House of Cards

Não, não vou falar de nenhuma super produção norte-americana. Hoje a “guerra” é bem real e põe o mundo político romeno num reboliço total. O guião leva-nos por uma história de traição e ameaça. Um líder corrupto e a sua vontade desmedida de se manter no poder. Esta é a realidade de um país que em menos de doze meses perdeu o seu Primeiro-Ministro duas vezes, não por causa da oposição, antes por manobras pouco claras do seu próprio partido. As pipocas estão prontas? O episódio está prestes a começar!

Ainda não chegamos ao fim do primeiro mês do ano de 2018 e nos corredores do poder romeno já se escreveu o guião para uma mega produção da Netflix. Bem, neste caso, a ficção fica a anos luz da realidade de um país que em menos de um ano ganhou dois novos Primeiro-Ministros. Mas se na produção norte-americana (a House of Cards da ficção) tudo ocorre nos bastidores da Casa Branca e do Capitólio, em Bucareste a acção é real e não se escusa no politicamente correcto. É directo, é frio, é ameaçador. É falado nas televisões e comentados por milhares de anónimos nas redes sociais.

Nos capítulos anteriores: após a tragédia do Colective, e muita insistência da sociedade civil, o Governo de Victor Ponta (social-democrata – PSD) abandona o Palácio da Victória. O Presidente Klaus Iohannis (conservador-liberal – PNL), em vez de eleições, nomeia um governo tecnocrata de transição, liderado pelo ex-comissário romeno em Bruxelas, Dacian Cioloș. Independente, a sua governação estende-se entre Novembro de 2015 e Janeiro de 2017. Nas eleições legislativas do final de 2016, o PSD volta a ser o vencedor. O Presidente foi claro ao não nomear Liviu Dragnea, líder do PSD, visto este ter sido acusado de corrupção durante a sua “interessante” ascensão no campo político. Revoltado, Dragnea, que acabaria como Presidente da Câmara Baixa do Parlamento, sugere Sorin Mihai Grindeanu. Grindeanu ficaria conhecido por ter liderado o executivo que aprovou o decreto-lei que institucionalizava a corrupção na Roménia. A resposta da sociedade civil foi clara: os maiores protestos na rua desde a queda do regime de Nicolae Ceaușescu (1989). O decreto-lei acabaria por ser revogado. Perante a falta de suporte público e pelos persistentes desentendimentos entre Grindeanu e Dragnea, o seu próprio partido retira o apoio parlamentar ao Governo, forçando-o a uma vergonhosa demissão. Com o mandato de quatro anos apenas no fim do seu primeiro semestre, Iohannis convida novamente o PSD a formar governo. Sucede Mihai Tudose. Visto como uma marioneta de Dragnea, Tudose tem a complicada tarefa de gerir um Governo com 27 ministros. Em pouco tempo, o ingrediente para manter o tele-espectador agarrado à televisão é utilizado novamente. Tudose, em apenas seis meses incendeia o país com propostas que incluiam uma “Revolução Fiscal” e o controlo do Sistema Judicial pelo Governo. Tudo “coisas benéficas para o bem do povo romeno”, defendiam os sociais-democratas. Mas, como em todas as boas telenovelas mexicanas, quem é comandado revolta-se contra quem comanda. Foi isso mesmo que, publicamente, Tudose e Dragnea fizeram.

E agora?

Voltemos ao episódio de hoje. Tudose é declarado personna non grata dentro do seu próprio partido, o PSD. “O drama, o horror”, como diria Artur Albarran. A crise começa quando Tudose afirma querer reduzir o número de ministro do seu Governo. Dragnea inicia manobras de emergência. Nas televisões vemos o corrupio de beija-mãos dos barões sociais-democratas a Dragnea. Em frente das câmaras, há quem defenda Tudose, outros antecipam uma nova reviravolta no partido e a mudança do Primeiro-Ministro. O todo poderoso Liviu Dragnea, acusado de corrupção, com muitas investigações em curso, desvio de fundos comunitários, enriquecimento ilícito e abuso de poder, escreve, ele próprio, o guião da história. Ele é o vilão, o actor que está em todas as cenas mas ninguém o vê, aquele que controla os bastidores da política romena e que, uma vez mais, ordena a retirada do apoio parlamentar ao seu próprio Governo. Tudose cai. Voltamos ao pântano. Por muito menos António Guterres abandonou o barco em Portugal. Aqui os marinheiros de Bucareste (os deputados) continuam a remar cegamente conforme os ditâmes do mestre do barco (Dragnea). Não há questões, não há perguntas. Tudo se segue de forma cega.

Iohannis é, de novo, obrigado a falar. Os seus poderes são reduzidos. Nem se quer pode dissolver o Parlamento e convocar uma nova chamada às urnas. A oposição pede eleições. O PSD de Dragnea exige que Iohannis nomeie uma nova marionete. E sob a hipotética recusa de Iohannis em nomear um novo nome social-democrata, o PSD, juntamente com o ALDE (o outro partido que apoia o Governo), acena com a bandeira da suspensão das actividades do Presidente da Roménia:

“If Mr. Iohannis doesn’t want to nominate the prime minister proposed by PSD, then we will move to the emergency solution. We may even get to suspending the president,” afirma Lia Olguta Vasilescu, Ministra do Trabalho.

Estranho este país onde o órgão mais alto da democracia, a Presidência da República, pode ser silenciada pelo Parlamento…

Iohannis reage de forma directa:

“I want a fast procedure for the appointment of a new government because this political uncertainty must not degenerate into political instability and, more importantly, I want to prevent possible negative economic consequences of this crisis that appeared once again within the PSD.”

Quem ganhou?

Ainda não se sabe qual o impacto desta instabilidade política no país. O que sabemos é que desde o dia 17 de Janeiro, a Roménia passou a pertencer ao exclusivo grupo de Estados que têm como Chefe-de-Governo uma mulher. Viorica Dăncilă, até agora membro do Parlammento Europeu, é nova Primeira-Ministra romena. A primeira mulher a ocupar este cargo no país. Ela tem agora a  difícil tarefa de reunir o consenso entre romenos, nomear um novo gabinete de ministros, pacificar a relação entre Estado e a sociedade civil e, no final de contas, resistir mais de seis meses no cargo. Enquanto a House of Cards romena se mantiver em exibição, na rua milhares de cidadãos continuam a manifestar-se por um país melhor, mais democrático, justo e livre!

Continua…

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