E viveram felizes para sempre

Nada melhor que a desculpa de um casamento para fugir aos dias tórridos do Verão de Bucareste. E assim foi, há um ano atrás, a minha primeira experiência casamenteira na Roménia. Muita tradição, muita emoção e animação num cocktail que tem tudo para terminar como nos filmes da Disney : “e viveram felizes para sempre!”

Agosto, o mês com o mercúrio bem alto na Roménia. Bucareste vive o lado quente da sua bipolaridade atmosférica: se no Inverno trememos com 22 graus negativos, no pico da época quente derretemos com quase 40! Uma bipolaridade que leva muitos locais a deixarem a cidade praticamente deserta no mês de Agosto. Se grande parte segue em direcção à costa do Mar Negro, muitos são aqueles que preferem o fresco das montanhas ou das terras mais a Norte. O clima é continental e, mal chegamos ao sopé dos Cárpatos, é fácil sentir uma brisa refrescante.

O casamento de Dana e Gabriel fora a desculpa ideal para deixar para trás a movimentada Bucareste e, de uma vez só, conhecer uma nova região e fazer parte de uma festa memorável: um casamento romeno!

Escondida nos confins da Roménia, a sete horas de viagem de Bucareste, fica uma antiga província cheia de motivos para uma visita. Tal como num jogo de cartas, as suas fronteiras foram baralhadas ao longo da história: foi moldava, austro-húngara, retalhadas pelos soviéticos, metade ucraniana, metade romena. Uma região onde o azul do céu esbarra com o verde dos vales e montanhas cobertas de florestas.

A Bucovina reserva em si uma história própria, local de cruzamento de povos e impérios e, mais importante ainda, exibe orgulhosa todas as suas tradições ancestrais. Como haveríamos de chegar à Bucovina são contas de outro rosário… hoje, escrevo sobre finais felizes.

Haja música, haja alegria

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De manhã cedo deixamos os nossos quartos e dirigimo-nos para a casa da noiva. As tradições por estas bandas são diferentes das portuguesas. Foi fácil encontrar a morada. A alegria da família estava plasmada na decoração exterior da casa. Na decoração e nos audíveis decibéis de música típica que ecoavam pela vizinhança. Entrámos e fomos recebidos pelos pais da noiva. Senhores de meia idade, muito simpáticos e acolhedores.
Acredito que naqueles corações o dia fosse de emoções intensas: a alegria de ver um dos cinco filhos casar (neste caso a filha mais velha), mas por outro o facto de que a pequena Dana ir agora iniciar a sua própria família. Da grande entrada da casa rapidamente somos convidados para a cozinha. Mesa farta! Os nossos estômagos agradeceram bastante! Já com a barrigas reconfortadas, e o pézinho a puxar para uma dança,  vemos a noiva. Ainda não estava totalmente pronta para o grande momento. Foi um olá breve. Outros afazeres mais importantes se aproximavam.

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Entre a cozinha e o pátio da casa, o espaço começou a ficar pequeno para tantos convidados. Os mais velhos iam chegando. Envergavam consigo o traje típico da Bucovina. Para as senhoras, saia preta e blusa branca, ricamente bordada à mão com motivos florais; para os senhores, traje branco, com túnica comprida branca também, com motivos bordados semelhantes ao do par feminino, cinto escuro e botas de cavaleiro. São os trajes nacionais romenos. É dia de festa e todos têm de estar bonitos. Já a manhã iam bem alta e da noiva apenas se sabia que estava lá dentro. O noivo, de Sibiu, chegou entretanto. As damas-de-honor, vestidas em tons de verde-água, saíram para o grande pátio para receber o noivo e os convidados deste. Fez-se algum silêncio. É assim a tradição: o noivo vai buscar a noiva à casa dos seus pais e é aqui que este oficialmente recebe a mão da futura esposa. Sai o noivo do carro rodeado pelas damas. Cumprimenta o futuro sogro e sogra. Volta a música. E o noivo espera… Espera… Espera… A noiva mantém-se no interior da casa. Lá dentro, apesar da música animada lá fora, tem lugar o “iertăciune”. É uma tradição muito antiga onde a noiva pede perdão aos seus pais antes de deixar a sua casa para sempre. Acaba por pedir perdão a toda a família… e o noivo, coitado, espera lá fora ao calor!

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Finalmente, depois de tanta espera, a noiva está livre para ver o seu futuro marido. Ela saiu de casa, cabeça erguida, segura do passo que ia tomar. Sorria para todos e, ao mesmo tempo, mantinha o olhar fixo no outro lado do pátio. Despede-se dos seus pais. À sua frente, segurando o ramo da noiva, Gabriel esperava-a. Ela mantinha o sorriso enquanto caminha em frente a todos. Ele tinha os olhos brilhantes como cristais. Já juntos seguem em direcção à igreja e nós vamos com eles.

A pequena localidade de Sucevița é conhecida pelo seu icónico mosteiro. Pequeno, murado e de paredes pintadas com cores garridas, este é o cenário para o casamento religioso. Os convidados rapidamente enchem a pequena capela. Lá dentro continua o rito ortodoxo. Passada uma hora e meia o silêncio do mosteiro é quebrado pelos vivas de alegria que saiam da capela: Dana e Gabriel estavam, finalmente, casados! Seguiram-se as tradicionais rodadas de fotografias…

E vamos agora para o copo de água?

A resposta é não! Já andávamos em modo casamenteiro desde as 10 horas da manhã, mas o fim da cerimónia religiosa não significou necessariamente “copo-de-água”. Eram já cerca das 16h30 quando regressámos aos nossos quartos. Iniciavam-se agora os preparativos para a operação nocturna. Homens e mulheres, família e amigos deixam de lado os trajes tradicionais ou, diria eu, mais conservadores, para se prepararem para a grande festa. A partir das 20h o rendezvous estava marcado para um hotel nas proximidades.

Se o dia ficaria marcado pela tradição, a noite seria uma mistura de culturas. Os noivos quiseram agradar aos mais velhos, assim como às gerações mais novas. E assim foi. Alberto, eu, espera sentar-se e apreciar as entradinhas, depois o prato de peixe, a seguir o de carne e, já no fim, abastecer-se de calorias extra o suficiente para se arrepender e ir a correr, no dia seguinte, para o ginásio mais próximo. Como estava enganado esse Alberto. Mal entrámos no restaurante começa a música a tocar. A tradicional, claro está! Nem deu tempo para provar as entradas. Ser um dos poucos estrangeiros num casamento é motivo suficiente para ser desafiado a dançar qualquer tipo de música tradicional. Mesmo sem ensaio, não há nada melhor que mostrar que os portugueses também sabem dançar horă e sârbă!

Dancei eu, dançaste tu, dançamos todos! Não era uma questão de dançar entre cada prato servido, era mais tentar petiscar entre cada música tocada! Mas como nem só de tradição vive um casamento romeno moderno, também houve espaço para discos mais recentes. Quem resiste a uma Lambada num casório!? Até o mais pesado dos pé-de-chumbo a sabe dançar!

Alegria era uma constante! A emoção também! Uma lágrima aqui, ao visualizar o video-surpresa de Dana para Gabriel; uma lágrima acolá quando três amigas de Dana cantaram ao vivo para os noivos. Tinham boa voz estas damas!

Batiam já as quatro horas da madrugada quando decidimos regressar aos nossos quartos. Fez-se silêncio no carro. Finalmente, ao fim de seis horas de dançarias, um momento de paz. Aqueles dez minutos até ao hotel pareceram demorar horas. Estávamos todos tão cansados… Mas felizes por termos participado numa festa tão bonita!

E como dizem na Disney… “e viveram felizes para sempre!”

O adeus à rainha que nunca reinou

“Her Majesty Queen Ana of Romania will remain forever in memory and in our hearts as one of the most important symbols of wisdom, dignity and, especially, as a model of moral conduct.” Foram estas as palavras de Klaus Iohannis para o Rei Miguel a propósito do falecimento da Rainha Ana da Roménia. Aos 92 anos, a rainha que de facto nunca foi rainha, regressa ad aeternum ao reino que nunca reinou.

Filha do Príncipe René of Bourbon-Parma e da Princesa Margarida da Dinamarca, Ana Antonieta Francisca Carlotta Zita Margarida nasceu em Paris, a 18 de Setembro de 1923. Neta da Infanta Maria Antónia de Bragança, Ana voltaria a ouvir falar de Portugal em 1939, quando o nosso país foi o último porto da fuga da família para os Estados Unidos da América. A Segunda Grande Guerra tocou todos os europeus, príncipes e princesas incluídos. Já em solo seguro, Ana estudou na Parsons School of Design, em Nova Iorque, antes de voltar ao Velho Continente. Regressaria a Londres nos finais da década de 40.

Será já no culminar do reinado de Miguel da Roménia que o então rei solteiro conhece a mulher da sua vida. As famílias de ambos há muito que planeavam o encontro entre os dois jovens, mas só em finais de 1947 é que se conhecem pessoalmente. A história oficial, à imagem dos contos de réis e rainhas, fala de um amor à primeira vista. De facto, 16 dias após o primeiro encontro, Miguel pede a mão de Ana em casamento.

Ao mesmo tempo, novos ventos políticos sopram sobre toda a Europa de Leste. Bucareste, que tanto lutou contra e a favor dos Nazis, foi tomada por forças pró-Moscovo. O casamento não foi considerado “oportuno” pelo governo romeno. O expansionismo soviético há muito que conjecturava o fim da monarquia e a instituição de uma república socialista na Velha Dacia. As forças comunistas viram aqui o pretexto para a abdicação de Miguel. Poucos dias depois, o Rei anunciava que deixava de ser rei; a Roménia deixa de ser um reino e passaria a orbitar directamente a União Soviética.

Estamos nos finais de 1947 e Miguel e Ana, com o desenrolar da situação na Roménia, ficam incontactáveis. Só nos inícios de 1948 se voltariam a reunir.

O casamento, envolto num imbróglio legal, teve lugar a 10 de Junho de 1948, em Atenas. Ana nasceu Católica e Miguel Ortodoxo. Pelas leis canónicas de Roma, o casamento apenas seria consentido se os descendentes do casal pudessem livremente ser criados segundo as normas do catolicismo romano. Miguel, apesar de já não ser rei nem reino ter, não concordava pois ia ao desencontro das regras ortodoxas romenas. O casamento segiu o rito Ortodoxo, não tendo sido por isso reconhecido por Roma até 9 de Novembro de 1966, quando o casal procedeu ao casamento Católico. Com esta cerimónia, no Mónaco, Roma passaria a abençoar o casal.

Ana e Miguel tiveram cinco filhas: Margarida, a Princesa consorte, Helena, Irina, Sofia e Maria. Margarida representa na actualidade a família real.

Após o casamento, a vida de Ana, uma rainha sem reino, esteve longe do glamour dos grandes monarcas. Ela é a sua família viveram na Suíça, numa casa alugada, tendo tido uma vida perfeitamente banal.

Ana morreu no passado dia 1 de Agosto, aos 91 anos, na cidade de Morges. O seu corpo foi trazido para o antigo Palácio Real de Bucareste onde milhares de romenos lhe prestaram uma última homenagem. Os governos da Roménia e da República da Moldova decretaram um dia de luto nacional. Este Sábado, 13 de Agosto, o corpo da rainha foi levado para Curtea de Argeș, no sopé dos Cárpatos, a última morada dos restantes membros da família real Romena. Devido à débil condição de saúde de Miguel, o Rei não esteve presente no funeral.

Klaus Iohannis, o Presidente da República, descreveu Ana, a Rainha, como um dos principais símbolos de sabedoria e dignidade na Roménia. Num país republicano, mas com uma profunda admiração pela sua família real, que Ana seja para todos os romenos um modelo a seguir!


Esta vida dava um filme!

Muito mais do que visitar novas cidades, monumentos, paisagens ou conhecer a cultura de um país, é o contacto com as pessoas que torna a vida realmente rica. E neste vai e vem de novos contactos há sempre a história de alguém que nos cativa. “Esta vida dava um filme!”, exclamei eu, depois de ouvir, na primeira pessoa, a história de Alejandra: uma venezuelana que vivia no Panamá, atravessou o Atlântico e acabou por ser feliz aqui, em Bucareste, não sem antes ter passado pelo cabo das tormentas. Um cocktail que mistura novas tecnologias, (muito) amor, perseverança e (muita) burocracia. O fim da história?! Há que ler até ao último parágrafo para a descobrir!

Lembro-me como se fosse hoje de todo o cenário. Uma das grandes salas de convívio do escritório. Às paredes brancas juntam-se uns painéis verdes aqui e acolá. As janelas rasgam as paredes de alto a baixo. São estreitas aberturas que nos dão uma visão urbana da metrópole romena. Há mesas e cadeiras espalhadas pela sala. É nela que todos nós nos reunimos para o almoço, para uma pausa a meio da tarde quando o lounge está cheio e, naquela noite em específico, para um jantar. Seria uma pausa rápida, pois os afazeres do final de trimestre não nos deixavam muito tempo livre. Mas de um jantar express, a ceia viria a transformar num momento de partilha que jamais irei esquecer.

Sentámo-nos à mesa. Estava praticamente toda a equipa. Depois do prato principal, um por um, vão-se levantando. Ficamos só três e uma sobremesa que, naquele dia, estava divinal. E foi naquela mesa branca, de linhas direitas e tão impessoal que Alejandra começou a debitar a sua história. É certo que havia uma questão que populava a cabeça de todos nós desde o momento em que a conhecemos: porque razão veio uma venezuelana trabalhar para a Roménia? Cada um tinha a sua versão, mas a história real deixou-nos agarrados do princípio ao fim.

(mais…)

Deșteaptă-te, române!

Uma música que representa um povo. Uma letra que apela à bravura dos romenos. Um hino antigo, que já pertenceu a dois países, que foi despromovido durante a ditadura e que hoje representa novamente a Roménia. Na semana em que se celebra o dia do hino nacional descobrimos a música que toca os romenos. ‘Deșteaptă-te, române!’, despertai, romenos!

Cartas de Bucareste

Uma música que representa um povo. Uma letra que apela à bravura dos romenos. Um hino antigo, que já pertenceu a dois países, que foi despromovido durante a ditadura e que hoje representa novamente a Roménia. Na semana em que se celebra o dia do hino nacional descobrimos a música que toca os romenos. ‘Deșteaptă-te, române!’, despertai, romenos!

Não começa com ‘Heróis do mar’, mas apela ao romenos para deixarem as trevas e combaterem as forças bárbaras que oprimiram o país durante tanto tempo. Uma canção, como em qualquer hino, que relembra a história do país, os feitos do seu povo e que chama, tal como ‘A Portuguesa’, os romenos à armas. ‘É melhor morrer numa batalha num dia de glória, do que ser escravo como antigamente’, pode ler-se na última estrofe da letra.

O hino, composto por Andrei Mureșanu, foi a banda sonora da revolta de 1848, revolta esta que conduziria posteriormente à…

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Aos brasões

Numa época de nacionalismos e revivalismos históricos na Europa, Klaus Iohannis, o Presidente romeno, acaba de promulgar uma lei que vem alterar o brasão do país. Interessante coincidência de datas: Dezembro de 2018 é o prazo dado para todas as instituições procederem à alteração do símbolo; Dezembro de 2018 marca, igualmente, o primeiro centenário da união do Reino da Roménia com a Transilvânia. O símbolo, além de meros retoques estéticos, adopta o design do brasão do período monárquico, antes da abdicação forçada de D. Miguel, em 1947.

As viagens diárias de metro dão-me o contacto necessário com a actualidade romena. Em poucos minutos leio as notícias do dia, em inglês, e há sempre uma ou outra que me intriga. Se há alguns dias fiquei preso aos donativos para a escultura de Brâncuși, desta vez retive o olhar no novo brasão romeno.

Klaus Iohannis, o Presidente da República, promulgou na semana passada o decreto que ordena a mudança do brasão da Roménia. Uma mudança ligeira, mas que alinha o símbolo nacional com o utilizado antes de 1947, quando o país era uma monarquia. Por mero acaso, ou como se de um passo premeditado se tratasse, a data limite para a mudança definitiva do símbolo em todas as instituições públicas, Dezembro de 2018, coincide com o primeiro centenário da unificação do Reino da Roménia com a Transilvânia. A união, resultado do desfecho da Primeira Grande Guerra, entrega a antiga região do Império Austro-Húngaro ao Reino da Roménia. E hoje, o Primeiro de Dezembro, feriado maior no país, marca a criação da Grande Roménia, um reino que colocou sob autoridade directa de Bucareste a maior extensão de terra alguma vez controlada pelos romenos.

O projecto de lei foi desenhado por deputados do PNL (Partido Nacional Liberal), do PSD e do ALDE (a Aliança dos Liberais e Democratas), tendo sido aprovado pela câmara baixa do Parlamento no passado dia 8 de Junho.

De acordo com a nova lei, o brasão é descrito como um “escudo de fundo azul, com uma águia dourada coroada, com a cabeça virada à direita, garras e bico vermelhos, asas abertas, empenhando uma cruz ortodoxa no seu bico, uma espada na garra direita e um ceptro na esquerda.”

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A pequena grande mudança é a inserção da coroa real no escudo da Roménia. Sobre a águia mantêm-se as cinco representações das regiões históricas do país: Valáquia, Moldávia, Banat, Transilvânia e Dobruja.

Às vezes perco-me em pesquisas por temas estranhos. Brasões, heráldica, os símbolos e os seus significados. Intrigam-me estas mudanças. Talvez porque enquanto português nasci e irei, provavelmente, morrer sob os mesmos ícones nacionais: a esfera armilar, o escudo, a ‘Ditosa Pátria, Minha Amada’. Há mais de cem anos que assim é (e espero que assim continue). Mas uma rápida pesquisa mostra claramente o quão mudaram os nossos símbolos. Hoje, na Roménia, a história repete-se. Mudam-se os tempos, revivem-se cores e significados. Isto é mudança, isto é História em directo!


De Târgu Jiu para o mundo

No século XIX os romenos uniram-se numa campanha que ficou imortalizada como “1 Leu para o Ateneu“. Esta foi, provavelmente, a primeira campanha de fundraising que a Roménia presenciou. Agora, em pleno século XXI, o Governo do país lançou uma segunda campanha. Já não se trata de construir um edifício imponente, antes de adquirir uma escultura. Pequena, tosca para muitos, representa uma mulher sentada. O seu autor é Constantin Brâncuși. Um homem desconhecido da maioria da população, mas um nome maior da arte mundial. Ele é considerado um dos pais da corrente de arte modernista. Nasceu no oeste da Roménia e a sua obra foi a desculpa para uma visita a Târgu Jiu.

São oito e picos. Chego à estação de metro. Até já conheço os meus companheiros de viagem. São sempre as mesmas caras. As carruagens chegam e partem carregadas que nem latas de sardinhas e, uma vez lá dentro, tenho vinte minutos para ler as notícias do dia. O resumo noticioso matinal da conta de uma iniciativa do Governo romeno de promoção de uma campanha de fundraising para adquirir uma escultura! Confesso que a notícia me chamou à atenção. Que Governo é este que, com tantas matérias com que se preocupar, anda a promover campanhas de fundraising para adquirir peças de arte? Scroll down e a resposta aparece clara como água. O autor da escultura é Constantin Brâncuși, artista romeno e nome maior da arte mundial. As suas obras estão expostas, entre outros, no Metropolitan Museum of Art, em Nova Iorque, e no Philadelphia Museum of Art. Uma espécie de Joana Vasconcelos romena do início do século XX. A escultura em questão, Cumintenia Pamantului (A Sabedoria da Terra), com data de 1907, está actualmente na posse da família do arquitecto romeno George Romascu, o qual a adquiriu em 1911.

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O esforça da campanha é grande! O antigo Ministro da Cultura, Vlad Alexandrescu, acordou em pagar 11 milhões de euros à família Romascu para transferir a titularidade da obra de privados para o Estado. Daí nasceu a iniciativa do fundraising: o Governo desembolsaria cinco milhões e os restante seis seriam reunidos através de donativos da população. Nos finais do século XIX, uma iniciativa idêntica teve sucesso e ainda hoje é possível admirar o Ateneu Romeno em pleno centro da capital. E na actualidade? Bem, no final de Maio, o fundraising tinha apenas reunido 138 mil Euros, o que representa uns meros 2.3% da grande fatia dos seis milhões necessários.

Para grande surpresa de muitos, apreciar uma obra deste artista romeno, nome cimeiro das artes, não implica necessariamente uma visita a uma galeria de Nova Iorque ou de Paris. Brâncuși dedicou à capital da região onde nasceu um importante núcleo de esculturas, motivo suficiente para me fazerem entrar num carro e percorrer seis horas de estrada (notem que não avaliei a distância em quilómetros…) para uma visita a Târgu Jiu, no interior Oeste da Roménia, já bem perto da fronteira com a Sérvia.

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O caminho faz-se sempre a Sul dos Cárpatos, ainda nas planícies da Olténia, região historicamente designada por Valáquia Menor. Entramos na Roménia rural. Mal deixamos Bucareste passamos a ter como companhia infindáveis prados verdes. Se até Pitești a auto-estrada dá-nos um pouco de modernidade, após deixarmos esta cidade embrenha-mo-nos numa Roménia rica em cores, tradições, ruralidades, cenários idílicos e condutores lunáticos! Seguimos a estrada, curva contra curva, carro atrás de carro, uma procissão infindável até que começam a surgir as primeiras indicações para  Târgu Jiu. Ainda faltam 100 quilómetros, mas só o facto de vermos uma pequena placa é suficiente para nos encher a alma de esperança em podermos, muito em breve, abandonar o espaço fechado do automóvel no qual seguíamos por horas infindáveis.

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Chegamos a Târgu Jiu já ao final da tarde. Tudo aqui respira Brâncuși: restaurantes, cafés, hotéis, parques. Todos têm Brâncuși no seu nome!

 

O artista multifacetado preparou para a sua cidade um conjunto de esculturas que atraem bastantes turistas à localidade. Designou a grande obra por Ensemble, numa homenagem aos heróis romenos durante a Primeira Grande Guerra. A Ensemble é composta por três esculturas (A Mesa do Silêncio, A Porta do Beijo e a Coluna Infinita), distribuídas ao longo de 1300 metros no interior da cidade. O conjunto é considerado uma das maiores instalações de escultura ao ar livre do século XX.

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A visita ocupa uma tarde inteira. Paramos, olhamos, observamos. Tocamos e sentimos o espírito do criador das obras. Junto à Coluna Infinita corremos o olhar até ao topo da escultura. Qual será o seu verdadeiro significado?

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Quem diria? Nos confins da Roménia, numa cidade que nem sequer aparece nos mapas, estamos na presença de peças únicas, avant-garde para o seu tempo, alvo de polémica durante o período comunista e que hoje são o elo de ligação de Târgu Jiu ao mundo! Vale a pena a visita.

 

‘Ie’, está na moda!

Cartas de Bucareste

Não, não se trata de uma interjeição tipicamente romena. ‘Ie é o nome da blusa tradicional que as mulheres romenas vestem e hoje é o seu dia especial. É uma moda antiquíssima que mistura história, folclore e arte. Esta peça de vestuário que habita o imaginário dos romenos (há contudo mais países do Leste europeu onde blusas idênticas são também utilizadas) carrega consigo o peso da cultura e tradições de cada região da Roménia.

De linho ou de algodão, a original ‘Ie’ é fabricada manualmente e tem como peça central da sua decoração motivos florais. A sua fama já galgou fronteiras e diversos estilistas bem conhecidos do mundo da moda – como Tom Ford, Jean Paul Gaultier ou Philippe Guilet – basearam-se nos seus motivos para criar novas peças de roupa. Também o francês Henri Matisse chegou a pintar uma série de quadros onde o foco central eram as mulheres romenas com esta peça de vestuário.

Hoje…

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