Um país entre Reis

Ferdinand e Carol são dois nomes maiores na História da Roménia. Monarcas, Reis de um reino que se estendia para lá dos Cárpatos, governaram o país e deixaram a sua marca. Hoje, a República não esquece os seus nomes. Em Bucareste são nome, entre outros, de duas boulevards. Percorrer estas duas vias é uma autêntica viagem pela história da Roménia: o histórico, o clássico e o moderno; o melhor e o pior de uma sociedade que, pela sua posição geográfica, é um misto do mundo latino e eslavo, sem nunca esquecer as vizinhas Turquia e Grécia. Vamos caminhar?

Sábado, dia frio e invernoso. O céu está carregado de nuvens cinzentas escuras que parecem prontas a transbordar. Sem nada planeado, e com saudades de usar a máquina fotográfica, decido sair de casa e percorrer a pé duas grandes vias do centro de Bucareste. Não que encontre por lá grandiosos edifícios ou algum spot da moda. Não! As boulevards Carol I e Ferdinand despertaram o meu interesse há muito tempo. Passei por lá várias vezes de táxi e tive sempre o mesmo pensamento: “tenho que cá voltar!”.

Carol I e Ferdinand I foram monarcas reinantes na velha Roménia. Aliás, Carol foi mesmo o primeiro rei do país. De origens alemãs, Carol chegou a Bucareste em 1866 com o título de Príncipe Regente. Seriam precisos mais 15 anos, uma declaração de independência e uma guerra entre russos e turcos até ser, definitivamente, proclamado como Rei.

Sua Majestade Ferdinand I, Rei do Reino da Roménia entre 10 de Outubro de 1914 e 20 de Julho de 1927, era filho da Infanta Antónia de Bragança. D.ª Antónia de Bragança foi a terceira filha da Rainha D. Maria II de Portugal. Um rei com sague luso?!

E as boulevards? Bem, a Carol I tem início da Piața Universitate, bem no centro da capital, e segue em linha recta até à Piața Pache Protopopescu, junto à Embaixada da República Helénica; desta mesma praça nasce a Boulevard Ferdinand I, que se prolonga, por pouco mais de dois quilómetros, até à estação de caminhos-de-ferro de Obor – Este.

Percorrer estas duas vias é uma autêntica viagem pela história da Roménia: o histórico, o clássico e o moderno; o melhor e o pior de uma sociedade que, pela sua posição geográfica, é um misto do mundo latino, eslavo e otomano.

É na Piața Universitate que encontramos a Universidade de Bucareste e o Teatro Nacional. O edifício da Universidade, no seu estilo clássico do século XIX, esbarra com o modernismo do Teatro Nacional, uma construção datada dos anos 70 do século XX. É, a grosso modo, um edifício estranho, mas imponente. Ao seu lado temos um outro palácio histórico (1896), o Ministério da Agricultura, num misto de Renascimento Francês e Classicismo. Andamos uns passos largos e o cenário muda: começamos a ver carros estacionados em pleno passeio, obstruindo a passagem dos peões. Normal por estas bandas, diria eu. Mais à frente, a decadência de alguns edifícios, das gloriosas décadas de 30 e 40, contrapõem-se às linhas modernas dos novos edifícios de habitação e escritórios. É uma mistura que choca; choca, não pela mistura de estilo, antes pela forma como alguns edfifícios são deixados ao abandono. As linhas de árvores alinhadas paralelemente à via funcionam como uma gigantesca esponja que absorve toda a poluição do mar de carros que atravessa esta estrada. Mesmo ao fim-de-semana, o trânsito de táxis é impressionante.

Os graffiti trazem uma vida colorida ao cinzentismo dos prédios mais velhos. Arte?! Para muitos sim, mas, para mim, puro vandalismo. Há muitos romenos que afirmam não existir uma verdadeira linha de arquitectura nacional. Discordo plenamente. Passear pelo Este da Europa deixa-nos perceber, claramente, que a Roménia tem uma traça própria. Uma mescla de estilos, importados de França, Itália e Turquia, misturados habilmente com um toque local. É impossível não ler estas linhas. Nos beirais das janelas, nos pórticos e, até, em pormenores nos telhados. Pode já não ser o estilo Brancovenesco puro, mas é, sem dúvida, uma marca distinta romena.

A Igreja Arménia (1911) é a grande surpresa desta rua, mas, mais à frente, encontramos também a Igreja Grega (1899). Dois monumentos, construídos com uma diferença de 12 anos apenas, que nos guiam aos Céus por estilos arquitectónicos completamente diferentes. Mais à frente, os nossos olhos são guiados pelas dezenas de reclames publicitários que cobrem as fachadas de alguns edifícios. Imaginam o que é acordar de manhã e, em vez de receber a luz do Sol, apenas vermos a cara, em formato XXL, de uma modelo com óculos de sol pretos? Infelizmente acontece e, normalmente, estas lonas coloridas cobrem pérolas arquitectónicas que ninguém quer ver. Tudo a troco de um punhado de Leis…

Já na Boulevard Ferdinand I vêmos refectido numa pequena poça de água a Torre do Fogo (Foișorul de Foc), imponente edifício cilindrico de 42 metros de altura, construído em 1892 com um duplo objectivo: ser torre de observação de incêndios e, em simultâneo, reservatório de água. Funcionou como quartel dos bombeiros até meados da década de 60 do século XX.

Ao contrário da Carol, esta boulevard não tem tanto charme. As casas que ladeam a via são mais simples, há menos trânsito e menos peões. Mas quando pensamos que o bulício da capital tinha ficado para trás, eis que vemos ao longe, pairando no cimo das copas das árvores, blocos monolíticos de dez andares. São os típicos cinzentões, edifícios residenciais, que a política de Sistematização impôs em Bucareste.

DSC04832

É aqui, no cruzamento da Ferdinand I com a Șoseaua Mihai Bravu, a grande circular interna da cidade, que termina o nosso passeio. Uma viagem pela arquitectura de Bucareste e da Roménia; um passo entre o passado – da monarquia e do regime comunista – o presente – do trânsito caótico e desorganizado, dos edifícios em ruína, das pequenas covrigărie -, mas também do futuro – dos novos edifícios espelhados, da Bolsa de Valores, dos novos restaurantes e hotéis que vão abrindo aqui e alí. A ligar tudo isto há pessoas. Passam a correr; ricos, pobres e remediados; a pé, de carro ou de eléctrico; são elas a maior riqueza que o país tem; são elas que podem tornar o país mais desenvolvido, menos corrupto e mais próspero; são elas que fazem o país avançar. Muitas vezes não se dão conta, mas são elas, aos olhos de um estrangeiro, a melhor descrição da Roménia do século XXI: uma mistura de genes latinos, eslavos e otomanos, um melting pot de povos que misturados criam a Roménia, uma sociedade que luta por um futuro mais Europeu, mais transparente e justo, ao mesmo tempo que faz o luto de um regime ditatorial que ainda hoje é responsável por marcas nesta jovem democracia.

 

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s