Brisa do Alto da Serra

É Verão! As ruas de Bucareste ficam desertas ao fim-de-semana. Praia ou montanha são os destinos idílicos para o comum dos mortais. Aliás, foram vários os posts em que referi que uma escapadela às montanhas era a melhor forma de passar estes dias tórridos na capital. Assim, rumámos aos Cárpatos. Desesperámos por subir e descer os 2292 metros dos Montes Bucegi, mas, no final, foi como na canção da Tonicha: deixámo-nos envolver pela “brisa do alto da serra”.

Há muito que havíamos falado em visitar a Esfinge de Babele, um monumento natural, no topo dos Cárpatos, resultado da acção do vento e da chuva que ao longo de milhares de anos moldaram grandes formações rochosas. Com a meteorologia a prever temperaturas muito altas nesse fim-de-semana, decidimos rumar a Norte. Saímos de Bucareste não muito cedo, pois o destino estava a uns meros 140 quilómetros da capital. Esquecemo-nos que, como nós, muitos milhares de bucarestianos tiveram a mesma ideia… E lá fomos a passo de caracol. Devagar, devagarinho, sem muito por onde fugir, mas com muitos condutores a usarem das suas técnicas manhosas para escapar ao trânsito parado que bloqueava a principal estrada do país. É em momentos como este que damos por nós a pôr em questão toda a teoria aprendida na escola de condução. Num misto de sátira, gozo, escárnio e maldizer, fomos criando novas regras de trânsito. No final de contas, aquelas linhas brancas no asfalto, que serviam até então para separar faixas de rodagem, são meras decorações de montanha. E aquilo a que eu estava habituado a chamar de berma é, no final de contas, uma mera via de escoamento de trânsito. Novas realidades que, em modo cómico, permitiram-nos tolerar o total desrespeito pelas mais básicas regras de trânsito.

E depois de muita comédia, lá chegamos ao nosso primeiro ponto de paragem: Peleș. É sempre bom aqui voltar. Este foi um dos primeiros lugares que conheci quando visitei a Roménia no Inverno de 2013, longe de saber que para aqui viria morar. Escrevi eu há uns anos:

“Perdido nos Cárpatos, a meio caminho entre Brașov e Bucareste, encontramos um castelo saído dos melhores desenhos animados da Disney. Local de nascimento de reis, príncipes e princesas, Peleș é um símbolo da velha monarquia romena e hoje, a par das estâncias de esqui que rodeiam a localidade que acolhe o castelo, um dos princípais focus de atracção turística do país”, in Berço de Reis

Sábado passou-se entre o verde da floresta, o lado principesco de Peleș e o frio nocturno das montanhas. Para o dia seguinte, Domingo, estava reservada a atracção principal do fim-de-semana: a subida até ao Alto de Babele.

Sol, filas e muita paciência

Subir até Babele, no alto dos Montes Bucegi, no Sul dos Cárpatos, era o objectivo principal da visita. Os Cárpatos apresentam-se aqui como uma gigantesca parede pintada em tons de cinza e verde. Há três formas para chegar ao cimo dos seus 2292 metros de altura e poder visitar a Esfinge de Babele e a Cruz dos Heróis Nacionais (uma enorme cruz de metal, erguida entre 1926 e 1928, em homenagem aos soldados que morreram durante a Primeira Grande Guerra, quando o Reino da Roménia foi invadido pelas forças das Potências Centrais): a rápida – de jipe; a panorâmica – de teleférico; e a do sacrifício – a pé. Enquanto o J optou pelo caminho do sacrifício, correndo quase dez quilómetros por trilhos no meio da floresta, eu e F elegemos o modo panorâmico. É que escolha esta…

É a partir da localidade de Bușteni, escondida num vale profundo por onde passa a Estrada Nacional 1, que toda a aventura começa. O teleférico é o meio eleito pela grande maioria dos visitantes. E isso traduz-se em longas filas de espera para apanhar uma das duas pequenas cabines que nos levam, literalmente, ao céu. São vários os guias locais que nos alertam para as longas horas de espera, oferecendo, em compensação, uma rápida subida de jipe até Babele. Não, não, não! É de teleférico que queríamos ir!

O J despediu-se de nós. Esperam-lhe muitos quilómetros de corrida na floresta até ao topo da montanha. Eu e F fomos para a fila. A princípio tudo bem. Até tivemos a ilusão óptica de que, afinal, a fila movia-se rápido. Mas, ao fim de uns bons 15 minutos, a fila manteve-se praticamente no mesmo lugar. De vez em quando chegava e partia uma das cabines. “Já falta pouco”, verbalizámos vezes sem conta durante a primeira hora. À segunda hora de espera, já pouco havia para comentar ou dizer. Apenas o Sol continuava a queimar braços, pernas e cabeças. Seria este o preço a pagar por uma subida aos céus?! Ao final de três horas de espera, numa fila que, finalmente, chegava a zona dos chapéus de sol, senti todos os meus instintos assassinos a fervelhar em mim. E, no meio de um misto de arrependimento e sofrimento, toca o telefone. Era o J! Tinha chegado ao topo da montanha, vendo já à distância o pequeno edifício onde o teleférico terminava a sua subida. Mas eu e F. continuavamos naquela linha interminável (alguém se lembra das filas para o Ocenário de Lisboa durante a Expo’98?!). Já o Sol nos dobrava as sombras quando, ao final de três horas e meia, chegou a nossa vez de entrar na casa do teleférico. Aleluia!

A partir daqui tudo passou num instante e a excitação de entrar na cabine parecia compensar qualquer dor de pernas, escaldão ou as horas de espera. Contudo, a verdadeira compensação estava nas vistas que os 12 minutos de subida nos proporcionaram.

Chegados ao topo, famintos e com o J à nossa espera há mais de uma hora, reencontramo-nos os três com histórias hollywoodescas para contar. Se as minhas e as de F incluiam Sol e queimaduras (solares), as do J, que não encontrou lobos nem ursos, incluiam paisagens de extrema beleza natural, com cascatas de água, árvores gigantescas e onde apenas o vento de fazia ouvir. Já com Babele à vista, a floresta deu lugar a um extenso planalto, onde as ovelhas passaram a ser a sua companhia!

É aqui que nos apercebemos da real dimensão das montanhas. Há uma sensação de espaço incrível… mas não por muito tempo, pois charters de turistas vão enchendo os trilhos até à famosa Esfinge. Seguimos o caminho com eles. O percurso é fácil de se fazer e em breves minutos deparamo-nos com um grande afloramento rochoso que, a partir de 1936, passou a ficar conhecido como a Esfinge de Babele, numa clara comparação com a Grande Esfinge de Gizé, no Egipto. Lá do alto, a 2216 metros, a esfinge romena foi nossa companheira de almoço.

 

Já com a barriga reconfortada, a paisagem apreciada e muitas fotografias tiradas, seguimos viagem até à Cruz dos Heróis Nacionais. As várias placas indicavam “apenas” pouco mais do que três quilómetros ou uma hora e meia de caminho. O vento foi uma constante. As vistas são despidas de árvores; observamos antes um enorme planalto, meio ondulado e algo rochoso. Ao longe vemos outros que, como nós, também se aventuraram a caminhar sob um Sol muito forte. O trilho está bem sinalizado, com alguns pontos de maior dificuldade para se avançar. Apesar do calor, as noites no cimo da montanha são sempre muito frias. Prova disso, o fresco manto de gelo que se podia trepar quando atravessámos um pequeno fio de água a meio caminho da Cruz. A parte final é a que mais custa. Vento, calor e uma subida íngreme saudaram-nos antes de chegarmos à recta final. E quando os pés e as pernas já pediam uma paragem, eis que a Natureza nos brinda com um final feliz: a Cruz estava alí mesmo e as vistas para Buşteni e para o seu vale compensaram todo o esforço!

Hora de regresso. Havia que voltar ao trilho e regressar ao edifício do teleférico. A última saída estava agendada para as 18h. Fácil foi perceber que, se para cima tivemos de esperar três horas e meia, para baixo, mais coisa, menos coisa, a espera seria idêntica. Chegados ao edifício, rapidamente procurámos o final da fila. Esta já ia lá para trás, junto a umas rochas, sem segurança alguma, onde novos e velhos se encostavam e procuravam equilibrar entre pedras soltas. Que final de passeio mais desencantador. O Sol a pôr-se, o frio a chegar, a fome a dar sinal de vida… e a fila, longa fila de mais de duas horas para descer. Não o fizemos antes das 20h30, já sem Sol, com a brisa do alto da serra a refrescar (muito) o ar, estafados de tanto esperar e a pensar que ainda nos faltavam outras duas horas de carro até chegarmos a Bucareste.

Final da história. Para a memória as filas intermináveis, um valente escaldão nos braços e cara, mas mais um hotspot turístico carimbado no passaporte!

 

O teleférico encontra-se em operação todo o ano (excepto às terças-feiras e em casos de condições metereológicas adversas), com horários diferentes para o período de Verão e de Inverno. À data da visita (Julho de 2017), o preço para uma bilhete de ida e volta é de 70 Lei para adultos e 36 Lei para crianças entre os cinco e os 12 anos.

Mais informações em http://muntii-bucegi.ro/en/cable-transport-busteni/

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