisão entre a Roménia e a Ucrânia.

Uma escapadela à Bucovina é uma óptima alternativa às altas temperaturas de Verão que agora começam a queimar o Sul da Roménia. Hai în Bucovina! 

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