Um gigante adormecido

Na margem esquerda do rio Dâmbovița, a dois passos do bairro chique de Cotroceni, encontramos um gigante adormecido. Irmão menor do Palácio do Parlamento, é, ainda assim, uma construção de volumetria ímpar. Por acabar, parado no tempo, o edifício e a sua área adjacente são uma enorme ferida por curar no centro da capital. Desde 89 que o seu futuro se encontra em suspenso. Hoje, os planos são muitos, mas parecem embrulhados em falsas promessas de futuro. Vamos conhecer a Casa Rádio.

É impossível passar por aqui e não reparar no gigante de betão que se encontra por acabar junto ao rio Dâmbovița. Mesmo para quem não é apreciador de arquitectura, são óbvias as linhas de Ceauşescu. É uma estrutura imponente, gigante, com uma fachada coberta de intrincadas referências clássicas e pesadas colunas alinhadas ao estilo do antigo Partenon. À distância até parece concluído. Mas quando nos aproximamos vemos, claramente, uma ferida na cidade.

Bucareste está povoada por edifícios idênticos a este. Uns terminados, como o Ministério da Defesa ou o Hotel Marriott, outros a meio gás, como o da Academia Romena. A sua linguagem arquitectónica é clara. Da mesma forma que Moscovo tem as famosas Sete Irmãs (sete arranha-céus de aparência idêntica, construídos sob o estilo de arquitetura Estalinista), também Bucareste tem estas pérolas espalhadas um pouco por toda a cidade.

Nicolae Ceauşescu tinha planos megalómanos para a capital da Roménia. Uma nova cidade, uma nova cultura, uma nova sociedade. Mais fácil que mudar mentalidades, mudar a organização das cidades, as suas avenidas e as suas habitações, foi o ponto de partida para a reconstrução da nova Dácia. Um pouco por todo o país, mas em especial em Bucareste, um batalhão de arquitectos e engenheiros desenharam um mundo novo.

“Mas houve um local onde esta obsessão por destruir para criar uma cidade perfeita teve lugar e que ficará para sempre na história como o expoente máximo da megalomania de Ceaușescu: Bucareste e o seu novo Centrul Civic (Centro Cívico).

O líder romeno tinha em marcha um plano niilista para a grande capital do país. Era niilista pois acreditava que a destruição de tudo o que estivesse ligado ao passado era bom. O renascimento, a projecção de uma linha arquitectónica limpa de tradicionalismos, mais moderna, racional e, claro está, comunista. À luz da História, os bombardeamentos da Segunda Grande Guerra ou o terramoto de Março de 77 geraram impactos mínimos quando comparados com o projecto que o ditador tinha para a cidade. Aliás, o sismo de 77 foi um dos artefactos utilizados pela propaganda oficial para impôr a Sistematização na capital. Nos inícios dos anos 80, a menos de uma década do fim da ditadura, Ceaușescu convoca centenas de arquitectos e engenheiros para desenharem um novo centro da cidade e a reconstrução de vários bairros e vias de circulação por toda a Bucareste” in “‘Ceaușima’ ou como reconstruir uma cidade“.

A construção da Casa Radio teve início na segunda metadade da década de 80, a meros 3 anos da queda do regime. A ideia original de 1986 propunha que este edifício acolhesse o Museu do Partido Comunista. Em 1989, ainda com a sua construção em andamento, foi da varanda da fachada principal da Casa Radio, varanda esta entretanto demolidada, que Ceauşescu e toda a sua entourage assistiram à parada de celebração do Dia Nacional da Roménia*. Esta foi a última vez que a festivade foi celebrada em regime ditatorial e, igualmente, a primeira e última vez que o edifício teve alguma utilidade.

 

Já na década de 90, foram várias as inicitiavas que os sucessivos governos promoveram para dar uma nova vida a este gigante: de Museu Nacional de História, a um centro de congressos, passando por um enorme centro comercial, ou, até, a um parque de estacionamento; houve, também, quem propusesse a sua demoliação.

O plano mais recente, uma parceria público-privada liderada por investidores turco-israelitas, rebaptizou a velha Casa Radio de “Dâmbovița Center”. Feliz ou infelizmente, as obras pararam em 2008 e, desde então, a muita apregoada nova centralidade de Bucareste não passa de um desenho bonito para inglês ver.

Dâmbovița centre

Actualmente, o espaço da Casa Radio é uma enorme ferida aberta bem próxima do centro da cidade. O acesso ao espaço é proibido. De qualquer forma, a necessidade e o apetite por novas infraestruturas na capital fazem o seu valor imobiliário ascender a cifras que igualam o seu tamanho exterior: gigante!

 

* Durante o regime comunista, a Roménia celebrou o seu dia nacional a 23 de Agosto, a data (ano de 1944) em que o Governo de Bucareste passou a apoior as forças Aliadas no âmbito da Segunda Grande Guerra, após o derrube do governo autoritarista de Ion Antonescu, apoiante das Forças do Eixo lideradas pela Alemanha Nazi.

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