Pelos caminhos da Roménia: Craiova

Hoje vamos para Sul. Entre mim e o Danúbio, nas vastas planícies da velha Valáquia Menor, encontro a cidade de Craiova. Localidade histórica, já com a raia búlgara e sérvia por perto, esta é uma das maiores urbes do país, centro industrial e stop obrigatório para quem se encontra nestas paragens.

Setembro de 2014: depois de um jantar rápido, as assistentes de bordo desligaram as luzes da cabine. Adormeci. Quando voltei a abrir os olhos, já a madrugada ia avançada. Tínhamos deixado Lisboa há já quase três horas e meia. Pela janela do A320 da TAP vejo, lá em baixo, uma grande mancha laranja. Olhei para o mapa e estávamos a sobrevoar Craiova. Pouco tempo depois aterraríamos em Bucareste, mas na minha memória ficaria aquele clarão no meio da noite; o primeiro pedaço de terra romena que havia visto.

Passou mais de um ano até, finalmente, visitar Craiova. À boleia da volta a Târgu Jiu, o caminho de regresso à capital tinha de implicar, obrigatoriamente, uma paragem nesta cidade do Sul do país.

Centro histórico, económico e político da Olténia, o ocidente da província histórica da Valáquia, Craiova granjeou fama e importância ao longo de vários séculos. Localizada numa vasta planície, a região foi sempre propícia à agricultura. Estando no cruzamento de vários impérios, a cidade foi sendo sucessivamente governada, pilhada, destruída e reconstruída por diversos impérios: romanos, otomanos, austro-húngaros, até ser incluída, definitivamente, no Reino da Roménia.

Na década de 60 do século XX, em pleno regime comunista, a cidade assistiu a um forte impulso do seu sector industrial. Ainda hoje, Craiova permanece como um dos mais importantes pólos industriais do país, com especial destaque para a indústria automóvel.

Actualmente, a urbe conta com cerca de 300 mil habitantes, tornando-a a sexta maior cidade romena. A par do sector industrial, a sua famosa universidade e o clube de futebol FC Universitatea Craiova (que entretanto foi extinto) são nomes que colocam Craiova no topo dos noticiários do país. O seu centro histórico, recuperado recentemente, é o principal atractivo para os turistas que visitam a cidade.

Vamos nós também visitar a cidade!

Nota: devido a um pequeno problema técnico, as fotografias que tirei não ficaram gravadas no computador. Por isso, as imagens aqui utilizadas foram retiradas da Wikipédia.

Revogado!

Revogado! O decreto-lei aprovado pelo Governo, que passaria a institucionalizar a pequena corrupção na ordem jurídica da Roménia, foi revogado este Sábado. Uma vitória para os milhares de cidadãos que durante uma semana saíram à rua, todas as noites, para se manifestarem contra o governo. De facto, é necessário recuar a 1989, aquando da queda do regime de Ceauşescu, para nos recordarmos de um movimento cívico idêntico. A democracia continua viva por estas bandas!

Está foi uma semana de noites agitadas pelas principais cidades romenas, com especial destaque para Bucareste. Milhares de cidadãos marcharam contra o Governo, recém-eleito, numa campanha que pretendia a revogação do decreto-lei aprovado na passada Terça-feira. Um decreto-lei que previa diversas alterações ao Código Penal da Roménia. Resumidamente, a mudança viria a alterar a definição de abuso de poder e de conflito de interesses, descriminalizando actos que até à actualidade seriam considerados crimes.

Como escrevi ainda esta semana em “Bucharest, we have a problem”:

Em termos práticos, e aqui nasce a razão para a revolta popular, o novo Ministro da Justiça, Florin Iordache, propôs – e o Conselho de Ministros aprovou – que qualquer acto de um agente que prejudique o Estado ou uma entidade pública até ao valor de 200 mil Lei (44 mil Euros) não seja considerado como crime. Desta forma, qualquer acto de corrupção inferior a este montante não será alvo de investigação e consequente condenação. Para piorar a fotografia, num país que se mantém no topo da lista dos Estados mais corruptos do mundo desenvolvido, o decreto-lei agora aprovado é retroactivo, quer a casos sob investigação, quer a casos que já tenham transitado em julgado. Impressionante a falta de respeito pelo Estado de Direito!

De acordo com o site Hotnews.ro, esta lei vai directamente beneficiar políticos de topo ligados ao partido do Governo. É o caso de Liviu Dragnea, presidente do Partido Social Democrata – que, aliás, Klaus Iohannis recusou indigitar como Primeiro-Ministro -, o antigo Ministro da Administração Interna, Gabriel Oprea, assim como o ex-Ministro dos Transportes, Dan Sova. Esta medida é vista como uma forte machadada ao papel de combate à corrupção, que estava a dar resultados, levada a cabo pela Direcção Nacional de Anti-Corrupção (DNA).

A reação da população foi automática: cartazes, vuvuzelas, assobios, tarjas e bandeiras passaram a encher a Piaţa Victoriei, assim como as principais praças das maiores cidades do país. Ouviam-se palavras de ordem como “demissão”, “vergonha”, “rua”. A situação foi acompanhada pelos principais órgãos de comunicação social do mundo (BBC, CNN, Euronews, Washington Post, Expresso). Em causa estava uma reviravolta jurídica que passaria a aceitar a corrupção como algo natural no país. A pressão foi subindo durante toda a semana. O Presidente romeno, Klaus Iohannis, com limitadíssimas opções de acção nesta situação, a Comissão Europeia, assim como os governos dos Estados Unidos, França e Alemanha declararam-se preocupados pelo rumo que Sorin Grindeanu, o novo Primeiro-ministro, estava a tomar.

Na rua, o número de manifestantes foi aumentando também. Chegaram a estar 150 mil pessoas em frente ao Palácio da Vitória, a sede do Governo; trezentas mil, em simultâneo, por todo o país. Na noite de Quarta, os ânimos aqueceram mais do que se estava à espera. Uma claque de um clube de futebol local atacou a polícia. A carga policial dizimou os manifestantes mais reaccionários. Contam-me que está acção foi paga pelo Governo para descredibilizar os manifestantes pacíficos. A realidade é que no dia seguinte a polícia conseguiu deter, antes de alcançarem a Piaţa Victoriei, um segundo grupo que estaria a tentar desestabilizar novamente a manifestação.

Contrariamente ao silêncio do Governo, a voz da população ia crescendo nas ruas. Para hoje, Domingo, vários grupos na rede social Facebook apelavam à participação de um milhão de romenos numa grande manifestação na capital. Contudo, no Sábado à noite, o Primeiro-ministro Sorin Grindeanu fala às televisões nacionais.

“Amanhã [domingo] vamos promover uma reunião do Governo para revogar este decreto (…) Não queremos dividir a Roménia. O país não pode estar dividido em dois”.

É uma vitória para a população! O Estado de Direito e a Democracia ganharam! Grindeanu escusa-se numa falha de comunicação com a população. Só o pode ter dito em modo irónico, mas esta lei, nas palavras dele, não queria, de facto, a despenalização a corrupção… Antes, ser um instrumento para de uma vez apenas libertar mais de 2500 presos, condenados por corrupção, que sobrevivem em míseras condições nas sobrelotadas prisões romenas. Não me custa creditar que o Primeiro-ministro tenha dito isto, custa-me sim acreditar que teve a lata de o dizer em directo para todo o país!

Às 20h30 da noite, as últimas notícias dão conta de 200 mil manifestantes em Victoriei. Longe do um milhão falado ao longo da semana, mas muito mais longe de uma contra-manifestação, nascida hoje, noutro ponto de Bucareste. Junto ao Palácio de Cotroceni, a residência oficial do Presidente, um reduzido grupo de 700 cidadãos, na sua grande maioria reformados, protestam contra Klaus Iohannis. Acusam o Presidente de traição e sugerem que a DNA, a agência anti-corrupção, seja encerrada! Sem comentários!

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Num sinal de que esta não é uma causa apenas para adultos, este Sábado, muitos jovens reuniram-se à volta do Palácio do Parlamento, criando um gigantesco cordão humano. Interessante por duas razões simbólicas: por um lado, os jovens, o futuro do país, sentem-se impelidos a ter uma voz activa neste momento crítico da história do país; por outro, o gigantismo do edifício, mandado construir por Ceauşescu, não desmotivou a vontade dos mais novos.

As televisões nacionais enviam-nos imagens em directo de todo o país. Há milhares de romenos nas ruas. Canta-se o hino. Festejam a revogação do decreto-lei, mas querem mais. São 21h e no palco principal de todas as manifestações um impressionante mar de 250 mil pequenas luzes iluminam a Piaţa Victoriei. Uma constelação, uma grande força humana que luta por uma Roménia mais próspera, democrática e livre.

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Agora, o próximo grande objectivo é a demissão do Governo social-democrata, centro-esquerda, liderado por Sorin Grindeanu. Conseguirá o povo fazer vergar o Executivo? Ficamos à espera…

Bucharest, we have a problem!

Recém chegado ao poder, o Governo da Roménia está a deixar a população à beira de um enorme ataque de fúria. O país está em alvorosa! Os olhos dos media internacionais estão a noticiar o que aqui se passa com desconfiança. São anunciadas longas marchas pelas principais cidades romenas. Ontem à noite, em frente ao Palácio do Governo, milhares gritaram contra uma lei que, na palavra de muitos, veio legalizar a corrupção no mundo político. 

Desde que cheguei à Roménia já assisti a dois grandes momentos de exaltação da sociedade. Momentos marcantes na história recente do país que obrigaram a sociedade a sair à rua e dizer “basta!”. Mas, se da primeira vez, no rescaldo da tragédia do Clube Colectiv, o resultado foi a queda do Governo, desta, qual será o destino de tanta manifestação popular? Não se trata de uma mera questão interna sem interesse para a Europa e para o mundo. Não! O assunto é a corrupção. A corrupção no meio político parece ter sido oficialmente institucionalizada na ordem interna do país. O tema é tão mais importante quando temos, não apenas Klaus Iohannis, o Presidente Romeno, mas também a Comissão Europeia e os principais órgãos de comunicação social mundiais a reportar a agitação romena.

O recém eleito Governo social-democrata, centro-esquerda, liderado por Sorin Grindeanu, acabou de aprovar esta madrugada, a reboque da discussão sobre o Orçamento de Estado para 2017, um decreto-lei com diversas alterações ao Código Penal da Roménia. Resumidamente, a mudança vem alterar a definição de abuso de poder e de conflito de interesses, descriminalizando actos que até à actualidade seriam considerados crimes.

Em termos práticos, e aqui nasce a razão para a revolta popular, o novo Ministro da Justiça, Florin Iordache, propôs – e o Conselho de Ministros aprovou – que qualquer acto de um agente que prejudique o Estado ou uma entidade pública até ao valor de 200 mil Lei (44 mil Euros) não será considerado como crime. Desta forma, qualquer acto de corrupção inferior a este montante não será alvo de investigação e consequente condenação. Para piorar a fotografia, num país que se mantém no topo da lista dos Estados mais corruptos do mundo desenvolvido, o decreto-lei agora aprovado é retroactivo, quer a casos sob investigação, quer a casos que já tenham transitado em julgado. Impressionante a falta de respeito pelo Estado de Direito!

De acordo com o site Hotnews.ro, esta lei vai directamente beneficiar políticos de topo ligados ao partido do Governo. É o caso de Liviu Dragnea, presidente do Partido Social Democrata – que, aliás, Klaus Iohannis recusou indigitar como Primeiro-Ministro -, o antigo Ministro da Administração Interna, Gabriel Oprea, assim como o ex-Ministro dos Transportes, Dan Sova. Esta medida é vista como uma forte machadada ao papel de combate à corrupção, que estava a dar resultados, levada a cabo pela Direcção Nacional de Anti-Corrupção (DNA).

O Presidente da República, com reduzidos poderes de controlo sobre o Executivo romeno, mas que não se demorou em juntar aos protestos populares, enviou à população a mensagem de que “The PSD and ALDE Government has ignored the dreams and aspirations of millions of free Romanians who want to live in a country freed from corruption. Today, the PSD and ALDE Government cancelled the efforts made by millions of Romanians to make Romania a respected country in Europe”.

A Comissão Europeia já declarou que “We are following the latest developments in Romania with great concern”, e o Governo Francês, através do chefe da diplomacia gaulesa, Harlem Désir, avança que “Romania must continue to strengthen rule of law”.

Nos media internacionais, o inusitado decreto-lei também é alvo de atenção. A Euronews noticia “Protestos em Bucareste pedem a demissão do Governo”.

A britânica BBC faz eco dos avisos de Bruxelas às tentativas de mudança do Código Penal; do outro lado do Atlântico, o New York Times descreve, também, o alcance desta nova regra em “Romania’s Govt descriminalizes official misconduct”.

Esta noite, à imagem do que tem vindo a acontecer recentemente, esperam-se fortes manifestações nas ruas de Bucareste. Ao mesmo tempo, os olhos do estrangeiro estão centrados na Roménia. São os mais jovens que se fazem ouvir na espaçosa Piaţa Victoriei. São um sinal de que a sociedade não morreu. Ainda há quem lute por uma Roménia moderna e evoluída. Agora, após o avanço do Governo, os manifestantes têm uma última esperança em outras duas instituições públicas: o Conselho Superior de Magistratura (CSM) e o Tribunal Constitucional (TC). O CSM, que tinha anteriormente emitido um parecer negativo face à alteração do Código Penal, votou hoje, 1 de Fevereiro, enviar o decreto-lei para apreciação da sua constitucionalidade junto do TC. É agora na justiça que se vai resolver esta questão de justiça.

Os próximos dias serão, estou certo, de grande contestação popular. Aguardemos, então, a resposta do Constitucional a este caso que, aos meus olhos, é um claro sinal de afastamento da Roménia do rumo da democracia e do Estado de Direito.

Romenos do Mundo, uni-vos!

Roubo (e adapto) a Karl Marx e Friedrich Engels o slogan de hoje. Um post curto, apenas para falar de História e política. Hoje, 24 de Janeiro, o dia da União. Outra vez da União? Mas isso não é em Dezembro? Sim e não. Vamos descobrir.

Dois mil e dezassete começou com dois novos feriados no calendário romeno. O Primeiro de Junho, Dia da Criança, e o 24 de Janeiro, Dia da União. Muitos estarão agora a interrogar-se se a Festa da União não é, afinal, celebrada no Primeiro de Dezembro. A resposta é sim e não! A União de 24 de Janeiro de 1859 é diferente da Grande União de 1 de Dezembro de 1918. Se nesta última data celebramos a criação da Grande Roménia – a maior extensão de territórios alguma vez sob domínio romeno -, através da união das Províncias da Moldávia, Valáquia, Transilvânia, Bucovina e do Banat, 1859 é a data central na história da formação da Roménia enquanto Estado moderno.

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A União dos Principados da Moldávia e da Valáquia, a raiz do futuro Reino da Roménia, foi o nome dado à união destas duas provínicas sob o domínio de Alexandru Ioan Cuza. Um pedaço de história que opôs os líderes dos impérios Otomano, Russo, Austro-Húngaro, assim como forças francesas, prussianas e inglesas, pelo controlo deste canto do Sudeste europeu. Os arranjos políticos impediram que as duas províncias se declarassem independentes de Constantinopla, mas não previram que o mesmo homem pudesse assumir o poder nas duas capitais, Bucareste e Iași. Cuza foi eleito Domnitor das duas províncias (1859) e cedo promoveu a criação de um Estado unificado (1862), recebendo para tal o apoio político de potências estrangeiras. Um golpe de Estado, logo em 1864, fragilizou a sua acção, mas é apenas dois anos mais tarde, em 1866, que Cuza se vê obrigado a abdicar do cargo. Para o substituir, chega da Alemanha Karl de Hohenzollern-Sigmaringen, que, após a independência (1877/1878), se tornaria o primeiríssimo rei dos romenos, Carol I.

Alexandru Ian Cuza

Alexandru Ioan Cuza

Alexandru Ioan Cuza, figura cimeira da história da Roménia, foi o cimento que uniu os romenos e que criou as bases do Estado moderno do país. Graças à sua determinação e bravura na luta contra Constantinopla, actual Istambul, a Roménia deve-lhe, com certeza, parte da sua independência!

Hoje, como se de uma questão existencial se tratasse, o rio Prut (a fronteira entre a Roménia moderna e a República da Moldova) continua a ser uma cicatriz muito sensível nas relações entre Bucareste e Chișinău. Afinal de contas, aquilo que um punhado de homens do século XIX uniu, Moscovo, no rescaldo da Segunda Grande Guerra, fez tábua rasa. Hoje, das duas margens ouvem-se vozes de união e de separação; de romanização e russificação; de ocidente e oriente. A sociedade, apática, assiste às manobras políticas. Ironia ou não, mensagem subliminar ou apenas, como muitos querem crer, um presente, numa recente visita à Federação Russa, Vladimir Putin ofereceu ao seu homólogo moldavo, Igor Dodon, uma mapa do século XVIII do Principado da Moldávia. Não seria nada de especial ou não fosse este mapa incluir vários territórios pertencentes à actual Roménia. O mapa que Cuza usou quando uniu os Principados no que viria a ser o futuro Reino da Roménia.

Uma Roménia ao estilo canadiano?

Iniciamos o ano com política. No mês em que a Roménia celebra uma década de adesão à União Europeia, o país assistiu, finalmente, à nomeação de um novo governo. Digo “finalmente” pois a Roménia esteve a pouca distância de ter sido pioneira na política do Velho Continente. Mas não! Se há pouco mais de um ano era o partido mais contestado na rua, hoje o PSD regressa à cadeira do poder. A partir da sede do Governo, na Piaţa Victorei, o Partidul Social Democrat, o centro esquerda romeno, volta a conduzir os destinos do país. Os protestos já estão ao rubro!

Estão muitos graus negativos lá fora. À porta de casa encontro 40 ou 50 centímetros de neve. Confesso que a vontade de ir à rua tirar fotos a tanta neve é, e estou a ser simpático, mínima. As fotos dos anos anteriores descrevem na perfeição o cenário que esta semana vivemos aqui em Bucareste. Começo, então, o ano de blogger com um pequeno comentário à intensa actividade política que a Roménia viveu entre Dezembro e Janeiro.

Palácio da Victória, na Piaţa Victorei

As eleições legislativas, que tiveram lugar a 11 de Dezembro, voltaram a colocar no Palácio da Victória um governo liderado pelos sociais-democratas romenos. Um resultado surpreendente! Há pouco mais de um ano este mesmo partido foi “expulso” do seu exercício após fortes protestos populares em resultado do incêndio do Clube Colectiv.

Em 2015, no rescaldo do Colectiv e da contestação nas ruas das principais cidades, Klaus Iohannis, Presidente da República, nomeou um governo de tecnocratas, liderado por Dacian Cioloș, à data Comissário Europeu da Agricultura, durante a segunda presidência de Durão Barroso na Comissão Europeia. Apesar das evidentes ligações ao Partido Nacional Liberal (PNL), Cioloș sempre se apresentou como independente.

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Dacian Cioloș, ex-Primeiro-Ministro

Pelo que tenho sentido, as medidas tecnocratas do anterior governo estavam a ser bem recebidas pelas gerações mais novas. Contudo, os líderes da oposição acusavam Cioloș de falar uma “língua estrangeira”, na qual as gerações mais velhas não se reviam. A resposta do então Primeiro-Ministro era a que não falava a língua do populismo.

No dia da eleição, a sua “língua estrangeira” pouco ou nada lhe valeu! O canal Digi24 noticiava que o voto popular de 11 de Dezembro tinham dado ao PSD a victória: 45% dos lugares da Câmara Baixa do Parlamento (154 deputados). O segundo partido, o PNL, que tinha como cabeça de lista o próprio Cioloș, ficou com 20% (69 deputados). Em terceiro surge a União para a Salvação da Roménia (USR), a mais recente start up política romena, com quase 9% dos votos (30 deputados). Mais abaixo na tabela surge a Aliança dos Liberais e Democratas (ALDE), com apenas 6% (9 deputados), mas que, ao coligar-se com o PSD, torna-se, igualmente, parte do novo executivo romeno. A percentagem de votantes foi a mais baixa desde 1989: apenas 39,5% dos eleitores compareceram às urnas, nota a Euronews.

Um governo à canadiana?

O PSD, liderado por Liviu Dragnea, cedo se colocou em rota de colisão com o actual Presidente. Iohannis foi claro e directo na sua mensagem: não indigitaria nenhum candidato com cadastro criminal. Elementar, penso eu! Dragnea foi condenado a uma pena suspensa de dois anos de prisão por fraude eleitoral, uma sentença que, de acordo com a lei, lhe veda o acesso ao cargo de chefe de governo.

Para contornar o imbróglio político, o PSD apresenta, então, uma mulher para liderar o executivo romeno. E aqui, a momentos de se fazer história, Iohannis volta a bloquear as pretensões dos sociais-democratas. Seria um pequeno grande detalhe que colocaria o país nos livros de história política de uma Europa essencialmente cristã.

“Ponderei com cuidado os argumentos a favor e contra e decidi não aceitar esta proposta”, afirmou Klaus Iohannis, citado pela agência France Press.

O PSD tinha indicado o nome de Sevil Shhaideh. Estávamos a passos de ter, pela primeira vez na história, uma mulher muçulmana aos comandos de um Estado membro da União Europeia.

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Sevil Shhaideh

““Peço à coligação liderada pelo PSD para apresentar outra proposta”, afirmou Iohannis numa declaração à televisão romena. O chefe de Estado não apresentou qualquer justificação para rejeitar o nome de Shhaideh, que pertence à comunidade turca do país e é casada com um empresário de origem síria”, escreveu o Expresso.

A resposta não tardou. Liviu Dragnea declarou: “De facto, este homem pretende espoletar uma crise política na Roménia. Não é uma decisão fácil. Vamos fazer uma análise rápida e se, depois disso, chegarmos à conclusão de que é vantajoso para o país suspender o presidente, não hesitarei.”

A solução para o impasse político chegou pouco depois. Dragnea, apesar de ser o nome preferido do partido, acabaria por indicar Sorin Grindeanu, político que acabou por ser indigitado por Iohannis e, largamente, apoiado por maioria parlamentar. O novo governo inclui um impressionante número de 29 ministérios, oito dos quais liderados por mulheres. Shhaideh, impedida de liderar o governo, foi nomeada Vice-Primeira-Ministra, ficando responsável pela pasta do desenvolvimento e fundos europeus.
Ao dirigir-se aos deputados da Câmara Baixa, Grindeanu desejou “uma Roménia normal, onde os jovens não tenham de sair para conseguir ter salários decentes”.

Sorin Grindeanu, o novo Primeiro-Ministro

Estado de graça?

Durou pouco. Diria mesmo, nada!

“Milhares de romenos saíram para as ruas esta quarta-feira em protesto contra um projeto-lei do Ministério da Justiça com vista a conceder perdões, por exemplo, a quem foi sentenciado com penas de prisão inferiores a cinco anos.

A proposta em estudo visa ainda a descriminalização de abusos de poder que tenham custado aos cofres do Estado menos de 200.000 lei (cerca de 45 mil euros).

O Presidente da Roménia é outro dos opositores do projeto-lei em estudo. Klaus Iohannis marcou presença esta quarta-feira num conselho de Ministros e apelou aos membros do governo para não deixarem passar “da noite para o dia” uma lei que pode prejudicar o combate à corrupção no país.”, avança a Euronews.

Parece que a população urbana do país não se revê nesta medida que o novo Governo insiste em aprovar. Numa Roménia que assiste quase diariamente ao mediatismo das detenções de personalidades públicas por causa de casos de desvios de fundos públicos e corrupção activa, este decreto-lei parece deitar por terra todo o esforço de formiga que as autoridades de Bucareste vêm a empreender desda há um punhado de anos. Espero, sinceramente, que tal não avance!

Por momentos, pensei que poderíamos ter um governo romeno ao estilo canadiano. Por lá, é fácil encontrar ministros com origens não canadianas (representando as várias comunidades que habitam o país); por cá, uma tentativa semelhante começa a desenvolver-se. Começamos pela comunidade muçulmana, mas ainda há um longo percurso para incluir húngaros, moldavos ou, até, os esquecidos lipovanos do delta do Danúbio.

Habemus lumina

Todos os anos é assim: as ruas ganham um novo brilho quando nos aproximamos do Natal. E na semana em que Bucareste foi considerada uma das cidade europeias mais “brilhantes” na quadra natalícia, fui à rua ver a razão de tal classificação. Ainda não há neve, mas, em compensação, encontramos três milhões de pequeninas luzes pelas principais artérias da capital.

No passado Primeiro de Dezembro, festa nacional na Roménia, a Presidente da Câmara Municipal de Bucareste, Gabriela Firea, inaugurou a iluminação de Natal da capital. Este ano, três milhões de pequeninas luzes adornam as principais avenidas da cidade.

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O site MSN.com fez uma interessante lista com as cidades mais brilhantes desta época no Velho Continente. Em terceiro lugar surge Bucareste. Não sei quem é o autor desta listagem… mas lanço o convite para visitar a cidade. É que a imagem utilizada para Bucareste nem é se quer actual! Não, ainda não nevou (como demonstra a imagem) e, segundo, aquele edifício é o Ateneu Romeno e não se encontra na Piața Universității, antes na Piața Revoluției. Detalhes, direi eu…

A lista, liderada por Paris, inclui ainda Berlim, Budapeste, Copenhaga, Cracóvia, Edimburgo, Helsínquia, Londres, Madrid, Praga, Roma, Varsóvia e Moscovo.

E já que chegámos à época mais fria do ano, outras das grandes tradições da cidade é o seu Mercado de Natal. O sucesso do evento tem sido tanto que este ano as autoridades deslocaram o mercado para a espaçosa Piața Constituției. É certo que o anterior local, a Piața Universității, era mais central e com uma estação de metro a menos de 100 metros do mercado, mas o espaço era ridiculamente pequeno para o volumoso número de visitantes. Agora, o Bucharest Christmas Market localiza-se no início da Bulevard Unirii, mesmo em frente ao Palácio do Parlamento. É um cenário de veras imponente: entre um dos maiores edifícios do mundo e uma das mais largas avenidas da Europa, o Mercado de Natal oferece agora mais espaço para os visitantes, uma área de restauração mais ampla e com maior oferta, assim como novas atracções, como um ringue de gelo. Maior significa também mais pessoas por perto… e a fila para o divinal kürtőskalács (aquele kürtős pelo qual espero religiosamente um ano para comer) é interminável. Mas só tenho oportunidade de o provar uma vez por ano, por isso a espera vale a pena!

Para quem visita o país nesta altura festiva, aqui fica a lista de outros mercados de Natal nas principais cidades romenas.

Estações de metro mais próximas: Izvor (Linhas M1 e M3), 700 metros e Unirii (Linha M2, M1 e M3), 750 metros.

DIA DE SÃO NICOLAU

Países diferentes, tradições diferentes.

É sempre engraçado partilhar as diferenças culturais que afastam ou aproximam Portugal e a Roménia e o dia seis de Dezembro é uma delas. Para os ortodoxos, seis de Dezembro é dia de São Nicolau, o Pai Natal. Neste dia as crianças recebem pequenos chocolates e bombons dentro dos seus sapatos e meias. Segundo os meus colegas, é um bom prenúncio para saber se vai haver muitas ou poucas prendas na noite de Natal. Se os meninos e as meninas se comportarem bem, os sapatinhos vão transbordar de doçuras!

São Nicolau

São Nicolau é o Patrono da cidade de Alicante, da Rússia e da Grécia. Foi bispo de Mira, na Turquia, tendo viajado para a Terra Santa e para o Egipto. Faleceu em 325. Em 1087 as suas relíquias foram levadas até Bari, em Itália, passando, desde então, a ser conhecido como São Nicolau de Bari. Conta a tradição que em Mira São Nicolau tinha um grande afecto pelos meninos pobres da cidade.

Voltamos ao Primeiro!

Voltamos ao Primeiro de Dezembro e, desta vez, Roménia e Portugal celebram a data em uníssono. Um marco histórico que marca há décadas (centenas de anos para os portugueses) a História dos dois países. Hoje, aqui em Bucareste, as Forças Armadas desfilaram nas largas avenidas do Norte da capital. Meios terrestres, aéreos e 3000 soldados, alguns de forças aliadas, exaltaram o orgulho romeno. Misturei-me no meio da multidão, no meio de um mar de tricolores, para sentir o bater patriótico romeno. Mas o que celebram os romenos?

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Está frio! Ainda não estão aquelas temperaturas congelantes, mas -3ºC já nos obrigam a carregar um bom casaco e cachecol. A multidão concentra-se na estação de metro de Aviatorilor, a mais perto do local da parada militar. Este ano, com o Arco do Triunfo totalmente renovado (após mais de dois anos em obras de restauro), o desfile voltou à sua casa habitual. As largas artérias propiciam um espectáculo sincronizado entre forças terrestres e aéreas. Exército, Força Aérea e Marinha, incluindo forças aliadas da OTAN, cruzam o arco em sinal de vitória. Mas, o que celebram os romenos?

O Primeiro de Dezembro é um dia maior na história dos nossos dois países. Se por um lado os romenos relembram o dia em que todas as províncias de maioria romena se uniram sob um único Estado, para nós, portugueses, esta data simboliza a reconquista da soberania face aos Filipes de Espanha. O dia em que terminou um infame período de 60 anos de governação castelhana. Seis décadas que nos arrastaram para guerras que não eram nossas e que no final deixaram marcas profundas em toda a sociedade portuguesa. Não será à toa, digo eu, a quantidade de tão poucos simpáticos ditados populares que temos referentes ao país vizinho. Nem, tão pouco, uma desconfiança que nasce connosco (ou pelo menos com muitos de nós) face a quem está no outro lado da fronteira.

Aqui, na Roménia, este dia marca a Grande União (Ziua Marii Uniri) da Transilvânia com a Roménia. E o que nos contam os livros de história?

Na velha Dácia, um sonho antigo era acalentado há muito: a criação da Grande Roménia. A união de todos os romenos sob um único Estado.

Agosto de 1916:
As autoridades romenas assinam um acordo secreto com a Tríplice Entente (Reino Unido, França e Rússia) tendo em vista a entrada do país na guerra contra a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria-Hungria e Itália), caso, no final da Primeira Grande Guerra, as primeiras reconhecessem a soberania de Bucareste sobre a Transilvânia, o Banat e a região de Partium.

Dezembro de 1918:
Ventos de mudança sopram por todo o Velho Continente. A guerra acabou!
A declaração da Assembleia Nacional de Alba Iulia foi o pontapé de saída para um momento único na história recente da Roménia. As centenas de deputados reunidos nesta cidade da Transilvânia declararam a união da região, assim como da Bucovina e do Banat, com o Reino da Roménia. Aliás, Alba Iulia vem reforçar a também recente declaração de união dos territórios da Bessarábia com o reino romeno. Nasce a Grande Roménia! Um sonho tornado realidade.

Assembleia de Alba Iulia, 1918

Assembleia de Alba Iulia, 1918

A nova soberania de Bucareste viria a ser reconhecida em 1919, através do Tratado de Versailles, e as fronteiras definitivas entre a ‘nova’ Roménia e a Hungria ficariam oficialmente estabelecidas apenas um ano mais tarde, entre 1919 e 1920, com os Tratados de St. Germain e Trianon, respectivamente.

A Grande Roménia sobreviveu até ao dealbar da Segunda Grande Guerra, quando o país, seguindo os planos do Pacto Molotov-Ribbentrop, cedeu os territórios da Bessarábia (actual República da Moldova) à União Soviética. Perderia ainda o Norte das regiões da Bucovina e de Herța, em favor da Ucrânia, assim como o Sul da província de Dobruja, cedida à vizinha Bulgária.

Evolução do Território Romeno

A Segunda Grande Guerra terminou, a Guerra Fria tem o seu início e a Roménia passa a ser um Estado satélite de Moscovo. Contudo, a ideia de uma grande Roménia não é abandonada. É certo que oficialmente a ideia nunca mais teve apoio político inequívoco para se concretizar, mas ainda há muitos que sonham com a reunião de todos os romenos num só Estado.

Hoje, a Roménia mantém as mesmas fronteiras desde 1948. Aqui e ali encontramos espíritos mais expansionistas, mas nada que incomode o residente no Palácio de Cotroceni. A parada militar, muito ao grande estilo soviético, e que este ano teve como ponto alto o voo dos “novos” caças F16 adquiridos a Portugal, relembra a todos a importância deste dia. 1 de Dezembro, o dia da Grande União, o dia em que todos os romenos passaram a viver sob um único Estado.

La mulți ani, România!

A última morada

Paredes meias com o Parque Tineretului, esconde-se, atrás de um pequeno muro decorado com repetidas cruzes brancas, o Bellu. Passaria despercebido não fosse este o mais importante cemitério de Bucareste. Se de Lisboa falássemos, este seria o irmão do Cemitério dos Prazeres. Entre heróis da literatura, da história, da música, das guerras e da política, uma visita a este cemitério é uma viagem à arquitectura funerária da Roménia, num passeio que reúne famosos e anónimos ao longo de três séculos. Agnus Dei, de Samuel Barber, acompanhou-me na visita.

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“Relativamente perto do centro da capital, na convergência das ruas Giurgiului e Olteniței, encontramos o maior e o mais importante dos cemitérios de Bucareste, o Bellu. Além do comum dos mortais, este local é também a última morada para muitos artistas, cientistas, poetas, escritores e políticos. Uma espécie de grande panteão ao ar livre, nascido no século XIX e que veio modernizar a tradição de enterrar os entes queridos à volta das igrejas e capelas do país. Esta foi, à luz do seu tempo, uma abordagem revolucionária à criação de cemitérios, mas, em simultâneo, resolveu os problemas de salubridade pública que os tradicionais locais para enterrar os falecidos acarretavam para uma cidade em crescimento acelerado”, in Um Exemplo de Paz.

A tarde ensolarada deste início de Novembro, quando a Natureza nos pauta com uma palete de cores de fogo, foi a desculpa para uma saltada ao Bellu. Apesar de passar à sua porta todos os dias, a visita estava aqui na minha wishlist há muito tempo. Do lado de fora, o agitado trânsito não deixa perceber o silêncio que faz do outro lado daquele muro longo e despido de grandes beldades. Cruzado o portão principal entramos na última morada de milhares de romenos (e não só). Uma amálgama de história, de jazigos, de cruzes, de esculturas e simbologias – a fúnebre, a morte e a imortalidade, as profissões, etc – emoldurada por grandes árvores que agora, com o Inverno a caminho, vão perdendo as frondosas folhagens que trazem sombra e paz a este jardim de almas.

Também aqui, num canto do cemitério, encontramos um pequeno memorial aos soldados franceses (e de origem argelina – a Argélia era então uma colónia francesa) mortos em território romeno durante a Primeira Grande Guerra.

Numa próxima oportunidade visitaremos o Bellu Católico e, do outro lado da avenida, o cemitério Judeu.