Guerra Fria

Não são apenas as relações entre Moscovo e Washington, entre a década de 50 e 90 do século passado, que podemos classificar como Guerra Fria. Também aqui, entre Cotroceni e Victoriei, reina uma autêntica guerra gelada entre Governo e Presidência da República. Mas ao contrário do sistema jurídico português, onde o Presidente detém o poder de dissolver o Parlamento, aqui o confronto é prolongado no tempo e, perante a audiência nacional, é um jogo quase diário de palavras. Quem será o primeiro a desistir?

A vida da Roménia foi marcada, nos últimos dois anos, por instabilidade política e alguma convulsão social. Escrevi várias vezes sobre o vai e vem de Primeiros-Ministros, de manifestações de força na rua e de corrupção. O Presidente da República, Klaus Iohannis, tem sido prudente na sua acção. Publiquei recentemente:

Após a tragédia do Colective, e muita insistência da sociedade civil, o Governo de Victor Ponta (social-democrata – PSD) abandona o Palácio da Victória. O Presidente Klaus Iohannis (conservador-liberal – PNL), em vez de eleições, nomeia um governo tecnocrata de transição, liderado pelo ex-comissário romeno em Bruxelas, Dacian Cioloș. Independente, a sua governação estende-se entre Novembro de 2015 e Janeiro de 2017. Nas eleições legislativas do final de 2016, o PSD volta a ser o vencedor. O Presidente foi claro ao não nomear Liviu Dragnea, líder do PSD, visto este ter sido acusado de corrupção durante a sua “interessante” ascensão no campo político. Revoltado, Dragnea, que acabaria como Presidente da Câmara Baixa do Parlamento, sugere Sorin Mihai Grindeanu. Grindeanu ficaria conhecido por ter liderado o executivo que aprovou o decreto-lei que institucionalizava a corrupção na Roménia. A resposta da sociedade civil foi clara: os maiores protestos na rua desde a queda do regime de Nicolae Ceaușescu (1989). O decreto-lei acabaria por ser revogado. Perante a falta de suporte público e pelos persistentes desentendimentos entre Grindeanu e Dragnea, o seu próprio partido retira o apoio parlamentar ao Governo, forçando-o a uma vergonhosa demissão. Com o mandato de quatro anos apenas no fim do seu primeiro semestre, Iohannis convida novamente o PSD a formar governo. Sucede Mihai Tudose. Visto como uma marioneta de Dragnea, Tudose tem a complicada tarefa de gerir um Governo com 27 ministros. Em pouco tempo, o ingrediente para manter o tele-espectador agarrado à televisão é utilizado novamente. Tudose, em apenas seis meses incendeia o país com propostas que incluiam uma “Revolução Fiscal” e o controlo do Sistema Judicial pelo Governo. Tudo “coisas benéficas para o bem do povo romeno”, defendiam os sociais-democratas. Mas, como em todas as boas telenovelas mexicanas, quem é comandado revolta-se contra quem comanda. Foi isso mesmo que, publicamente, Tudose fez.

Tudose é declarado, entretanto, personna non grata dentro do seu próprio partido. A crise começou quando Tudose afirmou querer reduzir o número de ministro do seu Governo. Dragnea inicia manobras de emergência. Nas televisões vemos o corrupio de beija-mãos dos barões sociais-democratas a Dragnea. Em frente das câmaras, há quem defenda Tudose, outros antecipam uma nova reviravolta no partido e a mudança do Primeiro-Ministro. O todo poderoso Liviu Dragnea, acusado de corrupção, com muitas investigações em curso, desvio de fundos comunitários, enriquecimento ilícito e abuso de poder, escreve, ele próprio, o guião da história. Ele é o vilão, o actor que está em todas as cenas mas ninguém o vê, aquele que controla os bastidores da política romena e que, uma vez mais, ordena a retirada do apoio parlamentar ao seu próprio Governo. Tudose cai. Voltamos ao pântano.

Airosamente, do pântano seguimos para um cenário bem mais prazenteiro: desde o dia 17 de Janeiro (novamente sem eleições legislativas), a Roménia passou a pertencer ao exclusivo grupo de Estados que têm como Chefe-de-Governo uma mulher. Viorica Dăncilă, até então membro do Parlamento Europeu, tornou-se Primeira-Ministra romena. A primeira mulher a ocupar este cargo no país. Mas esta nunca teve uma vida fácil. Não tendo sido eleita directamente pelo povo, foi sempre vista como uma marionete (mais uma) às mãos de Dragnea. E, este último, também nunca se inibiu de mostrar quem realmente manda no Parlamento e no seu partido.

Do Palácio de Victoriei para o de Cotroceni

Com um papel muito mais secundário que, por exemplo, o Presidente Português (pela simples diferença de o Presidente Romeno não deter, constitucionalmente, o poder de dissolver o Parlamento e, com isto, fazer cair o Governo), Klaus Iohannis é obrigado a uma guerra aberta de palavras, quase diária, com os eleitos nacionais. Será óbvio a sua magistratura de influência, essa nos bastidores, mas as constantes declarações públicas são a forma de comunicar com o Governo, com o Parlamento, e de demonstar aos cidadãos que o país continua a ter uma voz de contra-ponto às ideias de Dragnea e companhia.

Iohannis // Sputnik

E depois de tantas mensagens, chega a mais devastadora de todas: Iohannis pediu a demissão da Primeira-Ministra!

“I am withdrawing my confidence in Ms. Dăncilă. As I have said, on January 29 the government was invested. Three months have passed, and I can draw a conclusion. Ms. Dăncilă cannot handle the position of being Romania’s prime minister and is turning the government into a vulnerability for Romania. This is why I publicly request the resignation of Ms. Dăncilă from the prime minister position,” declarou o Presidente.

É um pedido apenas, visto não ter o poder para, na realidade, o fazer. Mas porquê? Simples: Iohannis acusa a líder do Governo de se preocupar mais em satisfazer os interesses do seu prórpio partido do que defender o interesse público. Ao acumular de dois anos de declarações e acções estranhamente democraticas por parte do PSD, três recentes situações bastaram para o transbordar do copo de água:

  1. Dragnea, tentou, recentemente, interferir na vida interna do Banco Nacional da Roménia (BNR), ao acusar este órgão independente de uma acção concertada de difamação do Governo romeno; afirmou, o Presidente da Câmara Baixa do Parlamento, que o BNR não quer colaborar com o Governo, por exemplo, na redução da taxa de inflação, acusando o banco de estar ao serviço das multinacionais estrangeiras. Foi um Presidente do Parlamento a afirmar, não um mero deputado da oposição!
  2. Uma visita “secreta” a Israel: Dragnea (uma vez mais) e Dăncilă efectuaram, recentemente, uma visita oficial a Israel. O Presidente da República não foi consultado. Uma autêntica quebra de lealdade entre órgãos de poder nacional.
  3. Uma nova embaixada em Jerusálem: a visita a Israel foi efectuada após o anúncio do Governo Romeno da alteração da embaixada do país de Tel Aviv para Jerusálem. Esta decisão vem no seguinto do voto de abstenção a uma recente resolução das Nações Unidas sobre o futuro do status da Cidade Santa.

Soaram todas as campainhas em Cotroceni. Iohannis foi claríssimo: abertura, encerramento ou alterações a representações diplomáticas são da exclusiva competência do Presidente da República. Facto estranho ao Governo de Dăncilă! Não estando envolvido nos detalhes da visita oficial ao Estado Hebraico, Iohannis teme o que Dragnea e Dăncilă possam ter prometido a Benjamin Netanyahu.  Na reacção pública, Iohannis foi ainda mais contundente ao afirmar que a Roménia vai manter-se ao lado dos seus parceiros comunitários e não vai tomar nenhuma decisão que desestabilize o processo de paz entre Israel e as autoridades palestinianas. Em poucas palavras: não há mudança de embaixada para lado nenhum!

Nesta guerra de palavras, Viorica Dăncilă já exerceu o seu direito de resposta:

“Categoric nu îmi dau demisia. Atâta timp cât am sprijinul coaliţiei de guvernare. Declaraţia preşedintelui nu îşi avea rostul acum şi cred că acest mod de lucru poate duce la o slăbire a încrederii pe plan extern. Aprecierile şi modul de exprimare al preşedintelui m-au jignit şi de aceea nu am mers azi la Cotroceni”, Viorica Dăncilă à România TV.

Declarou não se demitir! Disse, ainda, estar bastante ofendida pela forma como o Presidente se referiu ao seu trabalho e que, enquanto manter o apoio do seu partido político no Parlamento, não vê razões para deixar o cargo. Mais, classificou as declarações de Iohannis como irrelevantes e que apenas ajudam ao enfraquecimento da posição do país no panorâma internacional.

Liviu Dragnea, padrinho da Primeira-Ministra, também já enviou a sua mensagem ao Presidente: “não há razões para a demissão“. Na sua declaração, Dragnea rebaixou o papel de Iohannis ao afirmar que o Governo responde perante o Parlamento e não perante o Palácio de Cotroceni.

E é com este cenário que milhões de romenos regressam ao trabalho depois da curta pausa do Primeiro de Maio. Quem será o primeiro a dar o braço a torcer? Dragnea?! Dăncilă?! Iohannis?! Ou, como sempre, o Zé Povinho?! Cá estaremos para ver o resultado desta guerra fria de palavras.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

w

Connecting to %s