Há linhas que nos (des)ligam

No ano em que a Roménia celebra o seu primeiro centenário, pergunto-me se a inexistência de uma rede de auto-estradas poderá ser motivo para a falta de integração regional. A resposta não é clara. Mas olhar para o mapa da Eunião Europeia, e constatar a falta de infra-estruturas rodoviárias no país, leva-nos a pensar sobre o que é feito de tantos milhões de fundos comunitários. 

Dois mil e dezoito marca a celebração do primeiro centenário da Roménia. Uma data em que várias antigas províncias se uniram e formaram o que é hoje o país. Contudo, continuam a existir linhas que separam a antiga Dácia. Provavelmente, a que mais se destaca é a falta de uma rede de auto-estradas. Com uma população e uma área territorial consideráveis, tendo em conta a realidade europeia (10º em termos de população e 12º em termos de área), as autoridades de Bucareste ainda não conseguiram construir uma verdadeira rede que ligue pessoas e que facilmente possibilite o fluir de bens por todo o país.

Sorin Melenciuc, do Business Review, constata o óbvio, o país está a construir duas redes de auto-estradas:

Romania (…) is building two separate motorway networks, and the fracture line lies exactly on the ancient border between the Romanian Kingdom and the former Austro-Hungarian Empire, which included Transylvania and the western province of Banat until 1918.

In fact, the border between motorways, like the ancient border between separate states, is a natural one: the Carpathians, a long mountain range separating Transylvania from all other Romanian provinces.

Os Cárpatos continuam a ser a grande barreira que desliga o Norte do Sul, a Transilvânia da antigas províncias da Valáquia e da Moldávia. E, na realidade, é mais fácil a um cidadão do Banat ligar-se ao centro da Europa do que os que habitam em Bucareste, a região mais rica do país. Apesar de existirem planos há várias décadas, um verdadeiro túnel a atravessar os Cárpatos não deverá sair do papel nos próximos dez anos.

mapa_autoestradas2Estas duas redes que Melenciuc descreve são o perfeito exemplo desta dicotomia que cem anos de integração enquanto Estado unificado ainda não esbateram. É interessante olhar para o mapa e verificar que após onze anos de integração europeia, pouco ou nada foi feito em matéria de infra-estruturas rodoviárias.

A província menos desenvolvida da Roménia, a Moldávia, a Leste, uma das regiões mais pobres de toda a União Europeia (não confundir com a vizinha República da Moldova), não possui um único quilómetro de auto-estrada construído, nem o terá na próxima década. Bucareste, a Sul, é o ponto de partida de 3 auto-estradas que a ligam a lugar nenhum (com excepção da A2 que conecta a capital com a costa do Mar Negro). É na Transilvânia que a rede menos se percebe, com pedaços de estrada construídos aqui e acolá, na esperança de um dia se verem todos ligados. No extremo ocidental, a cidade de Timișoara é a única realmente ligada por auto-estrada ao resto da Europa, através do posto fronteiriço de Nadlac com a vizinha rede húngara.

Parece ser bastante fácil entender o porquê de algumas regiões não possuirem grandes indústrias, logo não serem pólos de atracção populacionais. É um círculo vicioso. A falta de condições para o seu desenvolvimento (muito devido à baixa capacidade do Governo em melhorar serviços públicos, como hospitais e escolas, ou à fraca rede de transportes (rodo e ferroviários)) leva à saída em massa das populações para locais onde a probabilidade de uma vida melhor é ainda possível.

Consultando dados oficiais da Pordata, verificamos que entre 2007, o ano do ingresso no clube europeu, e 2015 (o ano dos últimos dados disponíveis), o Governo central construiu apenas 466 quilómetros de novas auto-estradas. Um número pífio tendo em conta que existe um plano nacional para criar uma verdadeira rede de estradas e milhares de milhões de fundos comunitários a serem distribuídos pelo país. Mas aqui esbarramos com um problema maior. É evidente a falta de capacidade para empreender todos os esforços para avançar com a construção das auto-estradas. Burocracias, malabarismos políticos, corrupção. No final de contas, Bruxelas aprova os fundos mas, pouco tempo depois, Bucareste é obrigada a devolver o dinheiro por falta de desenvolvimento dos projectos.

Voltemos aos mapas: a vizinha Húngria detém já uma rede considerável; a Bulgária, o país mais pobre da União Europeia e geograficamente mais pequeno que a Roménia, detém uma rede ligeiramente maior e mais avançada que a romena. Fazendo uma breve comparação ao número de quilómetros de auto-estardas construídos desde 2004, vemos claramente o proveito que Budapeste tem feito dos fundos comunitários. Os dados relativos a Portugal servem apenas para ilustrar a descrepância na rede de auto-estradas destes quatro países, assim como a forma como Lisboa apostou, ao longo de 30 anos, na consolidação territorial através da ligação do país por auto-estrada (não está aqui em consideração se a aposta foi a mais acertada ou não, assim como devem ser tidos em conta os mais de trinta anos de integração portuguesa na União Europeia versus apenas onze da Roménia e da Bulgária).

estatistica

Esta falta de investimento em infra-estruturas rodoviárias, ao que se junta a decadente infra-estrutura ferroviária, um crescimento económico fraco (estatisticamente é elevado, mas apenas se baseia no consumo interno, logo, não trazendo real progresso às populações) e a sucessiva instabilidade política, poderá tornar a Roménia irrelevante no contexto europeu. Pior que isso, o atraso no devenvolvimento deixa marcas cada vez mais profundas, alargando, ainda mais, o fosso entre as regiões ricas e as pobres no país. Em resultado, existe um maior exôdo para as grandes cidades, como Bucareste, Cluj ou Timișoara, fluxo este que entope, por exemplo, a capital. Bucareste não está minimamente preparada para o número de pessoas e veículos que actualmente acolhe. O trânsito é caótico, não existem vias rápidas dentro da cidade, não existe uma rede de comboios urbanos e o metro, projectado na década de 70, está subdimensionado para a cidade.

Não seria má ideia aos políticos locais passarem os olhos pelas boas práticas de utilização dos fundos comunitários, assim como seria interessante agilizarem as leis que promovam o desenvolvimento económico. Isto porque subir artificalmente salários e não promover o crescimento sustentado do país, trará, estou certo, grandes dores de cabeça às gerações futuras!

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